Na noite de 12 de fevereiro de 1957, um incêndio devastou a fábrica da Jaguar em Browns Lane, Coventry. Nove exemplares do recém-criado XKSS, já em montagem para clientes norte-americanos, foram consumidos pelo fogo. A produção planejada de 25 unidades acabou reduzida a apenas 16. Essa exclusividade, somada à origem como versão de rua do D-Type tricampeão em Le Mans, fez do XKSS um dos esportivos mais raros da história.
Para tornar o D-Type apto ao uso civil, a Jaguar substituiu a barbatana traseira por um pequeno bagageiro, instalou para-brisa de largura total, portas com vidros fixos, para-choques delicados, escapamento ajustado, faróis e lanternas adequados às normas de trânsito, além de um interior simplificado para dois ocupantes. Um desses carros chegou às mãos do apresentador Bill Leyden, conhecido por seu programa na NBC.
Foi em 1958 que Steve McQueen o descobriu. Na época estrelando a série Wanted: Dead or Alive, McQueen viu o XKSS no estacionamento do estúdio na Sunset Boulevard. Encantado, comprou o carro de Leyden por 5 mil dólares — cheque assinado por sua então esposa, Neile Adams. O carro havia saído da fábrica na cor branca com interior vermelho, mas McQueen rapidamente o transformou ao seu gosto.

A pintura foi refeita em um tom mais escuro de British Racing Green, próximo ao Highland Green do Mustang que pilotaria anos depois em Bullitt. As rodas Dunlop foram polidas, e o interior recebeu acabamento em couro preto feito por Tony Nancy, referência na cena hot rod da Califórnia. Von Dutch, artista e mecânico lendário, fabricou uma tampa de porta-luvas exclusiva para o carro. Assim nascia o “Green Rat”, apelido irônico e afetivo que acompanharia o XKSS até hoje.

McQueen usava o carro intensamente. Pilotava de madrugada pelas estradas das montanhas de Santa Mônica, em especial Mulholland Drive, em corridas improvisadas com amigos. A fama de velocidade era tamanha que, segundo relatos, o xerife de Los Angeles chegou a prometer um jantar caro para qualquer policial que conseguisse multar McQueen em seu Jaguar. Em uma dessas noites, em 1959, foi parado por excesso de velocidade enquanto levava Neile Adams, grávida de seis meses. Disse aos policiais que a esposa estava em trabalho de parto, conseguiu escolta até o hospital e, em seguida, saiu sem maiores explicações — deixando Adams furiosa.
Apaixonado por mecânica, McQueen cuidava pessoalmente de boa parte da manutenção. Mesmo assim, no início dos anos 1970, considerou o XKSS valioso demais para continuar sendo usado em ritmo pesado e o vendeu ao colecionador Bill Harrah. Pouco depois recomprou o carro, mantendo-o até sua morte em 1980.
Em 1984, o “Green Rat” foi vendido em leilão a Richard Freshman por 148 mil dólares. O novo proprietário encomendou uma restauração à britânica Lynx Motors, exigindo que todas as modificações feitas por McQueen fossem preservadas, como a tapeçaria de Tony Nancy e o porta-luvas de Von Dutch.
Hoje, o XKSS de McQueen está no Petersen Automotive Museum, em Los Angeles. Lá, é uma das peças mais visitadas, não apenas pela raridade do modelo, mas pelo vínculo direto com seu dono mais famoso. Como lembrou o ex-diretor do museu, Dick Messer: “Quem vivia nas colinas de Hollywood reconhecia de longe o som do carro. Ouvia o Jaguar chegando e dizia: ‘Sim, lá vai o McQueen’.”
INFORMAÇÕES JAGUAR XKSS “GREEN RAT”
Ano/Produção: 1957 (um dos 16 concluídos, de um total previsto de 25)
Origem: derivado do Jaguar D-Type tricampeão em Le Mans
Chassi/Carroceria: monocoque em alumínio, conversão para rua com portas, para-choques, vidro integral e bagageiro
Motor: 6 cilindros em linha, 3.442 cm³, duplo comando, três carburadores Weber 45 DCO3
Potência: cerca de 250 cv
Transmissão: manual, 4 marchas, tração traseira
Velocidade máxima: aproximadamente 240 km/h
Configuração original: branco, interior vermelho
Configuração McQueen: verde escuro (British Racing Green), interior preto por Tony Nancy, rodas Dunlop polidas
Histórico de propriedade: James Edward Peterson, Bill Leyden, Steve McQueen, Bill Harrah, Steve McQueen, Richard Freshman e Petersen Automotive Museum
Galeria do XKSS do Steve McQueen
O PROGRAMA CONTINUATION
Quase seis décadas após o incêndio, a Jaguar Classic decidiu reparar uma ferida histórica. Em 2016, lançou o programa de continuation cars, recriando fielmente as nove unidades do XKSS que nunca chegaram às ruas.
“Continuation” é o termo usado para designar carros construídos décadas depois, mas a partir de chassis numerados, planos e métodos originais da fábrica. Eles não são réplicas modernas, mas extensões tardias da produção interrompida — como se a linha de montagem tivesse apenas feito uma pausa de meio século.
No caso do XKSS, cada um dos nove exemplares foi construído com especificações idênticas às de 1957, incluindo carroceria em alumínio batida à mão e motor 3,4-litros de seis cilindros com três carburadores Weber. O trabalho levou 18 meses e envolveu pesquisa minuciosa em arquivos da Jaguar, além da digitalização em 3D de exemplares originais.

Esses carros foram oferecidos a colecionadores selecionados e rapidamente se esgotaram, com preços acima de 1 milhão de libras cada. Para a Jaguar Classic, o projeto foi além de um tributo com a confirmação de que o XKSS é um dos modelos mais importantes de sua história.
Ainda assim, nenhum dos continuation car tem o mesmo peso cultural do “Green Rat”.
PM





