No passado, os carros de teste da Ferrari tinham um destino previsível: eram destruídos em testes de colisão ou simplesmente descartados após cumprirem sua missão no desenvolvimento de um novo modelo de produção, assim como a maioria dos protótipos. A ironia é que o custo dos protótipos é absurdo, mas eles não podem ser homologados e dirigidos nas ruas sem a permissão especial para esse fim por parte dos fabricantes.
Hoje, no entanto, num mundo onde qualquer coisa é desejável por alguém em alguma parte do planeta, eles passaram a atrair cada vez mais a atenção de colecionadores, como comprova a recente venda de um protótipo de desenvolvimento do Daytona SP3, um modelo que teve como base estrutural a engenharia do LaFerrari Aperta.
A divisão de Vendas Especiais da Ferrari vem respondendo à crescente demanda por veículos de desenvolvimento, especialmente os protótipos que, apesar de não homologados para uso normal, carregam pedigree técnico e histórico raro. De fato, os protótipos são parte importantíssima do desenvolvimento de modelos e se tornam peças colecionáveis bastante interessantes.
Este Daytona SP3 das fotos é um desses casos: uma peça única que integrou o programa de testes da Ferrari, num processo que envolve quatro estágios distintos de prototipagem.

O primeiro passo é a fase dos chamados mules (ou mulas, em português), veículos que pouco lembram o modelo final, mas que servem para testar componentes essenciais em ambiente real. Para o Daytona SP3, a Ferrari adaptou um 488 GTB, alongado para acomodar o motor V-12 no lugar do V-8 original.
Já o segundo estágio é representado pelos mulotypes, como este exemplar específico, identificado como MP3 (talvez mule prototype, ou protótipo mula) no console central, o terceiro da série. Entre os elementos mais curiosos estão os chamados “cogumelos” vermelhos no painel, botões de emergência obrigatórios em veículos não homologados.
A carroceria adaptada do LaFerrari Aperta abriga o trem de força do Daytona SP3, com o MP3 servindo como plataforma de integração de sistemas, etapa decisiva para o refinamento dinâmico e a experiência de condução intuitiva característica da Ferrari. Os dois últimos estágios do desenvolvimento incluem o protótipo não homologado e, finalmente, as unidades pré-série já homologadas, que servem para validar todo o processo de fabricação e montagem.

Após encerrar seu ciclo como veículo de testes, o MP3 retornou ao mesmo departamento onde nasceu e passou por um processo de restauração criterioso. A camuflagem em preto e branco deu lugar ao acabamento fosco em preto puro, e o interior, antes tomado por fios e ajustes improvisados, foi reorganizado, respeitando o aspecto original de protótipo funcional, mas com a segurança necessária para entrega ao cliente.
Na traseira, os escapamentos centrais duplos antecipam a arquitetura do Daytona SP3 definitivo (SP de Special Project ou Projeto Especial), mas as saídas quádruplas do LaFerrari ainda permanecem — mais um traço da transição entre os projetos.
Mais do que uma raridade, o valor desse carro está na documentação de fábrica que comprova seu papel no desenvolvimento do segundo modelo da série Icona, linha de modelos especiais inspirados em ícones do passado da marca. É essa contribuição direta para a criação de um novo Ferrari que interessa aos colecionadores.
A Ferrari começou a disponibilizar seus protótipos para clientes há cerca de uma década, e desde então a procura não parou de crescer. Essas unidades são parte viva da história da fabricante e conferem prestígio real às coleções que as abrigam.
Neste caso específico, o colecionador levou para casa muito mais que um pedaço do legado técnico da marca: agora ele tem, ao lado do seu Daytona SP3 de produção, o carro que efetivamente ajudou a torná-lo possível. Algo digno de um autoentusiasta. Mas com bastante influência e uma conta bancária bem robusta. Os SP3 de produção tinham preços, lá fora, de R$ 12 mi, podendo chegar a quase R$ 20 mi, dependendo das personalizações.
É para pouquíssimos mesmo!
PM





