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Home Colunas Do fundo do baú

UMA VIAGEM PREOCUPANTE

identicon por Ronaldo Berg
09/07/2017
em Do fundo do baú, RB






Hoje vou contar uma preocupação que me acompanhou por mais de 250 quilômetros.

Minha família é dividida entre cariocas e paulistas, eu sou de São Paulo e minha mulher e seus familiares, do Rio de Janeiro. As oportunidades de nos encontrarmos, a família praticamente toda, tinham que ser aproveitadas. Conosco nada é diferente da maioria das famílias que moram em cidades ou estados diferentes. As principais festas do ano são sempre divididas entre os familiares; e quando vêm os netos, mais ainda.

“O Natal será aqui”, aí a outra família diz “OK, mas o Ano Novo será aqui”, e assim vai-se vivendo fazendo rodízio entre famílias e os locais das comemorações.

Um tio da minha mulher e também nosso padrinho de casamento ia completar 70 anos e não queria fazê-lo no Rio de Janeiro, de onde era natural. Militar da Marinha com patente de almirante, precisaria convidar muita gente para comemorar esta importante data. Estou falando de 1986.

Conseguimos convencê-lo e sua esposa a virem comemorar seu aniversário em família aqui em São Paulo, e também de fazermos um almoço na cidade de Piracicaba, distante 180 quilômetros de São Paulo, onde morava seu sobrinho, irmão da minha mulher, sua esposa e as três filhas do casal, nossas sobrinhas.

E assim, na véspera do seu aniversário, o casal veio a São Paulo, fomos ao aeroporto de Congonhas buscá-los e os acomodamos em nossa casa no bairro Alto da Boa Vista, cedendo-lhes inclusive nosso quarto para seu maior conforto. Eu e minha mulher dormimos com nossos filhos.

Seu aniversário, no sábado, foi comemorado à noite em casa e  no domingo iríamos a Piracicaba, onde haveria o almoço com toda a família junta — 12 pessoas, contando minha sogra, viúva, e cunhada do aniversariante, que morava conosco.

Aqui de São Paulo seríamos cinco adultos e duas crianças, e aí um problema que me martelou a semana toda: como acomodar todos em um carro de porte médio?

Nessa época eu trabalhava na Volkswagen e poderia facilmente pegar uma Kombi, sobraria espaço, mas pensei em proporcionar um pouco mais de conforto para o aniversariante e sua mulher, já que não era viagem tão curta considerando a ida e a volta.

Tive a ideia de arranjar um carro que acomodasse nós sete e parti à caça de um, o que não foi tão difícil como eu imaginava, apesar de não existir então as facilidades que temos hoje, com locadoras que até vans alugam, e com motorista, se necessário. Consegui com um amigo um Chevrolet Veraneio emprestado, que não era tão novo, mas atendia à nossa necessidade de espaço (a foto do Veraneio é meramente ilustrativa, visto eu não ter uma deste que usei).

Fui buscar o carro quinta-feira, tudo parecia estar em ordem, conferi documentos, pressão dos pneus, enchi o tanque, etc., tudo para fazer uma viagem tranquila e segura.

Domingo pela manhã, um bom café matinal ainda comemorando o aniversário da véspera e todos prontos para seguirmos para Piracicaba e encontrar os outros membros da família. Ainda bem que não tínhamos cachorro e papagaio, e os bichos que havia em casa, os ramsters dos meninos, ficaram em casa.

Pé na estrada, ou melhor, Veraneio na estrada. Na frente os homens, eu dirigindo e o tio setentão ao lado, e atrás minha mulher, minha sogra e a tia. As crianças foram no amplo porta-malas — hoje condenável, sei disso, mas não tanto naquele tempo.

Uma parada no primeiro posto de gasolina da rodovia Castello Branco para uma esticada das pernas, as minhas principalmente, e um cafezinho muito oportuno.

Depois de uns quinze minutos continuamos em direção a Piracicaba pegando depois a Rodovia do Açúcar, a SP-308.

Foi então que começou o meu martírio: um forte cheiro de gasolina chegava ao interior do Veraneio. O que seria todos perguntam, e a resposta só viria depois de parar no acostamento, abrir o capô do motor e tentar identificar a origem do cheiro, realmente muito forte. Com o motor desligado não notei nada errado visualmente, então pedi ao tio para colocá-lo em funcionamento. As mulheres já faziam sua programação e pensavam na rota de fuga em caso de incêndio, primeiro as crianças etc., etc.

Com o motor funcionando identifiquei que o vazamento de combustível tinha sua origem no eixo da borboleta do carburador e/ou na junta entre o corpo e a tampa. Naquele tempo não havia socorro na rodovia como hoje.

Com muito medo de um incêndio seguimos viagem até chegarmos a Piracicaba. Lá chegando, a festa do reencontro da família era interrompida por tosses de intoxicação devido ao forte cheiro de gasolina, mesmo que tivéssemos baixado todos os vidros.

Enquanto a família se confraternizava eu procurava uma oficina para tentar reparar o tal vazamento. Mas domingo seria muito difícil, e depois de rodar a cidade que eu não sabia ser tão grande, voltei para casa, uma vez que estava chegando a hora do almoço.

O dia foi curto para tanta conversa e eu só pensava na volta. Embora à noite a temperatura estivesse a meu favor, o risco de incêndio continuava. Gasolina caindo perto do coletor de escapamento é sempre um risco.

Falamos em voltar na segunda e achar um mecânico para fazer o reparo, mas não daria certo porque os tios haviam marcado o voo de volta para o Rio de Janeiro na segunda logo depois do almoço.

Sugeri irmos de noite mesmo, com temperatura mais baixa, e supus que chegaríamos bem em casa.

Sinceramente, foram os 180 quilômetros mais difíceis e ansiosos que eu já dirigi na vida. A família no carro, frio lá fora, vidros baixados e o cheiro da gasolina dentro do carro. Foi terrível.

Fizemos umas três paradas para descanso e renovação do ar dos pulmões e finalmente por volta das 10 da noite chegamos a São Paulo. Imediatamente ligamos para Piracicaba para dar a notícia de que estávamos em casa e seguros.

Não sei se o aniversário foi bem comemorado, mas de uma coisa eu tenho certeza: aquela brincadeira do passeio de bugue no Nordeste, quando o bugueiro pergunta se quer com ou sem emoção, eu juro que não perguntei a ninguém, mas seguramente  esta viagem a Piracicaba foi emocionante e. por isso, inesquecível.

Na segunda-feira mandei consertar o carro, o devolvi-o a seu proprietário e agradeci sua gentileza, mas nada comentei a respeito. Afinal, o reparo já tinha sido feito.

Lembramos, minha mulher e eu, desta viagem com tristeza, porque os tios e minha sogra não estão mais conosco, mas seguramente estão lá em cima comentando esta aventura.

RB

Nota: Esta coluna completou 1 ano hoje e agradeço ao leitor ou leitora a leitura. A primeira foi Rabo quente esfriado.

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.






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