Começa amanhã no Bahrein a fase final de preparação das equipes (foto de abertura) que disputarão o Campeonato Mundial de F-1 de 2026. Estão programadas duas sessões de testes para a temporada que inicia dia 8 de março em Melbourne, Austrália. O novo regulamento técnico tem tudo para criar uma nova composição de forças na categoria que este ano ganha mais uma equipe, a Cadillac. No teste privado realizado em janeiro, em Barcelona, na Espanha0, o inglês Lewis Hamilton (Ferrari) foi o mais rápido, seguido por George Russell (Mercedes) e Isack Hadjar (Red Bull). Tal resultado, porém, não deve ser tomado como um indicativo seguro das chances de cada construtor: nesse ensaio o quesito confiabilidade foi mais importante do que desempenho, qualidade que terá mais atenção nas atividades desta semana e na próxima, entre os dias 18 e 20.

Embora a McLaren tenha triunfado no Campeonato dos Construtores nos últimos dois anos, além de ter levado Lando Norris ao título de pilotos em 2025, e a Ferrari se destacado na Espanha em janeiro, é a Mercedes quem mais alimenta o mercado de apostas. Depois de dominar a década de 2010 ao conquistar sete títulos consecutivos entre 2014 e 2010, seguido de outro em 2021, o time alemão viu-se batido pela Red Bull (2022/23) e pela McLaren (24/25).

Como acontece com leve frequência, a operação dirigida por Toto Wolff inicia o ano com uma clara demonstração de criatividade. Para contornar a limitação da taxa de compressão do motor térmico em 16:1 (a relação de quantas vezes a mistura ar-combustível é comprimida dentro de cada cilindro) desenvolveu pistões e, principalmente, biela com materiais que dilatam e aumentam esse índice em dois pontos. Como há poucos segredos que duram muito na F-1, a ideia vazou e as equipes rivais prontamente organizaram uma agenda para tornar ilegal tal solução, moção que ainda está em andamento.

O motor Mercedes-AMG F1 M17 é o mais usado na categoria. Além do Mercedes F1 W17 também equipa o Alpine A526, o McLaren MCL40 e o Williams FW48. Sem dúvida alguma a equipe em melhores condições de aproveitar essa vantagem é a McLaren: seus recursos técnicos e financeiros são comprovadamente maiores que as outras duas rivais. Outra vantagem é o organograma do time papaia, estrutura desenvolvida por Gil de Ferran, francês que veio para o Brasil com quatro anos de idade, repentinamente falecido em 29 de dezembro de 2023 aos 56 anos. Resta saber até onde os motores das quatro equipes serão iguais.

Equipes em clara fase de restruturação, Alpine e Williams buscam corrigir falhas de um passado marcado por erros. O time francês, braço esportivo da Renault, foi vítima da decisão de gerenciar sua operação dentro de premissas que funcionam na indústria automobilística, onde o desenvolvimento de um automóvel leva, no mínimo, três a quatro anos. Na F-1, a unidade de tempo utilizada é a diferença de segundos entre os carros mais rápido e mais lento do grid. O mal maior da Williams foi a falta de recursos para acompanhar o investimento de seus rivais em infraestrutura.

Terceira colocada entre os Construtores em 2025, atrás da McLaren e Mercedes, a Red Bull é outra escuderia que atravessa uma importante fase de mudanças. Os títulos conquistados em 2022/23 poderiam ter sido mais numerosos não fosse a decisão de centrar forças em Max Verstappen, decisão que o holandês justificou ao ser o piloto mais eficiente de 2021 a 2024. Para além disso Christian Horner, o mentor da estruturação do time dos energéticos como operação ultraeficiente, envolveu-se em uma disputa de poder agravada pela acusação de uma funcionária que alegou conduta imprópria do inglês.

Após ano e meio de uma crise escancarada, Horner foi desligado do time no meio do ano passado e substituído por Laurent Mekies. Esse engenheiro francês, ex-FIA e ex-Ferrari, está colocando ordem na casa, agora ampliada com uma fábrica própria de motores, operação apoiada técnica e financeiramente pela Ford. Entre as novas marcas de unidades de potência, o motor Red Bull Ford DM01 instalado no RB22 mostrou-se o mais confiável e potente, o que garante ao time satélite da marca de energéticos, a Racing Bulls, boas chances de marcar pontos com o chassi VCarb 03.

Quarta colocada entre os Construtores, a Ferrari experimentou um 2025 no marcado por algo que pode der descrito como um prato de espaguete requentado e um vinho que poderia ser dispensado até ser usado como vinagre. A contratação multimilionária de Lewis Hamilton e a inconstância de desempenho de Charles Leclerc apenas ajudaram a lembrar que o parmesão ralado estava vencido. Para este ano a Scuderia trocou o engenheiro de pista de Hamilton (saiu Ricardo Dami entrou Lucca Diella) e, na parte técnica levou Enrico Gualtieri a reorganizar seu departamento de unidades de potência após perder Wolf Zimmermann e Lars Schimidt para a Audi, ambos atraídos por um convite de Mattia Binotto, antecessor de Fred Vasseur no comando da equipe de Maranello.

A exemplo da Mercedes, a Ferrari também fornece o seu motor e caixa de câmbio para outros construtores, mais especificamente a Haas e a estreante Cadillac. Tal condição contribui técnica e desportivamente ao permitir analisar melhor o desgaste de peças, avaliar inovações e contribuir para amadurecer pilotos que sejam considerados aptos para substituir Hamilton ou Leclerc no futuro próximo. Um deles é Oliver Bearman, jovem inglês que acelera um Haas VF26. Vale lembrar a participação cada vez maior da Toyota nessa operação financiada por Gene Haas.

A Cadillac herdou o contrato de aluguel de motores da Sauber e instalou o motor 067 em seu inédito chassi, ainda sem uma sigla pública de identificação. O time pode ser considerado a maior incógnita da temporada que inicia em Melbourne. A decisão da General Motors — proprietária da marca de carros de luxo —- reflete a popularidade cada vez maior da F-1 nos Estados Unidos.

Fruto da obstinação de Lawrence Stroll em fazer de seu filho Lance um Campeão Mundial da Fórmula 1, a Aston Martin com certeza é o time que mais poderá surpreender em 2026. A contratação de Adrian Newey, o criador do maior número de chassis que venceram o Campeonato Mundial de Construtores, e a construção de uma estrutura técnica entre as mais avanças da F-1, são motivos para tamanha expectativa. O AMR26 é equipado com o motor Honda RA626H, última versão da família RA6 desenvolvida sob a liderança de Toshihiro Mibe.

Após um período de dois anos em que incorporou a operação da Sauber a ponto de mudar o nome da equipe suíça, a Audi desembarca na F-1 com uma operação que constrói e faz manutenção de seus carros em Hinwill, cidade próxima de Zurique, e fabrica seus motores em Neuburg an der Donau. O chassi R26 tem o Audi AFR26 Híbrido como unidade de potência. A exemplo dos pilotos da Aston Martin — Fernando Alonso e Lance Stroll —, a dupla do time alemão — Gabriel Bortoleto e Nico Hulkenberg —, também terá desvantagem de não ter um parâmetro de desempenho com outra equipe que use o mesmo motor.
WG
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