Mais convívio, mais informações: esta é a lógica que reveste o Teste de 30 Dias, que chegou a sua exata metade com — finalmente! — alguns (poucos) quilômetros de rodovia, reveladores. Porém, sua majestade o leitor, exige respostas a perguntas, algumas das quais mesmo sem concluir a análise do Kardian Iconic já me sinto habilitado a responder.
Primeiro esclarecimento: esqueçam o Sandero/Logan/Duster. Compará-los com o Kardian é injusto, pois são carros de geração diferente e, principalmente, criados com conceitos diversos. O Renault Sandero
e suas costelas, o sedã Logan, o suve Duster e a picape Oroch — deriva de um projeto que visou atender “mercados emergentes”. Criados pela empresa romena Dacia, (pertencente ao Grupo Renault desde 1999), com pitacos da Renault francesa e brasileira. O mercado-alvo do modelo eram clientes, digamos, habitantes em áreas, digamos, mais rústicas do planeta, menos exigentes em termos de tecnologia embarcada e etc. do que europeus que jamais viveram atrás da cortina de ferro – leia-se sob o jugo da ex-União Soviética.
Nada disso desabona o Sandero e derivações, mas colocá-los na mesma cesta que o novo Kardian não é correto. Dirigi bastante um Renault Sandero Stepway 2011 e, aqui para o AE, fiz Testes de 30 Dias com a versão R.S. e também com a picape Oroch, veículos robustos, espaçosos e, no caso do R.S., com verve esportiva apaixonante. Mas, evidentemente, mais simples e menos sofisticados, do ponto de vista de projeto, do que o Kardian.
Outro necessário esclarecimento (toda vez preciso fazer isso…) é com relação ao índice de consumo da primeira semana, 6,7 km/l usando gasolina e rodando apenas na capital paulista, e na maior parte do tempo na íngreme zona Oeste, em trajetos curtinhos. Que tal um trecho de 5,7 km percorrido a uma média de 8,1 km/h? Não há milagre, o consumo vai para o saco. No caso, foi de 5,3 km/l…
Um leitor definiu o Kardian “mal otimizado” (sic), ante o consumo publicado na semana passada (média de 6,2 km/l) definindo-o “consumo de Opala”. Devo contestar. Sou de uma geração que teve no Opala o carro de sua juventude. Não possui nenhum, mas amigos e parentes os tiveram em todas versões, 2.500 cm³ de quatro cilindros, e os seis em linha de 3.800 e 4.100 cm³. Nunquinha — juro! — nenhum deles faria melhor do que 5 km/l (os seis canecos fariam menos de 3 km/l, aposto) rodando nas pirambeiras e congestionamentos aos quais o Kardian foi submetido.
Você mora em Brasília? Fortaleza? Campinas? Uberlândia? Parabéns! Apesar de horários nos quais há grande movimento, e até alguns engarrafamentos, nestas localidades aclives praticamente não existem, e tampouco um para-e-anda (que deveria se chamar para-e-para…) em magnitude paulicéia desvairada. Então, por favor, sosseguem o facho. Tenham critério, analisem o contexto, e busquem parâmetro nos 36 Testes de 30 Dias publicados aqui no AE, sempre comigo ao volante, sempre nas pirambeiras da parte mais acidentada de sampa, sempre enroscado em vias que de expressas só tem o nome.
Mais calmo, volto ao Kardian, e acalmo também os apedrejadores do item consumo, confortando-os com a marca de 15,5 km/l de gasolina obtida em breve viagem realizada pela excelente rodovia dos Bandeirantes, cujo limite é de 120 km/h, velocidade mantida com precisão graças ao bom controle de cruzeiro deste novo Renault. Viajei acompanhado e, sem perguntar nada, ouvi o seguinte comentário: “Bons esses bancos, mas não gosto desse teto preto. O dia está ensolarado, mas aqui dentro fica abafado…”
Pois é, fica mesmo. Eu também preferiria uma forração interna clara no teto, já disse, assim como que a pintura externa do “telhado” do Kardian fosse de um tom que refletisse a radiação solar. Mas… Os designers acharam bonito fazer assim, interior preto, exterior preto, e de fato poucos se ligam neste aspecto das cores escuras dissiparem o calor de modo menos eficaz que cores claras. Haja vista a quantidade de gente que se veste com camisetas pretas no verão tropical. Moda e lógica não caminham juntas, sabemos.
Passo deste já insistente — e chato — questionamento cromático para um aspecto prático, mas diretamente relacionado ao teto e forro preto: o sistema de climatização! Viajei durante um dia bem quente e selecionei 20 ºC no beml situado botãozinho central do console, com ventilação na velocidade mínima. Na tela do sistema multimídia a temperatura exterior registrava 27 ºC e, depois de 15 ou vinte minutos de viagem, os dois humanos a bordo concordaram que estava frio demais. Elevar a temperatura para 21 ºC (a graduação do controle pula de meio em meio grau) resolveu o problema, com a passageira chamando de “friozinho ardido” o ar saído das grelhas do painel, um paradoxo linguístico que definiu bem o desconforto. Ponto para o ar-condicionado do Kardian, portanto, que funcionará bem em Manaus, AM ou em Teresina, PI.
Rodando a 120 km/h nas retas de Bandeirantes o muito azul Kardian se mostrou competente: silencioso tanto em termos de ruídos mecânicos como aerodinâmicos, seguro nas mudanças rápidas de faixa que simulei, e com um sistema de auxílio ao motorista básico, mas eficiente. Não há o (chato) sistema que alerta mudança de faixa, seja por atuação no sistema de direção, seja por discreto tremelique do volante ou aviso no painel. Porém, há o ajuste de distância em relação ao veículo que vai à frente, que permite variar o espaço de acordo com o gosto do motorista, no caso eu. Escolhi uma distância intermediária e o Kardian “fez a lição de casa” de modo diligente, sem me dar sustos, reduzindo quando necessário, reacelerando assim que possível. É preciso mencionar que nos espelhos retrovisores, ao serem detectados veículos nas laterais, um triangulinho amarelo se ilumina, e que segundo a lista de equipamentos o Kardian tem frenagem autônoma de emergência (que ainda não deu as caras). Tudo isso “conta ponto”, como diria o Chico Raiz…
O que posso dizer daquela clássica largada na saída do pedágio, o 0-120 km/h de pé atolado no porão para analisar o poder de aceleração do Kardian? Não fiz. Farei na próxima ocasião que tiver. E as curvas no estilo boy dos anos 1970? Também fico lhes devendo, mas posso dizer que o ajuste de suspensões deste Renault me agrada. Durinho, mas sem exagero. Me agrada também a escolha dos pneus, marca e medida: Pirelli Scorpion 205/55 R17, corretos para a desgraçada pavimentação vigente.
Na chegada ao destino, estacionei ao lado do Volkswagen T-Cross Comfortline 200 TSI da anfitriã, boa chance para comparar dimensões e outros itens. T-Cross e Kardian não pertençam exatamente ao mesmo, segmento. O certo seria compará-lo ao VW Tera. Mas vale comentar que o T-Cross (que seria pelo menos 30 mil reais mais caro que este Kardian Iconic) ganha em espaço para as pernas dos passageiros, mas em termos de porta-malas o placar diz 373 litros para o VW e 358 para o Renault, quase nada de diferença. Dimensões externas, no olho, não diferem grande coisa, e a tal “percepção de qualidade” mostra que a Renault fez um trabalho bem decente. Quanto ao design, mais palmas para o Kardian, cujas linhas mostram claramente maior inspiração estética e, principalmente, menor idade.
Não rodei com o T-Cross da amiga, mas o conheço, e posso dizer que pelo Kardian ser ligeiramente mais leve, ter índices de potência e torque equivalentes e, principalmente, por ter um câmbio robotizado de dupla embreagem, mais “esperto” do que o câmbio automático epicíclico do T-Cross, em um hipotético racha, a França superaria a Alemanha.
Algo mais a dizer? Sim, claro, mas deixo para a semana que vem, quando pretendo colocar o Renault Kardian à prova em viagem, bem carregado de gentes e bagagens.
RA
Renault Kardian Ixonic
Dias: 14
Quilometragem total: 345,5 km
Distância na cidade: 265,5 km (77%)
Distância na estrada: 80 km (23%)
Consumo médio (gasolina): 8,1 km/l
Melhor média (gasolina): 15,5 km/l
Pior média (gasolina): 5,3 km/l
Leia o relatório anterior: 1ª semana
| FICHA TÉCNICA RENAULT KARDIAN ICONIC 2026 | |
| MOTOR | |
| Designação | Turbo TCe |
| Descrição | 3 cilindros, dianteiro, transversal, bloco e cabeçote de alumínio, duplo comando de válvulas no cabeçote, corrente, variação de fase na admissão e escapamento, 4 válvulas por cilindro, atuação indireta por alavancas-dedo roletadas apoiadas em fulcros hidáulicos, injeção direta sob pressão de 200 bar, turbocarregador com interresfriador ar-ar, pressão de admissão 1,5 bar relativa, válvula de alívio elétrica, volante de duas massas, flex |
| Cilindrada (cm³) | 999 |
| Diâmetro dos cilindros e curso dos pistões )mm) | 72,2 x 81,3 |
| Potência máxima (cv/rpm, G/A) | 120/125 / 5.000 |
| Torque máximo (m·kgf/rpm, G/A) | 20,4 / 2.000 // 22,4 / 2.250 |
| comprimento da biela / relação r/l | n.d. |
| Taxa de compressão (:1) | 11,0 |
| Densidade de potência (cv/L, G/A)) | 120,1 / 125,1 |
| Densidade de torque (m·kgf/L, G/A) | 20,4 / 22,4 |
| CÂMBIO | |
| Fabricante/modelo | Magna-Getrag DW23 |
| Tipo | Transeixo com câmbio robotizado automático de 2 embreagens imersas em óleo, 6 marchas com trocas também manuais sequenciais por borboletas no volante, e ré |
| Relações das marchas (:1) | 1ª 3,891; 2ª 2,647; 3ª 1,792; 4ª 1,219; 5ª 0,825; 6ª 0,561; ré 3,718 |
| Relação do diferencial (:1) | 4,647 |
| SUSPENSÃO | |
| Dianteira | Independente McPherson, braço de controle triangular, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra antirrolagem |
| Traseira | Eixo de torção, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra antirrolagem integrada ao eixo. |
| DIREÇÃO | |
| Tipo | Pinhão e cremalheira eletroassistida indexada à velocidade |
| Relação de direção (:1) | n.d |
| Voltas entre batentes | 3,2 |
| Diâmetro mínimo de curva (m) | 10,9 |
| Diâmetro do volante de direção (mm) | 365 |
| FREIOS | |
| Atuação | Hidráulica com dois circuitos em diagonal, ABS |
| Dianteiros (Ø mm) | Disco ventilado / 258, pinça flutuante de um pistão |
| Traseiros (Ø mm) | Tambor aletado / 203 |
| De estacionamento | Eletromecânico |
| RODAS E PNEUS | |
| Rodas | Liga de alumínio 17″ |
| Pneus | 205/55 R17V |
| CONSTRUÇÃO | Monobloco em aço, suve, 4 portas, 5 lugares, subchassi dianteiro |
| DIMENSÕES EXTERNAS (mm) | |
| Comprimento | 4.119 |
| Largura sem/com retrovisores | 1.747 / 2.025 |
| Altura sem/com barras no teto | 1.544 / 1.596 |
| Entre-eixos | 2.604 |
| Bitola dianteira/traseira | 1.517 / 1.509 |
| Distância mínima do solo | 209 |
| Balanço dianteiro/traseiro | 828 / 687 |
| AERODINÂMICA | |
| Coeficiente de arrasto (Cx) | 0,38 |
| Área frontal (m²) | 2,26 |
| Área frontal corrigida (m²) | 0,85 |
| ÂNGULOS (º) | |
| Entrada | 20 |
| Saída | 36 |
| Transposição de rampa | 12 |
| PESOS E CAPACIDADES | |
| Peso em ordem de marcha (kg) | 1.186 |
| Capacidade de carga (kg) | 443 |
| Porta-malas (L, VDA) | 358 (1.304 com banco traseiro rebatido) |
| Tanque de combustível (L) | 50 |
| CONSUMO DE COMBUSTÍVEL (km/L, Inmetro) | |
| Urbano (G/A) | 13,1 / 9,0 |
| Rodoviário (G/A) | 13,9 / 9,7 |
| DESEMPENHO | |
| Aceleração 0-100 km/h (s, G/A) | 10,7 / 9,9 |
| Velocidade máxima (km/h, G/A) | 180 (limitada) |
| CÁLCULOS DE CÂMBIO | |
| V/1000 em 6ª, pneu 205/55 R17 (km/h) | 46,1 |
| Rotação a 120 km/h em 6ª (rpm) | 2.600 |
| Vel. máx. em cada marcha a 5.500 rpm (km/h) | 1ª 37; 2ª 54; 3ª 80; 4ª 117; 5ª 180 (a 5.770 rpm) |
| MANUTENÇÃO | |
| Revisões (km/tempo) | 10.000/ 1 ano |
| Troca do óleo do motor (km/tempo) | 10.000/ 1 ano |
| Troca de óleo do câmbio (km/tempo) | 90.000 / 6 anos |
| Troca do fluido das embreagens | Não troca, vida-toda |










