Essa é uma história lá do fundo dos bastidores da indústria automobilística. Bem lá do fundo mesmo. E pouco conhecida. E eu fui um coadjuvante dessa história. Que teve como figura principal o grande fotógrafo brasileiro, Sebastião Salgado (foto), mineiro de Aimorés que nos deixou em 23 de maio último, em Paris, aos 81 anos, após uma brilhante trajetória.
Participaram dela trabalhadores do segundo turno da fábrica da GM em São Caetano do Sul, SP. Eles seriam os modelos do setor, para seu projeto “Trabalhadores”, com fotos e preto & branco, executado entre 1986 e 1992, quando ele correu o mundo fotografando todo tipo de trabalhador. Ele conseguiu levar adiante este seu trabalho após vend?er, para o mundo inteiro, as fotos que fez do atentado ao presidente do EUA, Ronald Reagan, em 30 de março de 1981.
Ele “clicou” todas as formas de trabalho manual e industrial, incluído aquele executado na fábrica GM, provavelmente em 1986 (confesso que não lembro a data certa).
Tudo começou quando um dia, antes de ser famoso, mas já um dos melhores fotógrafos deste País, alguém me ligou dizendo que Sebastião Salgado gostaria de fotografar a ação dos trabalhadores na linha de produção da fábrica.
Acertado com o pessoal de RH, marcamos a data e eu tive a honra de acompanhar Sebastião Salgado pela linha de montagem. Nada ?foi combinado. Ele agia com naturalidade, pegando flagrantes reais do movimento dos operários — hoje “colaboradores”…
Tocando o aviso de fim do turno, ele me perguntou “e agora, para onde eles vão?”
— Para o vestiário, tomar banho e ir para casa.
— Então vamos, vou fotografá-los lá também!
Achei absolutamente natural. Ele fotografar a chegada, o trabalho e, por que não, a saída.
Mas, pelados não!
Entramos juntos no vestiário e os trabalhadores começaram a tirar seus macacões de serviço e o Sebastião “clicando” e me avisando que não iria fotografar a genitália de ninguém, mas as fotos mostrariam a quem as visse que era um vestiário da fábrica.
Mas a câmera apontada para eles causou um grande rebuliço. Reclamações e mesmo xingamentos foram ouvidos e, como num milagre, apareceu alguém se identificando como do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano, “proibindo” aquelas fotos que iriam ridicularizar os trabalhadores.
Sebastião parou de fotografar imediatamente. E saímos dali, sob vaias.
Pedi desculpas e ele, gentil e elegantemente, lamentou o episódio e garantiu que aquelas foto jamais seriam usadas no seu trabalho. E não foram. Cumpriu sua promessa e nada saiu, no seu livro, daquela sua ida à São Caetano do Sul.
Nem as fotos no interior da fábrica!
CL
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