A Ferrari revelou o interior e a interface de seu primeiro esportivo elétrico de produção, batizado Luce. O nome significa luz em italiano e inaugura uma nova lógica de nomenclatura dentro da marca, associada a um projeto que não substitui os Ferrari existentes, mas acrescenta um novo eixo técnico à gama.
O Luce marca a entrada da Ferrari em um segmento até então inexistente em sua história. A eletrificação aparece como solução de engenharia, não como identidade em si, e o projeto busca preservar aquilo que sempre definiu a marca: centralidade da condução, leitura clara dos comandos e hierarquia funcional rigorosa entre piloto e máquina.
O interior foi apresentado em San Francisco e desenvolvido em colaboração com a LoveFrom, coletivo fundado por Jony Ive e Marc Newson. Ive liderou por décadas o design industrial da Apple e esteve diretamente envolvido em produtos como iMac, iPod, iPhone, iPad, MacBook e Apple Watch. Desde 2019, atua pela LoveFrom em projetos selecionados fora do setor de eletrônicos de consumo, entre eles a Ferrari.

A participação da LoveFrom não é acessória. A Ferrari buscou uma abordagem externa para redefinir a interface e o ambiente interno desde o início do projeto. O resultado é um habitáculo concebido como volume único, com arquitetura limpa e racional, no qual componentes físicos e digitais foram desenvolvidos em conjunto. Controles e telas não disputam atenção e seguem uma lógica de entradas e saídas de informação.
O Luce se distancia da tendência dominante entre esportivos elétricos ao evitar a centralização excessiva em telas táteis.
Botões, seletores e comandos mecânicos permanecem como elementos centrais da interface, com engenharia de precisão e retorno tátil e acústico cuidadosamente calibrados. As referências vêm de esportivos clássicos da marca e de monopostos de Fórmula 1, não do design de dispositivos eletrônicos contemporâneos.
O volante sintetiza essa abordagem. De três raios, inspirado nos volantes Nardi das décadas de 1950 e 1960, expõe sua estrutura em alumínio usinado. São 19 componentes fabricados por controle numérico computadorizado (CNC), todos em liga de alumínio 100% reciclado, com redução de cerca de 400 gramas em relação a um volante Ferrari atual. Os comandos são organizados em módulos analógicos, definidos após extensos testes com pilotos de desenvolvimento da marca.
O painel de instrumentos adota uma solução inédita para a Ferrari: o conjunto é montado na coluna de direção e se move junto com o volante. Duas telas Oled sobrepostas combinam grafismo digital com lógica analógica inspirada em instrumentos Veglia e Jaeger do pós-guerra. A prioridade é legibilidade imediata e redução de carga cognitiva, não impacto visual.
No centro do painel, uma tela montada em articulação esférica pode ser orientada ao motorista ou ao passageiro. Integrado a ela está o multigrafico, composto por ponteiros mecânicos acionados por três motores independentes, capaz de operar como relógio, cronógrafo, bússola ou indicador de largada. Trata-se de um elemento técnico que dialoga com a tradição mecânica da marca, sem função decorativa.
A escolha de materiais segue o mesmo critério. Alumínio usinado, vidro Corning Gorilla e acabamentos tratados para durabilidade e envelhecimento consistente. O uso extensivo de alumínio reciclado e processos avançados de anodização reforça a preocupação com precisão industrial e integridade material, não com efeitos de curto prazo.
Nas fotos dos bancos é possível observar como ele são mais baixos e finos, para manter a posição de dirigir e o centro de gravidade baixos.
A base tecnológica do Luce foi apresentada em Maranello em 2025. O interior e a interface representam a segunda fase do projeto. A revelação externa completa está prevista para maio próximo na Itália.















