A história da ZF em sistemas de freios remonta a mais de 50 anos, com mais de 3 bilhões de componentes produzidos em todo o mundo. Agora, a fabricante alemã dá um passo decisivo rumo ao futuro ao lançar um portfólio abrangente de soluções brake-by-wire (freio por fio), tecnologia que substitui a hidráulica tradicional por comandos eletrônicos e que já nasce preparada para funções de condução autônoma até Nível 4.
Mesmo em veículos definidos por software, totalmente conectados e eletrificados, nada substitui a importância de freios potentes e sobretudo confiáveis. A ZF — iniciais de Zahndradfabrik, fábrica de engrenagens — coloca-se como fornecedora desse alicerce, oferecendo três configurações possíveis: puramente elétrica, puramente hidráulica ou híbrida, de acordo com as demandas de cada fabricante e mercado. A proposta é entregar flexibilidade de projeto, menor complexidade construtiva e ganhos diretos em eficiência.
Como funciona um sistema de freios tradicional
O sistema de freios convencional atual, hidráulico, é composto por:
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Pedal do freio, normalmente atrelado mecanicamente a um servofreio (a vácuo do coletor de admissão ou de bomba de vácuo dedicada), que amplifica a força aplicada pelo motorista.
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Cilindro-mestre, que converte a força aplicada no pedal de freio em força hidráulica.
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Tubulações, que conduzem o fluido hidráulico até os freios nas rodas de maneira a acioná-los efetivamente, isso baseado nos princípios de 1- líquidos sáo incompressíveis e 2 – toda forca exercida num líquido se transmite em todas as direções.
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Pinças de freio, que pressionam as pastilhas contra os discos para gerar o atrito que resulta na força de frenagem ou tambores de freio para a mesma finalidade, mas por meio da sapatas.
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Sistemas auxiliares como ABS, controle de estabilidade e tração, que modulam a pressão de forma eletrônica.
Apesar da evolução, essa arquitetura depende do fluido hidráulico como meio de transmissão.
O que muda com o brake-by-wire
No freio por fio, o elo mecânico-hidráulico entre pedal e rodas deixa de existir. O pedal gera sinais eletrônicos que são interpretados por módulos de controle, e atuadores eletro-hidráulicos ou eletromecânicos aplicam a pressão nas rodas.
As vantagens imediatas são rapidez, precisão e integração simplificada com eletrônica embarcada. Para veículos híbridos e elétricos, abre-se a possibilidade de modular a mistura entre frenagem regenerativa e hidráulica (blending), com maior eficiência energética.
Freio hidráulico tradicional
- Pedal aciona servofreio (a vácuo ou elétrico).
- Cilindro mestre gera pressão no fluido.
- Fluido hidráulico preencha tubulações até as pinças ou cilindros de freio.
- Pastilhas ou sapats pressionam os discos ou tambores gerando atrito.
- Sistemas auxiliares (ABS, ESC) modulam pressão do fluido.
Freio by-wire (por fio)
- Pedal gera sinais eletrônicos para um módulo de comando eletrônico.
- Atuadores eletro-hidráulicos ou eletromecânicos aplicam a frenagem.
- Dispensa ou reduz drasticamente o uso de fluido hidráulico.
- Possibilidade de combinação com regeneração elétrica.
- Resposta mais rápida, modular e preparada para condução automatizada.
Exemplos de sistemas já em produção
Toyota/Lexus – freio controlado eletronicamente
Primeiro sistema de freio por fio em produção em massa, desde 2001. Nos híbridos Prius e Lexus, permite misturar automaticamente a regeneração de energia para os motores elétricos com a frenagem hidráulica, sem que o motorista perceba diferença.
Mercedes-Benz – SBC (Sensotronic Brake Control)
Usado no início dos anos 2000, foi um dos pioneiros em eletro-hidráulico. O pedal envia sinais a um módulo que controla a pressão do fluido. Antecipou o conceito moderno, mas teve problemas de confiabilidade e acabou descontinuado.
Alfa Romeo Giulia e Stelvio – IBS (Integrated Brake System)
Desenvolvido pela Continental, reúne servofreio, ABS e controle eletrônico em um único módulo compacto. Responde mais rápido ao pedal, reduz peso e aumenta a eficiência.
Audi e-tron e Q8 e-tron
Usam o mesmo módulo MK C1 da Continental (base do IBS). Essencial em suves elétricos grandes, porque garante frenagem forte e, ao mesmo tempo, aproveita bem a regeneração.
Porsche Taycan
Esportivo elétrico que prioriza a suavidade. Até certa força de pedal, o carro freia só pela regeneração; quando precisa de mais, aciona os freios hidráulicos. O motorista não sente a transição, mantendo o “feeling Porsche” característico.
Ferrari SF90 Stradale e 296 GTB
Híbridos de altíssima potência. O sistema calcula em tempo real quanta frenagem pode vir da regeneração e quanto precisa vir do hidráulico. O pedal simulado garante precisão e previsibilidade, mesmo em carros com mais de 800 ou 1.000 cv.
Honda/Acura NSX – Electro-Servo Brake
Sistema que combina regeneração e freio hidráulico sob comando eletrônico. Foi pensado para manter a resposta esportiva num híbrido, aproveitando ao máximo a energia recuperada.
GM (Silverado, Sierra, Cadillac, Corvette C8) – IBC (Integrated Brake Control)
Sistema da ZF que substitui o servofreio a vácuo e concentra funções de ABS e controle de estabilidade. Compacto e confiável, é hoje um dos freios por fio mais difundidos em veículos de alto volume.
BMW (X5, X7, Série 3 G20, M8) – Integrated Braking (IB)
Inspirado na experiência da marca na Fórmula E, integra booster e controle eletrônico em um só módulo. Permite ajustar o “feeling” do pedal de acordo com o modo de condução.
Hyundai, Kia e Genesis – IEB (Integrated Electronic Brake)
Criado para híbridos e elétricos. Um único módulo eletro-hidráulico comanda os freios e coordena a regeneração. Resultado: mais autonomia, menos peças e resposta rápida.
Land Rover Defender (L663) – IPB (Integrated Power Brake)
Fornecido pela Bosch, elimina o vácuo e usa atuadores eletrônicos para gerar pressão. O pedal não tem ligação direta, mas um simulador transmite sensação natural. Traz redundância de segurança, essencial em um off-road moderno.
Os três sistemas da ZF
1. Freio “seco”: o by-wire puramente elétrico
Na solução denominada dry (seca), desaparece completamente o fluido de freio. A pressão necessária para acionar as pastilhas contra os discos não é mais gerada por pressão hidráulica, mas por motores elétricos instalados diretamente nas rodas. O sinal do pedal percorre apenas caminhos eletrônicos.
O resultado é uma resposta mais rápida, maior eficiência na regeneração de energia em veículos elétricos e custos de manutenção reduzidos. Essa configuração ainda elimina praticamente o arrasto residual das pastilhas — conhecido como residual drag torque — aumentando o alcance dos elétricos e reduzindo emissões de partículas. Os veículos modernos estão ficando cada vez mais pesados, e é fundamental que a pressão ideal seja atingida no menor tempo possível.
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Resposta imediata.
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Regeneração de energia mais eficiente.
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Redução de custos de manutenção e eliminação do arrasto residual das pastilhas (residual drag torque).
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Menor emissão de partículas e maior alcance em elétricos.
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Arquitetura simplificada, com menos peças e montagem mais rápida.

2. Freio híbrido: o melhor dos dois mundos
Nos Estados Unidos, a tendência é a adoção de sistemas híbridos. Nessa configuração, o eixo traseiro utiliza freio dry (seco), enquanto o dianteiro permanece com solução hidráulica. Essa combinação atende especialmente caminhonetes e suves médios e grandes, que exigem elevadas forças de imobilizaçãoquando estacionados.
O freio de estacionamento eletromecânico convencional não é suficiente, mas a ZF desenvolveu uma versão eletromecânica capaz de assumir essa função no eixo traseiro. Em conjunto com um módulo de controle eletro-hidráulico, dispensa-se o servofreio a vácuo, com redução de complexidade sem abrir mão de desempenho e segurança.
Em janeiro de 2025, a ZF anunciou o primeiro grande contrato global para fornecer esse tipo de sistema híbrido a um fabricante internacional.
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Atende caminhonetes e suves médios e grandes, que exigem força de imobilização extra no estacionamento.
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EPB convencional não basta, por isso a ZF desenvolveu versão eletromecânica para o eixo traseiro.
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Em conjunto com módulo eletro-hidráulico, elimina-se o servofreio a vácuo.

3. Controle integrado de freio (IBC)
O cérebro da solução híbrida é o Integrated Brake Control (IBC), lançado em 2018 e já consolidado em diversas aplicações. Compacto, leve e adaptável a qualquer tipo de veículo, o IBC acumula funções de ESC (controle de estabilidade), reforço de frenagem e unidade eletrônica central (ECU) de programas de segurança ativa.
Além de operar com software próprio da ZF, o sistema pode integrar aplicações de terceiros, dispensando unidades de controle adicionais. Para os fabricantes, isso representa redução de peso, custos e complexidade.
A combinação do IBC com sistemas brake-by-wire oferece aos clientes uma solução pronta para o futuro, fácil de integrar em plataformas inovadoras e preparada para requisitos crescentes de segurança e desempenho.
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Integra ESC (controle de estabilidade), reforço de frenagem e unidade eletrônica em um único módulo.
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Compacto, leve e adaptável a qualquer tipo de veículo.
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Pode operar com software próprio da ZF ou de terceiros.
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Reduz peso, custos e complexidade, além de acelerar a integração em novas plataformas.

Futuro próximo: vantagens e desafios
Os freios by-wire estão se consolidando como padrão para a próxima geração de automóveis e comerciais leves. Mas a transição traz tanto oportunidades quanto desafios:
Vantagens técnicas
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Resposta de frenagem mais rápida e precisa.
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Melhor coordenação entre regeneração elétrica e frenagem mecânica.
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Arquitetura mais simples, leve e modular.
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Maior confiabilidade quando redundâncias eletrônicas são aplicadas.
Vantagens para o usuário
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Pedal com feedback ajustável conforme o modo de condução.
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Menor esforço físico, mais conforto e segurança.
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Manutenção reduzida (especialmente nos sistemas “secos”).
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Maior alcance em veículos elétricos.
Vantagens para o meio ambiente
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Redução de emissões de partículas por menor contato entre pastilha e disco.
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Maior eficiência energética graças à regeneração mais efetiva.
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Eliminação do fluido de freio nos sistemas “secos”, reduzindo resíduos químicos.
Dificuldades e contrapontos
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Percepção do motorista: a ausência de conexão mecânica direta pode alterar a sensação de pedal, exigindo calibração cuidadosa para não comprometer a confiança.
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Custo inicial: sistemas ainda mais caros que a hidráulica tradicional, com impacto no preço final do veículo.
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Complexidade eletrônica: dependência de software e sensores aumenta a necessidade de redundância e segurança cibernética.
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Aceitação no mercado: consumidores e oficinas precisam se adaptar a uma tecnologia menos tangível e de manutenção especializada.
Mais responsivos, sustentáveis e econômicos, os sistemas brake-by-wire são uma realidade em rápida expansão.
PM





