Outro dia eu assisti ao vídeo-entrevista do Gabriel Bortoleto e, como o conhecia pouco, fiquei impressionado com a maturidade, a seriedade e o foco que ele demonstra. O vídeo está em inglês e, infelizmente, não tem legendas em português, o que é uma pena. Ainda assim, recomendo assistir, e aqui trago um resumo das partes que mais chamaram a atenção.
Aqui está o vídeo. A F-1 não permite a integração direta na matéria
Bortoleto, também chamado de Gabi no meio, tem um currículo que poucos conseguem reunir: campeão da Fórmula 3 em 2023, campeão da Fórmula 2 em 2024 e uma estreia na Fórmula 1. Me chamou a atenção a forma como ele se coloca e a sua clareza de pensamentos. Na conversa conduzida pelo Beyond the Grid, da própria Fórmula 1, ele aparece como alguém sério, atento, competitivo e ao mesmo tempo cordial, sem necessidade de criar um personagem artificial ou de recorrer a frases prontas para se afirmar.
Diz que quer ser campeão mundial com naturalidade, mas sabe que o caminho é longo e que o trabalho é diário. É nesse contexto que aparece a avaliação de Jonathan Wheatley, diretor esportivo da Red Bull, que afirmou que Bortoleto é the real deal. Um elogio forte vindo de alguém que acompanha de perto a rotina de pilotos campeões. Um bom sinal.
Entre os pontos mais fortes da entrevista está a referência a Ayrton Senna. Bortoleto aponta que se inspira no ídolo brasileiro, adotando inclusive as cores do capacete como tributo pelos trinta anos, com aval da família. Ele procura compreender o que fazia sentido nos anos 1980 e 1990 e traduzir o que ainda cabe no contexto atual. Explica, por exemplo, por que técnicas de Senna como a modulação de acelerador para manter rotação e pressão de turbo não se aplicam aos carros modernos, em razão das diferenças no diferencial e na eletrônica. Para ele, Senna estava sempre adiantado ao seu tempo, e se tivesse acesso aos simuladores de hoje, exploraria essas ferramentas como poucos. Ele escolheu a primeira volta de Donington em 1993 como seu momento favorito dos 75 anos da Fórmula 1. Também um dos meus momentos preferidos, no tempo em que pilotos como Senna realmente davam um show durante as corridas.

O que também me impressiona é a maneira como conduz sua carreira. Suas escolhas soam sempre pensadas, construídas em conjunto com uma assessoria experiente que o orienta bem e que o ajuda a priorizar a preparação e os detalhes do dia a dia. Bortoleto demonstra entender que a evolução não vem em grandes saltos, mas em pequenos avanços que se somam e que, quando vistos em retrospecto, mostram um progresso sólido. Ele aponta que sabe o quanto é necessário se sacrificar para chegar ao topo e encara isso como parte natural do processo. Muita maturidade para um “garoto”.
Dentro da equipe, o parâmetro é Nico Hülkenberg, que ele descreve como o companheiro de equipe mais rápido que já teve. Valoriza a precisão, a capacidade de repetir voltas limpas e a habilidade de se manter no limite sem perder o controle, mesmo quando há um erro pequeno. Analisa os dados, compara traçados, observa onde o alemão ganha tempo e onde administra melhor os recursos para usar como fonte de aprendizado. Quando Hülkenberg conquistou o primeiro pódio da carreira, no GP da Áustria de 2024 em Spielberg, Bortoleto comemorou de forma genuína e comentou que a carreira do alemão poderia ter sido mais justa se tivesse tido carros à altura. Durante a entrevista ele se coloca como muito competitivo, mas ao mesmo tempo como uma pessoa que sabe e pode admirar “concorrentes”.
A adaptação à Fórmula 1 foi um processo e ele conta que levou algumas corridas para compreender a dinâmica de um fim de semana completo, em que a quinta-feira se transforma em um dia desgastante, cheio de compromissos de mídia e patrocinadores, deixando pouco espaço para estudo com engenheiros. E pontua que administrar o tempo de forma inteligente se torna parte do trabalho. Sobre pilotar, para ele, é trabalho árduo. Os carros modernos respondem de maneira muito sensível a vento, temperatura de pista e pequenas mudanças de acerto. Não permitem deslizes. E para ele o estilo mais eficaz é aquele que privilegia suavidade, movimentos limpos e o mínimo de correções no meio da curva, porque qualquer deslize transforma-se em perda imediata de ritmo ou até em uma rodada. Ou seja, os carros atuais são muito sensíveis a erros.

Ao longo da temporada, identifica os momentos em que a equipe começou a entregar atualizações que de fato funcionaram e em que o carro se tornou mais competitivo. Diz que o aprendizado é intenso no começo, mas que depois se transforma em um processo de refinamento. Ele é pragmático e não fala em soluções milagrosas, prefere explicar que trabalha para somar pequenos ganhos que, no conjunto, produzem avanços significativos.
Fora da pista, fala sobre a pressão da torcida brasileira e reconhece que sente a cobrança, mas ao mesmo tempo agradece e diz que consegue distinguir entre críticas vazias e manifestações de apoio. Cita o carinho das crianças que pedem fotos e como isso o faz lembrar do garoto que ele próprio foi, reforçando uma leitura humana do esporte e da relação com o público. Eu acho que ele será cada vez mais “adorado”, pela sua abordagem e simpatia.
Outro ponto de destaque é a ligação com Fernando Alonso, seu agente e mentor que o ajudou a abrir as portas, acelerar processos e ter a visão de quem conhece profundamente os bastidores da Fórmula 1. Nas corridas, como adversário, ele observa o piloto e suas manobras, gestão de pneus, momentos de ataque e de contenção, absorvendo o que Alonso mostra na prática. Nem sempre o espanhol explica tudo para ele, afinal são adversários. Mas mesmo assim o que é transmitido já se revela valioso na formação do brasileiro.
Gabi é um “viciado” em simuladores. Como diversão e como trabalho. Logo após as corridas, costuma voltar a treinar, replicando peso de direção, mapas de pedal e comportamento dinâmico o mais próximo possível dos ajustes reais de seu carro. Ajusta parâmetros de acordo com o que acabou de viver nas pistas buscando aprimorar a precisão.
Sobre a Audi, que estreia em 2026, mostra consciência e senso de realidade. Reconhece a tradição da marca em diferentes modalidades, mas lembra que a Fórmula 1 é um território novo. Sabe que o caminho envolve estruturar fábrica, equipe e unidade de potência, e que será preciso enfrentar adversários com décadas de experiência. Ainda assim acredita no projeto, entende que o sucesso depende de uma curva de aprendizado, mas insiste que a Audi não entra para ser coadjuvante.
Ao falar de sua geração, cita Max Verstappen como exemplo de quem levou o simulador a outro patamar e comenta que também participa desse ambiente em alto nível. Reconhece que fora da pista há amizades, mas que dentro dela a disputa tem prioridade, e que separar uma coisa da outra é fundamental para não comprometer o desempenho. Na pista amigos viram rivais.
Por fim, há o pano de fundo pessoal. O início no kart, a mudança precoce para a Europa com apenas 11 anos, a distância da família e os esforços dos pais surgem na entrevista não como queixa, mas como consciência do custo e da responsabilidade que carrega. Quando menciona escola e idiomas, resume que a prática da vida em viagem e competição se tornou a formação que realmente contou.
O que se percebe é um piloto que sabe onde está, reconhece o que tem que fazer e está disposto a se dedicar integralmente ao atingimento de seu objetivo. Pelo que observei durante a entrevista, Gabriel Bortoleto tem base técnica, maturidade rara e a postura certa para construir uma carreira sólida na Fórmula 1. Aposto em um novo ídolo.
No AUTOentusiastas, vamos acompanhar de perto. E torcer para que cada etapa confirme o que ele já mostra agora.
PM





