Se tem uma coisa que adoro, e acredito que muitos autoentusiastas também, é ler propagandas antigas. E às vezes me deparo com alguma que chama mais atenção. Seja pelo modelo, pela marca, pelo contexto ou pelo apelo, certas peças publicitárias antigas têm um poder especial de nos transportar no tempo. Esta me atraiu justamente por reunir uma combinação inusitada: Citroën e Maserati. E que, curiosamente, hoje fazem parte da mesma empresa, a Stellantis.
A Citroën assumiu o controle da Maserati em 1968, num movimento para unir a tradição italiana de motores potentes à inovação técnica francesa.
O objetivo imediato era criar um GT de prestígio, que se concretizou no Citroën SM, e renovar a linha Maserati com soluções modernas. Essa fase rendeu avanços como a adoção de elementos hidráulicos nos freios e suspensão de alguns modelos, além de uma troca de conhecimento que influenciou projetos de ambas as marcas.
O anúncio abaixo é do início dos anos 1970 e apresenta o Citroën SM, cupê grã-turismo lançado em 1970, fruto dessa fase única na história da indústria. O carro pretendia combinar o conforto e a tecnologia de ponta francesa com a personalidade e o motor de um fabricante italiano de prestígio. O resultado foi um GT com desenho inovador e aerodinâmico, suspensão hidropneumática, direção assistida variável e um V-6 a 90°, 2,7 litros, que trazia na ficha técnica o peso da assinatura Maserati. Era derivado do V-8 e montado na transversal.
Em 1972, o SM foi eleito Car of the Year pela revista americana Motor Trend, tornando-se o primeiro carro não americano a receber esse prêmio. Diz-se que SM é de Série Maserati ou Sport Maserati.
A propaganda da época

Tradução do texto do anúncio:
DUAS GRANDES EMPRESAS FAZEM UM GRANDE CARRO
Citroën Maserati
CARRO DO ANO PELA MOTOR TRENDRecentemente, a revista Motor Trend elegeu o Citroën Maserati como “Carro do Ano”, chamando-o de “o melhor automóvel completo da América hoje”. Dadas as tradições automobilísticas da Citroën e da Maserati, isso era inevitável.
A Citroën é famosa pela inovação desde 1919, quando produziu o primeiro carro fabricado em série na Europa. Em 1934, criou o Traction Avant, o primeiro carro de produção com tração dianteira. Em 1955, apresentou o revolucionário design aerodinâmico e a suspensão hidropneumática.
A Maserati é um grande nome no mundo automobilístico desde 1927, quando o primeiro Maserati venceu o Campeonato de Corrida da Itália. Nos últimos anos, especializou-se em Gran Turismos de alto prestígio e alto desempenho.
Agora, essas duas empresas criaram um automóvel que reúne as qualidades de ambas. Da Citroën… elegância, engenharia e uma personalidade automobilística única. Da Maserati… anos de sucesso na fabricação de Gran Turismos e um motor potente que honra plenamente a tradição da marca.
O resultado: uma fusão soberba de luxo e desempenho que faz jus aos dois fabricantes.
CITROËN / MASERATI
O SM recebeu aplausos da imprensa e de quem teve a oportunidade de dirigi-lo. Mas, como acontece com alguns projetos ambiciosos, as vendas não acompanharam a reputação. Foram produzidas apenas 12.920 unidades entre 1970 e 1975. Nos Estados Unidos, onde chegou em 1972 e vendeu cerca de 2.400 unidades em dois anos, as mudanças nas regras de segurança, como a exigência de para-choques indeformáveis em batidas a até 5 mph (8 km/h) e a proibição de faróis cobertos e direcionais, tiraram o modelo do mercado já em 1974.

A complexidade mecânica e a necessidade de manutenção especializada também pesaram. Imagine a combinação de um carro francês com mecânica italiana. O motor, apesar do charme da assinatura Maserati, exigia ajustes frequentes no sistema de comando de válvulas, algo pouco tolerado fora de um círculo restrito de entusiastas.
Entre os frutos dessa parceria está o Maserati Merak, lançado em 1972. Utilizando a base e a carroceria do Bora, mas equipada com o motor V-6 de 2,7 litros desenvolvido para o SM, a Merak oferecia uma alternativa mais acessível no segmento de cupês esportivos de motor central. Produzida até os anos 1980, passou por evoluções sob o comando de Alejandro de Tomaso, mas mantém até hoje o valor histórico de ser o único Maserati de produção em série a carregar um coração Citroën.


A Citroën não sobreviveu incólume à década de 1970. A combinação de investimentos pesados — como o desenvolvimento do SM e a compra da Maserati — com a crise do petróleo de 1973 e vendas em queda gerou uma crise financeira séria. Em 1974, a empresa entrou em concordata e passou ao controle do grupo Peugeot, que formou a PSA Peugeot Citroën. O novo grupo rapidamente encerrou projetos de alto custo e baixa rentabilidade.
A Maserati foi colocada em liquidação judicial em maio de 1975, repassada à estatal italiana GEPI e logo transferida para Alejandro de Tomaso. A Citroën passou a se concentrar em modelos de maior volume e custo controlado, deixando para trás a fase mais ousada de sua história, aquela em que sonhava concorrer no segmento de prestígio e GTs de alto desempenho.
O Citroën SM acabou se tornando um daqueles casos em que a soma de qualidades técnicas, ousadia estética e narrativa histórica supera o resultado comercial.
Nota: a propaganda afirmar que o Citroën Traction Avant foi o primeiro carro com tração dianteira. Mas não é verdade. A tração dianteira começou a aparecer ainda no fim do século XIX em protótipos experimentais, mas só ganhou forma comercial no final dos anos 1920. Em 1928, o britânico Alvis FWD foi o primeiro automóvel com tração dianteira produzido por um fabricante estabelecido, embora em pequena escala. No ano seguinte, em 1929, surgiu nos Estados Unidos o luxuoso Cord L-29, pioneiro no uso do conceito no segmento de alto padrão. Em 1931 (como modelo 1932), a alemã DKW lançou o F1 (também chamado DKW Front), primeiro carro com tração dianteira produzido em série na Alemanha, simples e acessível, que rapidamente se popularizou. Dois anos depois, em 1934, a Citroën apresentou o Traction Avant, que não foi o primeiro, mas se tornou o mais influente por reunir monobloco, suspensão independente e tração dianteira em grande escala, estabelecendo de vez esse arranjo como solução viável para veículos de produção em massa., na verdade o preimeiro carro.
PM





