Os irmãos Elias e Joe Hountondji, conhecidos como Red Bull Driftbrothers, voltaram a elevar o padrão do drift. Desta vez, o palco foi inusitado: o interior da própria fábrica da BMW em Munique. Com um M2 profundamente modificado e transformado naquilo que chamam de “Ultimate Drift Machine”, Elias levou o carro para uma volta completa, em drift, pelos corredores da linha de produção da marca. Algo que realmente me chamou a atenção pela coragem do piloto e da BMW em deixá-lo fazer isso.
Elias não é novato em desafios. Já venceu campeonatos internacionais, acumulou títulos por equipe e coleciona feitos que misturam ousadia e precisão. Entre eles, o drift no Inferno Verde com um BMW E30 V8 de 7 litros, as disputas do Drift Masters European Championship com um M4 Competition de 1.040 cv e até uma apresentação de tirar o fôlego com um M5 dentro do BMW Welt (Mundo BMW), o centro de entrega e experiências da marca em Munique.
Mas, mesmo com todo esse histórico, o novo projeto foi algo completamente diferente. Drifting dentro de uma fábrica em funcionamento exige controle absoluto e uma sintonia fina entre homem e máquina. O novo M2 preparado pelos Driftbrothers entrega 1.100 cv e 1.250 m·kgf de torque, um verdadeiro monstro.
Perdi a conta de quantas vezes ouvi que o drift era uma subcultura. Em parte, foi mesmo. Nasceu nos anos 1970 no Japão, quando Kunimitsu Takahashi começou a explorar ângulos de derrapagem que encantavam o público e inspiraram jovens pilotos nos famosos touge, estradas sinuosas que cruzam montanhas no Japão (lugares como Hakone, Haruna e Akina). Pouco depois, Keiichi Tsuchiya, o Drift King, transformou o estilo em expressão, uma mistura de técnica, arte e adrenalina que se espalhou pelo mundo em fitas VHS e depois na internet.
De lá para cá, a modalidade evoluiu. O D1 Grand Prix no Japão estruturou as primeiras competições formais. A Formula DRIFT nos Estados Unidos e o Drift Masters European Championship consolidaram o esporte em arenas lotadas, com carros ultrapreparados, pneus desenvolvidos sob medida e pilotos profissionais. Em 2017, até a FIA criou a sua própria Intercontinental Drifting Cup, selando a entrada definitiva do drift no universo do automobilismo reconhecido.
Mas foi Ken Block quem realmente levou o drift, ou algo muito próximo dele, ao grande público. Suas séries Gymkhana, lançadas a partir de 2008, misturaram técnicas de rali, drift e precisão coreografada em vídeos filmados com qualidade cinematográfica. Cada manobra era um show visual. Cada curva, uma assinatura de estilo. Ele transformou o controle de derrapagem em espetáculo global, fazendo do drift uma linguagem de cultura pop.
Ainda assim, o drift nunca deixou de ser um palco de expressão pessoal. Manteve o DNA de rua, o estilo e a teatralidade que o tornaram popular. O que mudou foi a escala. Hoje há transmissões globais, patrocínios de grandes marcas e uma comunidade internacional de entusiastas que veem no drift o último reduto do controle no limite. No entanto, ainda acho difícil observar o drift como uma categoria real do automobilismo. Para mim, é muito mais show, apesar de realmente admirar seus pilotos e o que eles são capazes de fazer. Como Elias Hountondji na fábrica da BMW.
É por isso que a imagem do M2 atravessando os corredores da fábrica em Munique vai além da exibição técnica. O drift deixou de ser um submundo para se tornar um espetáculo profissional, com engenharia, investimento e estética próprios. E, nesse cenário, ver uma marca como a BMW colocar o seu M2 no centro da pista, e da linha de montagem, mostra que a cultura da derrapagem controlada gera grande interesse. A ponto de aparecer aqui no AE.
PM











