A milionária rescisão de contrato entre a Red Bull e Christian Horner (foto de abertural) terá efeitos claros e obscuros no ambiente da F-1. Valores do acordo não foram revelados, mas a imprensa inglesa publicou números que vão de € 60 milhões (site da BBC) até US$ 100 milhões (Motorsport.com). Seja R$ 375 milhões ou R$ 533 milhões (valores aproximados, respectivamente), a soma é considerada bastante alta pelos padrões empresariais europeus, mesmo levando-se em conta que Horner ainda tinha cinco anos e meio de contrato e salário anual em torno de R$ 75 milhões anuais. A notícia, divulgada ontem, diluiu em parte o impacto negativo do abandono de Oscar Piastri na primeira volta do GP do Azerbaijão. Na corrida disputada no circuito urbano em Baku, e vencida pelo holandês Max Verstappen, o australiano não marcou pontos, mas ainda lidera o campeonato, agora com 24 pontos de vantagem sobre Lando Norris e 69 sobre o tetracampeão mundial.

Tal qual a sociedade brasileira, a distribuição de renda envolvendo os profissionais das equipes de F-1 também é altamente discrepante: o salário médio de um mecânico de uma equipe de ponta é de R$ 504.700,00 ou cerca de R$ 42 mil mensais, pouco mais que o dobro do salário médio de um trabalhador inglês. Considerando o estresse e o desgaste que envolvem a profissão e a exigência de saber lidar com equipamentos de última geração em um ambiente de alta pressão e viajar 24 vezes durante o início de março e o início de dezembro, o número não é exatamente atraente. Mais ainda quando se nota que a cada mês Horner recebia R$ 6,25 milhões.

Esses valores salariais são ditados pelas grandes equipes, entre elas a própria Red Bull, onde Horner atuava desde 2005. Desde então ele conduziu um processo que semeou oito títulos mundiais (quatro com Sebastian Vettel e quatro com Max Verstappen), seis de construtores, 124 vitórias, 287 pódios e mais de 8 mil pontos no Campeonato Mundial de F-1. Números para ninguém botar defeito. Ou quase. O condicional deve-se à maneira como o inglês administrou seu próprio crescimento dentro da organização. Certamente, um administrador eficiente, mas o preço desse sucesso gerou dissabores.

É voz corrente na F-1 que o ex-chefão da Red Bull tentou se apoderar de mais poder do que seus patrões consideravam justo. A empresa dos energéticos foi fundada pelo tailandês Chaleo Yoovidhya e o austríaco Dietrich Mateschitz, o primeiro um farmacêutico e criador da Krating Daeng, produto que originou a bebida universalmente conhecida como o energético mais conhecido. Yoovidhya, acionista majoritário, tinha Horner em alta conta, já Mateschitz tinha o conterrâneo Helmut Marko como seu braço direito. Horner e Marko nunca foram melhores amigos: o primeiro sempre buscou mais poder, o segundo jamais abdicou de seu estilo frio, direto e, não raramente cruel.

A morte de Mateschitz, aos 22 de outubro de 2022, fez crescer o olho de Horner e aí os problemas começaram a se tornar públicos: primeiro as críticas de Jos Verstappen, pai de Max; depois começou uma sequência de chegadas e partidas de companheiros de equipe, vários desses pilotos sentiram-se desprestigiados, sensação que se estendeu para membros como o mecânico Calum Nicholas, o projetista Adrian Newey e o chefe de equipe Jonathan Wheatley. Nicholas cansou do corre-corre das viagens e assumiu m projeto bancado pela própria Red Bull que apresenta o mercado de trabalho do automobilismo para jovens estudantes.

Newey não se esforçou em demonstrar que não se sentia reconhecido por seu trabalho em projetar os carros que garantiram títulos, vitórias e pódios à equipe e transferiu-se para a Aston Martin. Ao notar que não visualizava uma promoção dentro de casa, Wheatley assinou com a equipe Sauber-Audi e hoje ocupa um cargo de liderança no time germano-suíço. Não é segredo que no desenrolar desses fatos currículos de muitos engenheiros e técnicos da equipe dos energéticos passaram a circular em equipes rivais em busca de novas oportunidades de trabalho. Nesse processo Horner acabou por perder o apoio do empresário tailandês.
Cereja do bolo desse processo foi a acusação de assédio sexual apresentada por uma funcionária da Red Bull. O fato motivou uma sindicância independente para averiguar a veracidade dos fatos e o veredicto foi pró-Horner. O assunto, porém, jamais pereceu: fala-se de um acordo feito fora dos tribunais e que a profissional hoje trabalha em outra equipe.

Verdade incontestável é que, quando se fala em sucesso pleno, para ser bem-sucedido na F-1 é necessário ter pele grossa, uma dose enorme de frieza e escrúpulos em doses homeopáticas light e sem adição de açúcar. Poucos acreditam que Horner ficará fora da F-1 por muito tempo: o acordo com seu ex-empregador permite que ele volte a atuar na categoria a partir do segundo semestre de 2026. As portas não estão se abrindo facilmente: Don Towriss, diretor-presidente da Cadillac, que estreia na F-1 no ano que vem, já deixou claro que não há lugar para o inglês em sua equipe. O nome mais citado para o retorno de Christian é a Alpine, atualmente liderada por Flavio Briatore, aquele que foi banido da F-1 por forçar Nelsinho Piquet a bater propositadamente nos muros do GP de Cingapura de 2008 para facilitar uma vitória de Fernando Alonso.

líder da Red Bull (Foto: Red Bull)
Indiferente a tudo isso, Laurent Mekies, sucessor de Horner, mergulhou na reorganização da equipe que, no último fim de semana celebrou a segunda vitória consecutiva de Max Verstappen, resultado que o coloca novamente na luta pelo título da temporada. O resultado completo do GP do Azerbaijão você encontra aqui.

WG
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