Há carros que você respeita. Há carros que você admira. E há carros que você simplesmente pega a chave e sai para dirigir só para colocar a cabeça no lugar, ou só pelo prazer, e mais nada. Para mim, os MINIs sempre estiveram nesse último grupo.
Em 2013 eu trabalhava na MINI/BMW no Brasil e tinha um MINI Roadster R59, duas gerações atrás do modelo F67 que você vê aqui. Era rotina: dias tensos, hora do almoço, eu descia para a garagem, ligava o carro e pegava a Marginal. Sentido Interlagos, depois de volta até a Ponte Cidade Jardim e volta para a garagem. Algumas reduções, trocas de marcha, às vezes música, na maior parte do tempo só o som do motor. Apenas pelo revigorante e puro prazer de dirigir. Coisa de 20 minutos, mas altamente terapêutica.
Isso não mudou. A MINI continua sendo um dos poucos fabricantes que ainda entregam esse tipo de prazer ao volante como diferenciador de marca.

Antes de falar do carro em si, vale lembrar de onde vem esse sobrenome. Muita gente chama qualquer MINI de MINI Cooper. Mas Cooper não é marca, é versão. A marca é MINI. Cooper é a versão mais divertida de algumas configurações. E acima disso existe a versão John Cooper Works, que é justamente este carro: a leitura mais esportiva da MINI em produção regular. Lá no topo ainda existe os GP, que são séries limitadas de poucas unidades por geração e vão para o lado mais extremo.
Esse nome não é decorativo. John Cooper foi dono de equipe de Fórmula 1, bicampeã mundial (1959 e 1960) com ninguém menos do que Jack Brabham. Amigo próximo de Alec Issigonis (o engenheiro que projetou o MINI original, motor transversal, tração dianteira, dimensões mínimas por fora e espaço enorme por dentro), teve papel direto na preparação dos MINIs de competição. Esses carros ganharam provas importantes, inclusive Monte Carlo nos anos 1960. A partir daí, Cooper virou sinônimo de MINI esportivo. John Cooper Works é uma referência à oficina Cooper e identifica o MINI mais intimidante da linha normal.

O MINI John Cooper Works Cabrio que eu avaliei entrega 231 cv e 38,7 m·kgf de um quatro-cilindros 2,0 L TwinPower Turbo, a gasolina, com injeção direta. É o mesmo conjunto básico usado no hatch JCW. Há versões elétricas também. O câmbio é automático esportivo de dupla embreagem e sete marchas (Steptronic Sport), que também podem ser trocadas pelas borboletas no volante. É um conjunto forte e muito bem acertado. As reduções vêm com aceleração interina automática para casar rotações, o que dá aquela troca de marcha limpa nas entradas de curvas de baixa. É um carro que gosta de ser conduzido rápido. E entrega números interessantes: 0 a 100 km/h em 6,4 segundos e velocidade máxima de 245 km/h, segundo a MINI.
Abrindo o capô, dá para ver que não é só fachada. Tudo muito apertado, embalado lá dentro, com duto de ar generoso alimentando o motor. A MINI usa um sistema que chama a atenção: há um dispositivo pirotécnico próximo às dobradiças que levantam o capô em caso de atropelamento. A lógica é criar um espaço extra entre a chapa e os componentes rígidos do cofre para amortecer o impacto da cabeça de um pedestre. É uma solução típica de carro de luxo moderno aplicada num carro pequeno feito para a Europa.



Outro detalhe de engenharia é a quantidade de alumínio estrutural na dianteira. Há uma viga transversal em alumínio e longarinas também em alumínio ancorando para-choque e módulo frontal. Embaixo dá para ver o protetor do cárter metálico também em alumínio, dutos de ar direcionando fluxo para os freios dianteiros e um interresfriador de um lado só. Há aletas aerodinâmicas e coberturas plásticas para organizar o ar. E dá para notar reforços específicos de rigidez, barras de amarração, principalmente porque este carro é Cabrio.
Conversível sempre perde rigidez torsional pela falta de fechamento do teto. Para compensar, a MINI acrescenta barras e travessas extras de amarração no assoalho e na traseira. Isso aparece claramente olhando de baixo: ancoragens adicionais e barras de reforço que são exclusivas do Cabrio John Cooper Works (de acordo com a MINI). Esse reforço é fundamental para manter a precisão de direção e o que a MINI chama de sensação de “go-kart”, aquele comportamento ágil, imediato, como se fosse um kart, que virou cartão de visita da marca.

A suspensão dianteira usa solução McPherson e, atrás, multibraço. Não há nada de exótico no desenho, mas há cuidado de calibração. Ele é mais firme do que um MINI normal, claro: curso curto, molas mais rígidas, pouco rolar de carroceria. Mesmo assim, o carro não é extremamente desconfortável como alguns MINIs mais antigos já foram. O acerto dá conta de filtrar sem virar aquele pula-pula cansativo de hot hatch mal resolvido. É firme, mas utilizável. Eu me lembro que tive a gripe forte por H1N1 quando tinha o R59. Meu corpo doía todo ao trafegar por ruas imperfeitas. Impressionante como isso melhorou muito.
Em estrada sinuosa, nos Romeiros, transmite segurança e comunica bem o que está acontecendo no eixo dianteiro. A direção com assistência elétrica tem peso bem dosado e a resposta é rápida. Isso, combinado com freios de alto desempenho, com pinças vermelhas JCW (Chili Red, como a MINI chama) e discos ventilados nas quatro rodas, dá muita confiança mesmo em uso mais forte. Vale notar que se devee desligar o assistente de manutenção de faixa para uma direção menos anestesiada.
O escapanento merece um parágrafo à parte. Visualmente, o John Cooper Works Cabrio traz a saída central, clássico MINI esportivo moderno, integrada ao extrator traseiro com aletas. Debaixo do carro, dá para ver que há um silenciador principal grande, mas também há uma saída adicional na lateral desse silenciador, escondida e com válvula. Essa linha secundária provavelmente abre nos modos mais exigentes para soltar o fluxo e deixar o motor respirar (expirar) melhor. É estranho. Não sei exatamente o que pensar sobre esse subterfúgio. Lá no Instagram o pessoal não gostou. Mas, se funciona bem, por que não?
Na cabine escuta-se pipocos nas rotações mais altas. Mas aqui vem um comentário honesto: esses pipocos são artificiais dentro da cabine. Me parecem vir dos alto-falantes. Fora, no escapamento, não se ouve o mesmo efeito. Do ponto de vista de quem está de fora do carro e não quer ser incomodado com a poluição sonora, faz muito sentido. Do ponto de vista entusiasta, eu preferiria o som real vindo lá de trás, e usá-lo com respeito.


Em termos de design, esta unidade combina pintura preta com faixas no capô em degradê no padrão John Cooper Works, carcaças dos retrovisores vermelhas, rodas exclusivas de 17 polegadas, pneus Hankook Ventus S1 Evo 3 runflat 205/45 R17 (na Europa são 215/45) e freios com pinças vermelhas JCW. A dianteira tem agora uma grade octogonal em preto-brilhante, com o logotipo John Cooper Works e entradas de ar verticais em vermelho para alimentar o motor e gerenciar temperatura. A traseira tem para-choque com extrator integrado e o tal escapamento central. É ousado sem virar caricatura. Aberto, capota semi-recolhida (pois fica aparente), fica bem bacana. Fechado, o Cabrio tem uma coluna C larga que cria um ponto cego forte em conversões e retornos apertados. É algo para ficar atento.
Capota: aqui está uma das graças do carro. Há duas formas de abrir. Você pode deslizar só a seção dianteira, como se fosse um teto solar muito grande, e andar com 40 cm de abertura sem descobrir todo o carro. Ou recolher tudo e virar conversível de fato. Ainda há o “Always Open Timer” na central multimídia, que registra quanto tempo o carro rodou com a capota aberta. O exemplar que dirigi tinha quase 3.000 km e apenas 10 minutos de capota aberta. Ou seja, gente andando de conversível com teto fechado. Um desperdício. Mas entendo a questão da segurança. Eu dei azar, pois no dia em que tive para testar o carro choveu! Mal pude aproveitar.

A capota pode ser acionada até 30 km/h e recolhe totalmente em 18 segundos. Há opção de forro com o desenho Union Jack (bandeira britânica estilizada) em cinza, exclusiva do Cabrio, assim como a cor externa cinza Copper.
Por dentro, o ambiente é MINI puro 2025. Volante espesso de três raios que na verdade são dois, porque o terceiro é uma tira de tecido, e com borboletas do câmbio. Há aquecimento de volante, bancos com ajuste elétrico, memória, massagem e revestimento que mistura tecido de malha nas áreas de apoio dos ombros e material sintético preto, com costuras vermelhas John Cooper Works. Tem projetos de dados no para-brisa, iluminação ambiente configurável, carregador de bateria de telefone celular por indução, assistentes eletrônicos de condução e muita conectividade. Muitos mimos!
E aí entra um ponto curioso da atual geração. A MINI criou algo que chama de “experiences” (Experiências). São sete modos que misturam ajuste dinâmico, interface visual e sonorização artificial. Porém apenas dois deles mudam configurações dinâmicas. O modo Go-Kart é o modo esporte. Mais peso de direção, pedal de acelerador mais afiado, trocas de marcha automáticas em rotações mais altas, controle de tração relaxado e o tal efeito sonoro pipocando. O modo Green deixa tudo mais leve e dócil, do acelerador ao ar-condicionado, e ainda coloca um passarinho animado no painel incentivando você a dirigir de forma mais eficiente. Se você abusa, ele some e aparece um felino correndo, dizendo que você está gastando energia demais. Um jeito bacana de mostrar isso.

Há ainda modos de ambientação como o Core (modo normal), Vivid, Timeless, Balance e Personal, que trocam visual de painel, iluminação interna, grafismos e até simulam o velocímetro central dos MINIs clássicos (modo Timeless). Esses modos são apenas lúdicos. “Pump up the jam” é a música da campanha dos novos MINI. Divertidos e alegres. As crianças adoram.
Existe também um botão Boost na borboleta esquerda. Acionado, o carro entra em um estado temporário de ataque: respostas mais rápidas, câmbio mais rápido, direção mais pesada e, possivelmente, um leve ganho de pressão de turbo por 10 segundos. A MINI não detalha o que muda em termos de calibração de motor, mas na prática você sente aquele “acorda, vamos agora”. Esse modo é justamente para dar aquela explosão curta de desempenho que traz o espírito de pista para a rua. No meu entendimento, ele aciona o modo Go-Kart, e nada mais. Talvez seja mais um elemento lúdico.

Em tamanho, o John Cooper Works Cabrio continua compacto: menos de 4 metros de comprimento, ágil, com diâmetro de giro de 11,1 metros e altura livre do solo de 124 mm. Perfeito para fugas em ambiente urbano, como no icônico filme The Italian Job (“Uma saída de mestre” no Btasil). Quem ainda não viu, procure o original, de 1969. A cena de abertura mostra um Lamborghini Miura dirigido por Rossano Brazzi sendo destruído nos Alpes italianos.
O porta-malas de 215 litros, que cai para cerca de 160 litros quando a capota está recolhida, e o recurso clássico de abrir a tampa para baixo, que permite até apoiar alguma coisa ali (limitado a 80 kg, diz a etiqueta). Atrás, há dois lugares. Na prática, é mais um porta-malas estendido do que um banco para adultos. Mas, com algum ajuste no banco dianteiro, talvez seja possível levar duas crianças ou pessoas pequenas por uma distância curta. Nesse sentido, eu achava o meu Roadster mais apropriado, pois nem tinha o banco traseiro.
No uso, o carro passa segurança. Direção rápida, freios bem calibrados, estabilidade previsível. É um daqueles casos em que você entra numa curva molhada com o asfalto irregular e ele não parece nervoso ou frágil. E a eletrônica atua bem, sem interferir muito. Ajuste fino muito bem feito. Vale lembrar que, segundo a própria MINI, um protótipo baseado no novo John Cooper Works venceu sua categoria na 24 Horas de Nürburgring deste ano, o que dá uma boa ideia de quão sério é o desenvolvimento dinâmico desse carro.
O consumo que eu obtive, com bastante diversão e longos tempos parado com o carro ligado, foi de 8,4 km/l. Pelo Inmetro o combinado chega a 11,6 km/l e eu acho perfeitamente atingível mantendo muita calma.

Agora, a provocação. O MINI John Cooper Works Cabrio é um brinquedo de R$ 350.000 e bem recheado. Banco com massagem, sete modos de experiência, animação de passarinho, assistente disso, assistente daquilo, iluminação ambiente configurável, pipoco artificial no som interno. Tudo isso tem público, claro. A MINI hoje é uma marca de luxo, ou premium, e esses equipamentos são necessários e desejados. Grande parte de quem compra esse tipo de carro quer conforto, quer mimo, quer mostrar que comprou a especificação mais alta.
Mas fica a pergunta que não sai da minha cabeça: e se existisse uma versão realmente para o autoentusiasta?
Pense no seguinte: remova a capota elétrica, a massagem, o ajuste elétrico dos bancos, o banco traseiro, a iluminação ambiente, o o projetor de dados, o assistente de faixa, o carregador por indução e todos os outros mimos. Simplifique a multimídia, coloque um velocímetro analógico e um conta-giros. Pneus que não sejam runflat. Menos peso e sem mimos. Um hot hatch mais raiz, com preço cerca de 100 mil reais baixo. Imagine um JCW por R$ 250.000. Seria o meu carro, mantendo os dois rins.

Enquanto isso não existe, o que temos é este John Cooper Works: pequeno, bem amarrado estruturalmente, motor forte, câmbio rápido, direção comunicativa, freios grandes, escapamento central visualmente obrigatório, sete experiências de condução e a possibilidade de abaixar a capota e simplesmente ir dirigir só para limpar a mente. Para muita gente, isso basta.
Eu recomendo. MINI faz bem para a saúde. Mental.
PM
FICHA TÉCNICA – MINI JOHN COOPER WORKS CABRIO
| ITEM | DADOS TÉCNICOS |
|---|---|
| Motor | Quatro cilindros em linha, transversal, Injeção direta, turbocarregado, 16 válvulas |
| Código do motor | B48A20O2 |
| Cilindrada | 1.998 cm³ |
| Alimentação | Injeção direta de gasolina, turbocarregador com interresfriador |
| Potência máxima | 231 cv a 5.000–6.000 rpm |
| Torque máximo | 38,7 m·kgf a 1.500~4.000 rpm |
| Câmbio | Automático esportivo de dupla embreagem (Steptronic Sport), 7 marchas |
| Tração | Dianteira |
| Direção | Elétrica (EPS) com função Servotronic |
| Relação peso-potência | 6,35 kg/cv |
| Aceleração 0–100 km/h | 6,4 s |
| Velocidade máxima | 245 km/h |
| Consumo (INMETRO) | Urbano: 10,2 km/l • Rodoviário: 13,4 km/l • Combinado: 11,6 km/l |
| Emissões de CO2 (Inmetro) | 168 g/km |
| Classificação Inmetro | Categoria: Esportivos conversíveis • Portaria nº 275/2024 |
| Combustível | Gasolina |
| Tanque de combustível | 44 litros |
| Alcance teórico (combinada) | Aproximadamente 510 km |
| Comprimento | 3.879 mm |
| Largura (sem espelhos) | 1.744 mm |
| Largura (com espelhos) | 1.970 mm |
| Altura | 1.431 mm |
| Entre-eixos | 2.495 mm |
| Distância livre do solo | 124 mm |
| Bitola dianteira / traseira | 1.499 mm / 1.499 mm |
| Peso em ordem de marcha | 1.500 kg |
| Capacidade de bagagem | 215 litros (capota fechada) / 160 litros (capota aberta) |
| Carga útil | 420 kg |
| Suspensão dianteira | McPherson |
| Suspensão traseira | Multibraço |
| Freios | Dianteiros: discos ventilados, pinça flutuante de pistão único • Traseiros: discos ventilados, pinça flutuante |
| Assistências eletrônicas | ABS, EBD, CBC, DSC, DTC, controle de frenagem em curva, assistente de partida em rampa |
| Rodas e pneus | Liga leve 17” JCW (7Jx17 LM) • Pneus 205/45 R17 88W XL (runflat) |
| Construção estrutural | Monobloco em aço de alta resistência com componentes estruturais em alumínio |
| Reforços específicos (Cabrio) | Travessas no assoalho e barras adicionais de rigidez |
| Capota | Lona tripla elétrica • Acionamento até 30 km/h • Abertura/fechamento em 18 s • Função “sunroof” parcial (40 cm) |
| Cores exclusivas (Cabrio) | Cinza Copper com capota Union Jack cinza opcional |
| Volante | JCW esportivo, raio inferior em tecido e borboletas para trocas manuais sequenciais |
| Bancos | Esportivos JCW com costuras vermelhas, ajuste elétrico, memória e massagem |
| Painel e multimídia | Tela OLED central de 9,4”, revestimento têxtil preto e vermelho |
| Som | Sistema premium Harman Kardon |
| Iluminação interna | Ambiente configurável (cores e modos) |
| Conectividade | Carregador por indução, Android Auto e Apple CarPlay |
| Modos de experiência (7) | Go-Kart, Green, Core, Balance, Vivid, Timeless e Personal |
| Modos dinâmicos ativos | Go-Kart (esportivo) e Green (eficiência) |
| Botão Boost | Ativa por 10 s respostas mais rápidas de acelerador, câmbio e direção, sem ganho de potência |
| Assistentes de condução | Driving Assistant Plus, controle de velocidade e distância, assistente de faixa, alerta de colisão com frenagem automática |
| Câmeras e sensores | 4 câmeras 360° e 12 sensores ultrassônicos |
| Bolsas infláveis | frontais e laterais |
| Proteção a pedestres | Sistema pirotécnico de elevação do capô |





