Poucos notaram o fato durante o caminho de Max Verstappen rumo à vitória no GP dos Estados Unidos no último domingo. Só três horas após o fim da corrida disputada em Austin, a FIA divulgou um comunicado penalizando a Red Bull pela atitude de um dos seus integrantes. Esse detalhe mostra a zona cinzenta envolvendo fato tão lamentável quanto evitável: a tentativa de retirar da murata do box a referência que orientava Lando Norris a ocupar corretamente seu lugar no grid. O episódio está longe do ineditismo e deixa claro que os limites da ética não prevalecem no paddock, especialmente quando se busca resultados que valem muitos milhões de dólares para os perpetradores.

Os atuais carros da F-1 primam pela visão limitada que os pilotos têm quando devidamente acomodados em seus cockpits. Tal condição afeta sobretudo, mas não apenas, aqueles de menor estatura, como aconteceu com Felipe Massa no GP da Bélgica de 2010 e o próprio Norris no GP do Bahrein deste ano. Em ambos os casos, eles posicionaram seus carros fora do espaço determinado no grid e indicados por colchetes pintados no solo e, por isso, foram penalizados no resultado final da prova.
Esse posicionamento é importante por causa dos sensores instalados no asfalto e que determinam possíveis queimas de largada, manobra na qual o carro é movimentado antes da largada ter sido autorizada.

Para evitar a punição recebida no Bahrein, em Austin Norris pediu a um dos seus mecânicos para aplicar uma fita adesiva no muro dos boxes de modo a servir de referência sobre sua posição de largada correta. O inglês alinhou em segundo lugar e dividia a primeira fila com Max Verstappen, adversário direto na disputa pelo título de 2025. Quando foi dado o sinal de evacuação do grid que precede o início da volta de aquecimento, um mecânico da Red Bull, não identificado nos comunicados oficiais do evento, tentou reentrar na pista num local próximo de onde a referência pedida por Norris estava aplicada.

O episódio foi comunicado à direção de prova às 16:h30 (hora em Austin), pouco antes do final da prova. O documento descreve a tentativa do mecânico da Red Bull de reentrar no grid e desrespeitar a ordem dos comissários de box, motivo principal da aplicação de uma multa de € 50,000, dos quais metade foi cobrada e a outra metade suspensa sob a condição que tal erro não se repita nesta temporada. Tal procedimento é normal na categoria.

De acordo com o irlandês Gary Anderson, engenheiro honoris causa e nome respeitado na F-1 por seu conhecimento e postura imparcial, manobras dessa natureza não são novidade, tampouco desconhecidas dos dirigentes das equipes:
“O incêndio no Benetton de Jos Verstappen durante o GP da Alemanha de 1994 foi atribuído a um erro cometido por um mecânico, mas é difícil acreditar que um engenheiro experiente não saberia que ao retirar um filtro do sistema de abastecimento não renderia segundos preciosos. Quando é possível ganhar tempo significativo, atitudes como essa não são tomadas individualmente, mas sempre com conhecimento da equipe. Nos meus tempos de Jordan eu proibi o responsável pelo nosso sistema de comunicação via rádio que tentava criar interferências externas para que outras equipes não nos ouvissem.”

Outra manobra famosa que ilustra táticas discutíveis ocorreu na prova de classificação para o GP da Hungria de 2007. A rivalidade entre Fernando Alonso e Lewis Hamilton atingiu níveis críticos e o espanhol contou com a colaboração de um assistente particular para retardar sua saída à pista e prejudicar o inglês, que estava parado atrás do seu carro. Como consequências, Hamilton não pôde fazer uma tentativa de melhorar seu tempo e Ron Dennis não hesitou em arrancar a credencial do assecla de Alonso.

Atualmente a manobra mais comum é o piloto demorar a entrar na pista no início e reinício de treinos e provas de classificação. De acordo com Anderson, a solução para o caso seria estabelecer uma velocidade mínima para transitar pelo pit lane. A ideia pode funcionar, mas só será aplicada quando provocar um incidente envolvendo rivais na disputa pelo título.
A vitória na corrida Sprint, no sábado, e o GP no domingo reduziu sensivelmente a diferença de Max Verstappen para Oscar Piastri, que teve um fim de semana para esquecer, e Lando Norris, os únicos pilotos que o superam na tabela de pontos da temporada.
O resultado completo do GP dos Estados Unidos você encontra aqui.
WG
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