Vencer na F-1, seja lá em qual capacidade ou cargo, exige devoção, resiliência e uma boa dose de aspereza. Afinal, em um negócio que em sua totalidade pode ser classificado como bilionário, a pele de cordeiro pode ser útil, mas a alma jamais e é aqui que mora o perigo e a despedida de Christian Horner (foto de abertura) anunciada esta manhã é uma prova disso. Não importa o que ele conquistou nos últimos 20 anos a partir de um time formado sobre os escombros de uma esquálida equipe Jaguar, o amor e a paixão, há tempos sucumbida, sumiram.
Uma série de atos, decisões e opções a liderança de Horner tirou o time anglo-austríaco do papel principal da categoria, gerou problemas de imagem e consequentes desavenças políticas. Isso contribuiu para o êxodo de figuras importantes no processo liderado por esse inglês que soube reconhecer os seus limites como piloto e optou por ser dono de equipe, onde, aparentemente, a vontade de crescer demais cobrou um preço alto.

No início do ano passado começaram a circular histórias em torno do comportamento de Horner com uma funcionária da Red Bull. A acusação de prática de assédio sexual foi prontamente analisada pela cúpula da Red Bull através de uma auditoria externa à empresa e o veredicto foi positivo ao inglês.
Os ataques, porém, continuaram e desde essa época Jos Verstappen, pai de Max, declarou várias vezes que a situação estava à beira do caos. A constante troca de pilotos após a saída do australiano Daniel Ricciardo e o foco direcionado ao estilo do holandês somam-se aos desmandos e opções equivocadas.

O desempenho de Max Verstappen nas pistas e a conquista do quarto título consecutivo, porém, amenizaram temporariamente a perda do guru da aerodinâmica Adrian Newey para a Aston Martin, do diretor técnico Rob Marshall para a McLaren, do chefe de equipe Jonathan Weathley para a Sauber e do estrategista Will Courtenay, que está a caminho da McLaren. Não bastasse isso, a cereja do bolo é uma cortesia de Toto Wolff, que discretamente alicia o tetracampeão a mudar seu CEP para o que identifica o endereço da equipe Mercedes.

O papel de presente para tudo isso foi a perda de prestígio que Horner vivenciou, primeiro com os herdeiros de Dietrich Mateschitz, que transformou em ouro a receita criada pelo Chaleo Yoovidhya e que é hoje o energético mais vendido do mundo. O austríaco faleceu em 2022, seus herdeiros assumiram o controle dos seus 49% da sociedade e deixaram de apoiar Horner enquanto o tailandês seguia firme ao lado do inglês. Nos últimos tempos, porém, Yoovidhya começou a enxergar a situação de outra maneira e o desfecho da história foi conhecido hoje.

Nesse processo de 20 anos a Red Bull se consolidou como a principal equipe da F-1 em termos de investimento: além de construir uma sede majestosa em Milton Keyes deu-se o luxo de manter uma equipe júnior – hoje conhecida como Racing Bulls -, ao assumir a operação criada por Giancarlo Minardi. O crescimento não parou por aí: dois anos atrás foi iniciada a construção de uma fábrica de motores, onde a Ford é parceira comercial e tem interesses de tecnologia.

O destino de todo esse império gera mais curiosidades múltiplas. O francês Laurent Mekies, atual responsável pela Racing Bull, foi anunciado como o sucessor de Christian Horner, cortesia de um currículo que inclui o início de carreira na Minardi e passagens pela FIA e pela Ferrari. Seu lugar na equipe júnior será ocupado pelo inglês Alan Permane, um dos que deixaram a Alpine em um passado recente. Não será surpresa se no futuro próximo a Racing Bulls seja colocada à venda, posto que o valor das equipes continua subindo e há interesse especuladores e investidores em nível mundial.

fábrica de motores, também situada na burocrática cidade de Milton Keyes –apelido que vem do seu conteúdo urbanístico essencialmente industrial -, pode ser a mais afetada nesse novo capítulo da história. Não faltam rumores sobre o desenvolvimento errático do projeto e resultados iniciais medíocres, ou seja, mais um prego do caixão de Horner. Quanto ao seu próprio futuro as possibilidades resvalam em uma ópera bufa: seu nome já foi mencionado até como sucessor de Fred Vasseur no comando da Ferrari, cujo é um animal que não tem asas, ainda que o cavalo rampante adornasse o avião de Francesco Baracca, piloto da Força Aérea Italiana na Primeira Guerra Mundial.
Hulkenberg no pódio na vitória de Norris
O alemão Nico Hülkenberg conseguiu seu primeiro pódio após 239 largadas na F-1. O fato aconteceu no fim de semana do GP da Grã-Bretanha vencido por Lando Norris cujo resultado completo você encontra aqui.





