Quem acompanha o Autoentusiastas, como eu, provavelmente dedica mais tempo a comparar fichas técnicas do que a refletir sobre o que acontece com um carro quando ele chega ao fim da vida útil. Estamos acostumados a falar de potência, dirigibilidade, soluções técnicas bem aplicadas, estilo, prazer ao volante. E é isso que nos move.
Mas a verdade é que os carros também deixam rastros. Literalmente. Toneladas de materiais, plásticos em especial, que não desaparecem quando um modelo sai de linha ou vai para o desmanche. E, por mais que o assunto pareça distante da emoção que a gente sente ao guiar, talvez ele devesse fazer parte da nossa conversa.
Você se preocupa com isso? Considera sustentabilidade nas suas decisões de consumo? Acredita que isso tem a ver com o mundo e com o que está acontecendo com ele? Costuma conversar sobre o tema?
Essas perguntas fazem parte do meu dia a dia. Mas, mesmo tentando, ainda não consigo me orientar de maneira plenamente coerente com os princípios da sustentabilidade, especialmente considerando o estilo de vida ao qual nos acostumamos.
Um estilo de vida que, em muitos aspectos, é egoísta. Do tipo: se o meu vizinho, o meu concorrente ou a marca que eu admiro não se preocupam, por que eu deveria me preocupar? A culpa não é minha. É deles.
Só que tem um ponto que, para mim, não dá mais para ignorar: os fabricantes de veículos não apenas podem, mas precisam contribuir para soluções concretas. A conversa sobre sustentabilidade precisa ir além da eletrificação. E é aí que entra o tema da circularidade. Cada carro produzido carrega uma quantidade considerável de materiais que, no fim de sua vida útil, se tornam um problema ambiental sério, especialmente os plásticos, que são pouco reaproveitados e quase sempre descartados.
É curioso como associamos poluição plástica a garrafas PET, principalmente à imagem icônica da Coca-Cola boiando em rios e praias. E ainda assim seguimos admirando a marca, seguimos comprando. O consumo cresce ano após ano. É como se a familiaridade com essas empresas nos imunizasse contra qualquer senso de responsabilidade. E o mesmo acontece com muitas outras marcas que amamos.
Preferimos ignorar as consequências do que rever nossos hábitos.
Alguns fabricantes de automóveis, porém, têm se movimentado, mesmo que timidamente. A BMW, por exemplo, desenvolveu o conceito i Vision Circular, um carro 100% pensado para circularidade, com componentes projetados para serem reciclados e reutilizados. A marca também tem como meta usar até 50% de materiais reciclados em seus veículos até 2030.
Já a Volvo estabeleceu que 25% dos plásticos usados em seus modelos deverão vir de fontes recicladas já em 2025, além de investir em cadeias de fornecimento mais limpas e rastreáveis. A marca trabalha com uma meta clara: tornar-se uma empresa totalmente circular até 2040.
Esses são exemplos ainda isolados, mas apontam para um caminho que precisa ser trilhado. E por ações como essas ganharam minha admiração.
E nós, como consumidores, precisamos deixar de tratar essas iniciativas como notas de rodapé. Elas devem ser critério de decisão. Devem nos fazer pensar, nos orientar, nos mobilizar. Foi com esse espírito que me deparei recentemente com um artigo do World Economic Forum (site que recomendo) que trata de uma questão central para o futuro da sustentabilidade automotiva.
O artigo foca em uma das frentes mais urgentes da circularidade: as ações concretas para mitigar o impacto de tudo aquilo que já foi produzido, e que ainda está sendo produzido, sem qualquer lógica circular. Ele expõe a enorme quantidade de plástico automotivo desperdiçado no fim da vida útil dos veículos e mostra como esse problema pode ser transformado em oportunidade, desde que haja coordenação, tecnologia e visão sistêmica.
A outra frente da circularidade, igualmente importante, é o desenvolvimento de veículos já concebidos com materiais reutilizáveis e processos reversíveis desde a fase de projeto. Ambas as abordagens são complementares e precisam avançar em paralelo se quisermos transformar verdadeiramente o ciclo de produção e consumo no setor automotivo.
Compartilho abaixo uma adaptação do artigo.
Milhões de toneladas de plásticos provenientes de veículos fora de uso são desperdiçadas todos os anos. Aqui estão 4 formas de resolver esse problema.
Mais de 800 mil toneladas de plásticos provenientes de veículos fora de uso são destinadas a aterros ou incineração a cada ano somente na Europa. Apesar dos compromissos da indústria automotiva com a sustentabilidade, menos de 20% desse volume é reciclado. Esse descarte representa não apenas um fardo ambiental, mas também uma oportunidade perdida de estabelecer uma economia circular para os plásticos automotivos.
Para reverter esse cenário, é necessário transformar a forma como esses materiais são coletados, processados e valorizados. Quatro áreas-chave precisam ser abordadas.
1. Repensar a cadeia de valor: de resíduo a recurso
Diferente dos metais, que já contam com sistemas de recuperação consolidados, os plásticos automotivos são frequentemente misturados, contaminados ou difíceis de separar. Para desbloquear seu potencial, é preciso deixar de tratá-los como lixo e começar a vê-los como um recurso valioso.
Uma ação crítica é realizar a triagem ainda na fase de desmontagem. Em vez de triturar os veículos e tentar extrair os plásticos depois, separar as peças por tipo de polímero e função pode aumentar significativamente a qualidade e a reciclabilidade do material.
O projeto Automotive Plastics Circularity, da Global Impact Coalition, está testando esse novo modelo.
O piloto reúne oito empresas, BASF, Covestro, LG Chem, LyondellBasell, Mitsubishi Chemical Group, SABIC, SUEZ e Syensqo, que colaboram com desmontadoras e recicladoras para organizar, agrupar e processar plásticos de veículos fora de uso de forma mais eficiente.
Agrupando peças plásticas por tipologia de polímero e mantendo essas categorias separadas ao longo da cadeia, torna-se possível obter materiais reciclados de alta pureza. O projeto piloto comprova como uma abordagem sistêmica pode transformar resíduos em matéria-prima valiosa.
2. Incentivos regulatórios: metas claras e efetivas
Compromissos voluntários da indústria ajudam, mas são as políticas públicas robustas que impulsionam investimentos e inovações em larga escala. O Green Deal da União Europeia propõe uma nova regulamentação para veículos fora de uso, exigindo que 25% do plástico em carros novos venha de material reciclado até 2030, incluindo uma parcela de sistemas de ciclo fechado, recuperados de veículos fora de uso.
Para que essas regulamentações sejam eficazes, é essencial que governos e empresas atuem juntos para padronizar os processos de coleta e triagem em diferentes regiões, criar incentivos para que desmontadoras realizem a separação na origem e apoiar pesquisa e desenvolvimento em soluções avançadas de reciclagem.
Quando as políticas são alinhadas às necessidades do setor, as metas de sustentabilidade deixam de ser promessas e passam a ser soluções economicamente viáveis.
3. Tecnologias avançadas: da limitação à inovação
Métodos tradicionais de reciclagem mecânica enfrentam dificuldades com plásticos contaminados e degradados. Mas novas tecnologias estão mudando esse cenário. Sistemas de triagem avançados, reciclagem química e novas técnicas de processamento podem vencer as barreiras técnicas que dificultam a recuperação de veículos fora de uso.
Tecnologias de triagem com inteligência artificial já conseguem identificar e separar plásticos com maior precisão, viabilizando o reaproveitamento de materiais difíceis como os poliolefinas. A reciclagem química quebra os plásticos até seus blocos moleculares, permitindo que materiais degradados sejam transformados em polímeros de qualidade virgem.
Diversas empresas químicas estão desenvolvendo essas tecnologias para reintegrar os plásticos automotivos ao ciclo produtivo, em vez de encaminhá-los para incineração.
4. Financiamento da circularidade: custos compartilhados, benefícios distribuídos
O maior obstáculo para ampliar a reciclagem de plásticos automotivos é sua viabilidade econômica. Ao contrário dos metais, os plásticos reciclados ainda custam mais do que materiais virgens. Para mudar isso, é necessário redistribuir os custos ao longo da cadeia de valor, com modelos como programas de responsabilidade estendida do produtor, como o sistema francês da lei AGEC, investimentos conjuntos em centros de triagem e reciclagem e parcerias público-privadas para desenvolver infraestrutura, como as apoiadas pelo World Economic Forum.
Relatório de 2021 do World Economic Forum com a Boston Consulting Group indicou que descarbonizar totalmente um carro familiar de médio porte aumentaria seu custo final em menos de 2%, desde que os custos fossem distribuídos entre todos os elos da cadeia.
Por outro lado, a maior pressão recai sobre o início da cadeia, especialmente na produção de metais, como o aço, que pode sofrer aumento de até 40%, exigindo uma abordagem sistêmica para divisão justa dos custos.
Um futuro circular para os plásticos automobilísticos
Substituir o descarte pelo reaproveitamento circular é viável e necessário. Para isso, será decisiva a colaboração entre empresas, políticas públicas eficazes, investimentos financeiros e inovação tecnológica.
Com iniciativas como o projeto Automotive Plastics Circularity pavimentando o caminho, a questão já não é se os plásticos automotivos podem ser reciclados em escala, mas quão rápido a indústria conseguirá se unir para transformar essa possibilidade em realidade.
Repensando o valor, a triagem, a regulamentação e o financiamento dos plásticos de veículos fora de uso, podemos criar um futuro onde milhões de toneladas de resíduos deixem de ser problema e passem a ser matéria-prima de uma economia circular próspera.
Não sei como anda esse assunto no Brasil. Grande chance de estarmos bem mais atrás do que a União Europeia. Ou não. Você conhece algum projeto brasileiro nesse sentido?
PM
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