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Home Matérias História

DESIGN – ANÁLISE DO SP2

identicon por Luiz Alberto Veiga
29/09/2018
em História, LV






Este trabalho eu preparei em 2017 para colecionadores de SP2 em um encontro em Barra Bonita. Embora eu não tenha participado do desenvolvimento de SP2, trabalhei alguns anos com o Márcio Piancastelli, que foi meu chefe direto quando voltei para a Volkswagen já como Designer, e um grande mestre que muito me ensinou. O Márcio foi um dos criadores diretos do carro que hoje eu diria ser um dos mais desejados clássicos da marca.

O trabalho é uma visão minha do conceito do carro e tenta descrever a essência da sua forma. Na vista lateral (sempre a mais importante para uma analise) pode-se tirar algumas conclusões.

O “Body Style” é completamente estranho para um VW, podendo talvez somente ser comparado ao Porsche 924, pela frente longa e cabine jogada mais para a traseira do carro.

O trabalho seria muita mais simples se seguíssemos o Body Style do 911, mas com certeza esta variante seria descartada pela diretoria na Alemanha, já que uma imitação de Porsche barato e produzida no Brasil não cairia nada bem para a imagem de uma das mais respeitadas marcas esportivas no mundo, fora a dificuldade de argumentação com os diretores da Porsche, que nunca aceitariam um “primo pobre” neste contexto.

Comparando as silhuetas entre o SP2 e o 911, e usando o centro do eixo traseiro como base, vê-se que a distância entre eixos foi aumentada, sendo eixo dianteiro jogado a frente uns bons 30 cm, a cabine está praticamente no mesmo lugar, com o ponto H bem aproximo do Porsche e com balanço traseiro muito similar, já que o Porsche também tinha (e ainda tem) um motor boxer traseiro na época.

Este “Body Style” é típico de carros esportivos ingleses com motor central-dianteiro, e o mais famoso da época era o Jaguar E-type, que levou este estilo de carroceria ao extremo.

Se colocarmos os dois carros com as mesmas posições dos eixos dianteiro e traseiro, vemos como a silhueta se aproxima, sendo que o Jaguar tem o para-brisa ainda mais para trás, o que deixou um acesso à cabine bem “apertadinha”, criando assim um dos mais longos e belos capôs da história do automóvel.

A plataforma que serviu de base para o SP2 foi a da Variant 1, que tinha a mesma distância entre eixos que o Fusca, e foi criado uma posição de motorista muito parecida com a do Porsche, baixando e jogando o banco para trás, e reposicionando a coluna de direção, pedais e alavanca de câmbio.

Em termos de tratamento e elementos da superfície externa do carro, os designers brasileiros usaram o típico “approach” de Design Volkswagen: simplicidade. Só vemos uma linha horizontal que corta a lateral, dos faróis à lanterna traseira, criando assim uma quebra de luz entre a parte superior (mais iluminada) e inferior da lateral.

O desenho dos vidros laterais são dinâmicos e também muito simples e orgânicos, criando uma forte coluna “C” que se integra à parte traseira do carro.

Na lateral foi criado um grande friso lateral, que tinha um acabamento refletivo na cor laranja, que servia como “side mark” e paralelo a este um friso protetor de borracha. O friso tinha também continuidade na dianteira e traseira como elemento de proteção da carroceria, substituindo os para-choques.

Outro elemento muito importante são as entradas de ar para arrefecimento do motor, estampadas nas laterais, região da coluna “C”.

Gosto muito da solução purista, sem peças extras aplicadas.

 

A frente do SP2 acompanha a simplicidade do tema, usando a “cara da VWB na época.
Um grande elemento retangular, sem grades, com as molduras de faróis bem dinâmicas e o logo VW ao centro.

O para-choque dianteiro é formado pelo friso lateral que entra pela dianteira do veiculo, onde os piscas dianteiros estão encaixados.

 

A traseira é definitivamente o ponto forte do carro, com a caída do teto para a tampa traseira, claramente um tema da Porsche, muito bem elaborado.

As lanternas horizontais completam o tema, perfeitamente harmonizadas com as faixas laterais, assim como o para-choque também uma extensão do friso lateral de borracha.

Agora, o interior do carro era, para a época, e levando-se em conta o pequeno volume de produção, um espetáculo.

Revestido em couro e com design “driver-oriented”, ou orientado para o motorista, seis instrumentos individuais, um volante exclusivo e muito esportivo e bancos em couro, com descansa cabeça integrado, o carro dava um show de design.

Com 25 anos comprei o meu SP2, um prata completo e muito lindo.

 

O carro tinha dois defeitos que me incomodavam: era muito barulhento, (só podia ser, com o motor praticamente dentro da cabine) e saía muito de frente em curvas mais rápidas e fechadas.

Ele sai de frente em consequência do seu design extremo, com todo o peso do carro na traseira, a frente ficava flutuando. Mas estes eram detalhes que não chegavam, nem de longe, a ofuscar a presença espetacular do carro.

Foram várias minhas tentativas de reviver o SP, mas eu era só um designer sonhador, contra todos os engenheiros, financeiros e, aqui entre nós, contra a realidade de mercado.

Mas este é sempre o dilema em uma superpotência como o grupo Volkswagen, hoje o maior grupo produtor de automóveis do mundo.

O cálculo é sempre: dinheiro investido x lucros pela venda, que está ligado ao VOLUME de produção.

Mesmo o VW Scirocco, não voou, nunca deu lucro, mesmo sendo um ótimo carro esporte.

Abaixo, uma das minhas investidas na Alemanha para tentar um programa SP#, mas ninguém teve coragem de apresentar os números do programa em níveis de decisão mais altos.

Vejo o SP2 como o carro clássico mais importante do Brasil, 100% criado, desenhado e construído aqui.

Ele foi o único 100% esportivo, dois lugares, com uma carroceria de aço estampado e soldado, com projeto, acabamento e cuidados de uma linha de montagem profissional, fabricado o Brasil.

Foram produzidas somente 10.400 unidades (600 para a Alemanha).

Nota: os desenhos da matéria são puramente ilustrativos, não podendo ser considerados como um documento de construção. Trata-se de uma analise subjetiva e pessoal.

LV







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