O quinto e último AE Talks de 2025 fechou o ano com um tema que deixou de ser promessa para se tornar realidade concreta no mercado automobilístico brasileiro. ESPECIAL CHINA: TECNOLOGIA QUE SEDUZ não foi apenas um título provocativo, mas um convite aos participantes a compreender com mais profundidade o momento vivido pela indústria chinesa e, principalmente, a diversidade de caminhos que ela vem trilhando.
O último Salão do Automóvel ajudou a consolidar essa percepção. Fabricantes chineses apresentaram produtos competitivos, soluções técnicas maduras e discursos mais estruturados. Ainda assim, para boa parte do público brasileiro, persistem dúvidas legítimas sobre posicionamento, engenharia, consistência estratégica e visão de longo prazo. O AE Talks de dezembro teve exatamente esse papel: sair da superfície do produto e avançar para a lógica que sustenta cada marca.
Nesse contexto, MG Motor, GWM e Omoda Jaecoo foram convidadas a explicar como pensam desenvolvimento, eletrificaçã o, pós-venda, rede e relacionamento com o cliente. O resultado foi uma manhã com apresentações ricas, abordagens bastante distintas e que ajudam a desmontar a ideia simplista de uma “indústria chinesa única”, revelando, na prática, três estratégias bem definidas.
MG Motor: continuidade, produto e eficiência
A apresentação da MG Motor foi feita por Flavio Guzmán, diretor de Marketing, Produto, Marca e PR da MG Motor Brasil, responsável por liderar o lançamento da marca no país. À frente da operação de marketing, coordena definição de gama, imagem de marca e ações de comunicação e experiência do cliente para consolidar a MG como um novo competidor relevante no mercado nacional.

Ele partiu de um ponto incomum entre marcas chinesas. Em vez de justificar sua origem industrial, o discurso se concentrou na continuidade de uma marca centenária (nascida em 1924) que encontrou, no grupo SAIC, a estrutura necessária para seguir relevante no cenário atual. A história apareceu como base de identidade, não apenas como argumento emocional.
A leitura foi pragmática. Tradição só se sustenta quando há escala, engenharia e capacidade produtiva. Nesse contexto, a China surge como ambiente natural de desenvolvimento. A MG apresentou sua integração ao grupo SAIC como meio de viabilizar produto competitivo, tecnologia atualizada e preços coerentes com o mercado brasileiro.
Essa racionalidade também se refletiu na abordagem sobre eletrificação. A MG evitou soluções intermediárias de baixo impacto prático e concentrou esforços em arquiteturas que alteram efetivamente a experiência de uso. A defesa da eletrificação plena apareceu associada a ganhos claros de suavidade, eficiência e resposta, somando-se à esportividade proporcionada pelo desempenho.
O MG4 foi apresentado como síntese dessa estratégia. A escolha pela tração traseira foi tratada como decisão técnica, alinhada à tradição esportiva da marca e à busca por condução mais equilibrada. O conjunto foi analisado de forma integrada, envolvendo arquitetura, carregamento rápido, conectividade e pacote de equipamentos pensados para reduzir inseguranças típicas de marcas recém-chegadas.
O Cyberster cumpriu papel assumidamente simbólico. Um carro de imagem, criado para ativar memória afetiva, conectar passado e presente e reforçar identidade. O interesse gerado pelo modelo e a boa resposta inicial do público sustentaram esse posicionamento. As 50 primeiras unidades trazidas foram vendidas rapidamente. Flavio levou um Cyberster ao evento, e os participantes se impressionaram com a qualidade de construção e a atenção aos detalhes, além do visual arrojado com portas tipo tesoura.
No plano operacional, a MG reforçou compromissos com o país, com estudos para produção local, estrutura de peças, rede apoiada em grandes grupos e uma visão declaradamente orientada ao médio e longo prazo. A impressão final foi a de uma marca que aposta em consistência, execução gradual e alinhamento entre discurso e produto
GWM: visão sistêmica, multienergia e software
Guilherme Teles, Diretor de Planejamento de Produto, fez a apresentação da GWM. Ele tem mais de 20 anos no setor automobilístico. Engenheiro mecânico automobilístico pela FEI, é pós-graduado em Gerenciamento de Pessoas pela FIA, tem MBA em Gestão e Engenharia de Produtos pela POLI USP e especializações em Marketing Digital pela ESPM e em Strategic Business Management pela EADA, em Barcelona.

Sua apresentação inseriu a GWM em uma leitura ampla de indústria. O ponto de partida foi direto, mostrando a China como um dos principais centros globais de desenvolvimento tecnológico, o que se reflete de forma evidente no setor automobilístico. Escala, velocidade de inovação e domínio de software passaram a ser fatores estruturais.
A marca se posicionou como empresa multienergia, sem compromisso ideológico com uma única solução. Gasolina, diesel, híbridos, híbridos plug-in e elétricos convivem na estratégia, respeitando as características de cada mercado. No Brasil, essa abordagem se materializa em um portfólio que vai do Haval H6 à linha Tank, passando por Ora, Wey e Poer.
Um dos pontos mais consistentes da apresentação foi a integração entre produto, software e relacionamento com clientes. O aplicativo da marca funciona como canal ativo de feedback, com uma grande base de usuários que interagem entre si e com a empresa. Parte das evoluções recentes de interface e usabilidade dos comandos da tela central nasceu diretamente dessa interação.
O sistema operacional da GWM de terceira geração, Coffee OS, foi detalhado com foco no uso real. Barra inferior fixa e personalizável na tela, redução de cliques, integração sem fio com Android Auto e Apple CarPlay e navegação nativa evoluída. A marca reconheceu diferenças culturais e de uso entre mercados e ajustou o sistema ao comportamento do consumidor brasileiro. Ou seja, há muito trabalho local para atender às expectativas dos clientes brasileiros.
Na engenharia, o sistema híbrido Hi4 apareceu como um dos pilares técnicos. A combinação de motores elétricos nos dois eixos com motor a combustão permite tração integral elétrica, vetorização de torque e gerenciamento automático. O sistema opera sem intervenção do motorista e prioriza previsibilidade, estabilidade e eficiência.
A linha Tank reforçou a aplicação dessa filosofia ao off-road. O Hi4-T combina tração mecânica integral com eletrificação plug-in, mantendo reduzida, bloqueios e capacidade real fora de estrada, sem abrir mão de conforto e eficiência no uso diário.
A apresentação deu peso à estrutura industrial. A fábrica de Iracemápolis, com soldagem, pintura e montagem completas, reforça o compromisso local. No pós-venda, estoque robusto de peças, preço único nacional e modelo de faturamento direto foram apresentados como ferramentas para garantir previsibilidade e valor residual. A impressão geral foi a de uma marca que pensa o carro como sistema, não como produto isolado.
Omoda | Jaecoo: posicionamento global e modelo de negócio
Felipe Amaral é diretor de desenvolvimento de rede e estratégia de negócio da Omoda Jaecoo, responsável pela expansão da rede de concessionárias, diretrizes comerciais e plano de lançamentos. Sua atuação integra planejamento de vendas, seleção e suporte aos parceiros e implementação de processos para garantir experiência de compra e pós-venda.

Ele trouxe uma abordagem distinta, concentrada menos no produto individual e mais em estratégia de marca e modelo de negócio. Desde o início, as marcas Omoda e Jaecoo são parte de um projeto pensado e desenvolvido para mercados internacionais, sem atuação no mercado doméstico chinês.
O grupo Chery apareceu como base de aprendizado. Uma fabricante que chegou cedo ao Brasil, enfrentou dificuldades, ajustou processos e acumulou conhecimento. Omoda e Jaecoo nascem a partir dessa experiência, já com visão global e sem carregar o legado dos primeiros produtos chineses.
As duas marcas foram apresentadas como identidades complementares. Jaecoo dialoga com linguagem mais clássica e robusta, enquanto Omoda se posiciona de forma mais jovem e urbana. A convivência sob o mesmo teto amplia alcance sem diluir identidades.
O modelo de negócio foi um dos pontos centrais. A marca adotou uma estrutura que preserva a proximidade com o cliente final, sem eliminar o papel do concessionário como operador local. Essa proximidade se traduz em ajustes rápidos de produto, software e interface. A marca citou encontros presenciais com clientes e correções feitas em ciclos curtos, algo pouco comum em estruturas de fabricantes tradicionais.
No produto, a leitura é pragmática. A Omoda Jaecoo aposta nos híbridos plug-in como solução mais adequada ao momento brasileiro, equilibrando uso elétrico no dia a dia com liberdade em viagens longas. O sistema SHS foi apresentado como diferencial técnico, priorizando suavidade, resposta imediata, gerenciamento inteligente entre motores e grande alcance.
A estratégia de posicionamento começa por segmentos mais altos, construindo percepção e credibilidade, para depois expandir para faixas inferiores, com novos modelos mais acessíveis que estão a caminho. O pós-venda foi tratado como pilar desde o início, com centro de peças estruturado antes da chegada dos carros e rede planejada com oficina desde a inauguração.
Três caminhos, uma mesma realidade
O AE Talks de dezembro mostrou que não existe uma única “fórmula chinesa” para o mercado brasileiro. O que existe são estratégias distintas, construídas a partir de histórias, estruturas e ambições diferentes.
A MG aposta na continuidade de marca e na força do produto bem resolvido. A GWM trabalha com visão sistêmica, conectando engenharia, software, fábrica e relacionamento. A Omoda Jaecoo estrutura sua atuação a partir de posicionamento global e modelo de negócio mais flexível e conectado ao cliente.
Em comum, as três demonstraram maturidade. Nenhuma apresentou discurso improvisado ou promessas desconectadas da realidade. Todas falaram de longo prazo, estrutura, pós-venda e aprendizado contínuo. Isso diferencia o momento atual da indústria chinesa em relação a ondas anteriores. As três marcas contam com brasileiros na alta gestão, empenhados em fazer o que for necessário para conectar marcas e produtos aos consumidores locais. E isso é bom.
Para o mercado brasileiro, a mensagem é ainda mais relevante. A competição deixou de ser apenas sobre preço ou lista de equipamentos. Passa por software, experiência, previsibilidade, valor residual e capacidade de execução. Quem acompanha o setor com atenção percebe que a sedução, agora, vem menos do brilho inicial e mais da consistência ao longo do tempo.
Foi exatamente isso que o AE Talks 2025 ajudou a iluminar.
PM











