Meu ganha-pão, como já disse em colunas anteriores, está relacionado à Comunicação Corporativa. Sou assessor de imprensa de algumas empresas do setor automobilístico.
Escrever essa coluna é apenas e tão somente um grande prazer. Tenho outros, como falar de futebol com meus filhos e torcer pelo Palmeiras. Mas, e carro, vou falar com quem? Por trabalhar em home-office, perdi aquele saudável hábito que existia no passado de “bater papo sobre carros no dia a dia”. Vou falar com quem? Minha mulher anda — e o que é pior, gosta — de suve. Você há de convir que é melhor eu tratar de outros assuntos com ela.
Vou falar de carro com quem? Ora, com você, ué. E através dessa coluna. Sei que causo polêmica com algumas opiniões fortes e impopulares, mas o espírito é sempre o de provocar discussões saudáveis e respeitosas com o objetivo de engrandecer ideias.
Acho que vou causar mais uma treta hoje. Releia o título. Concorda comigo? Para que carros tão rápidos nas acelerações? Para quê?
Perambulava pela internet em busca de inspiração para escrever a coluna dessa semana, a primeira do ano. Aliás, Feliz 2026, amigo. Eis que esbarro numa matéria do site americano Motor Trend que dizia que o novo Corvette ZR1X marcou 1,68 segundo num teste de 0 a 60 milhas por hora (96,5 km/h). Vamos usar a licença poética da equivalência e adotar esse tempo como se fosse o nosso fatídico 0 a 100 km/h. Só pra facilitar as comparações, ok?
Cara, isso é muito rápido. E, imagino, até desnecessário. O carro que eu acelerei até hoje mais rápido na arrancada foi o Porsche Taycan Turbo GT, que alcança os 100 km/h em 2,2 segundos. Baixar meio segundo desse tempo…?!? Para quê?, repito a pergunta?
Eu sempre brincava com um saudoso amigo, o Josias Silveira, que partiu há alguns anos, se ele ainda tinha coragem de acelerar motos superesportivas. O Josias foi um dos primeiros jornalistas especializados em motos no Brasil, fundador da revista Duas Rodas e Oficina Mecânica. Exímio motociclista e jornalista.
Ele respondia: “Coragem, eu tenho. Só não tenho veia. Com mais de 70, a vascularização não é mais a mesma. Quando eu acelero essas motos, dá tonteira”.
Ora, eu não tenho 70, mas só 56. Confesso, porém, que o 0 a 100 km/h no Taycan Turbo GT me deu vertigem.
Quando eu fazia teste de carro, lá em mil, novecentos e preto e branco, os carros rápidos eram aqueles que cumpriam 0 a 100 km/h em 6 segundos (ou menos). Lembro de ter acelerado alguns, como o Mazda RX7, o Nissan 300 ZX Turbo, o Porsche 911 Carrera 4, o BMW M5, o Mercedes-Benz SL 600, o Ford Escort Cosworth. Esses carros estão nas páginas de Quatro Rodas dos anos 90. Eu já achava o máximo quando baixava de 6 s.
Lembro da sensação estonteante de ter subido na Kawasaki Ninja ZX11 de um amigo, em meados dos anos 90, e ensaiado uma aceleração. Como ela não tinha controle de tração, você tinha que sair patinando embreagem e deitar no tanque para fazer peso na frente da moto… Caso contrário, ela empinava e você virava para trás…(rs). E o tempo era ao redor de 3 segundos.
Olha o absurdo que estamos chegando hoje. Qualquer carro elétrico com um pouquinho mais de vigor baixa de 4 segundos. E os mais rápidos, caso do Taycan Turbo GT, ficam na casa de 2 s.
A própria reportagem da Motor Trend mostra, orgulhosa, esse clube de carros com “menos de 2 segundos”, ressaltando que o Corvette custa módicos US$ 210 mil, enquanto seus rivais nesse seleto time são muito mais caros: o Rimac Nevera R custa US$ 2,5 milhões e o Bugatti Tourbillon sai por US$ 4,6 milhões. O único concorrente nesse rol de modelos de arrancada a fazer frente ao ZR1X seria o Lucid Air Sapphire, que gasta 1,s89 s e custa “acessíveis” (contém ironia) US$ 249 mil.
Não deixa de ser um belíssimo mérito do ZR1X, embora eu fique pensando se há alguém que adquira um carro só baseado no tempo de aceleração. Mas, vá lá. Já ouvi uma definição de um jornalista europeu que dizia o seguinte: “qualquer coisa mais rápida que um Porsche 911 Turbo S é… muito rápido”. E esse Corvette é.
De acordo com a Motor Trend, o teste foi feito “dentro dos conformes”, isto é, com pneus Michelin de rua, configuração aerodinâmica padrão, gasolina Premium de posto de 93 octanas — americanas, correponde a 98 RON aqui e no resto do mundo — e calibração homologada para uso em vias públicas. O novo ZR1X simplesmente atingiu 96,5 km/h em mero 1,68 segundo. A única mudança estratégica foi a chamada “superfície preparada”, isso é, um piso possivelmente com muito mais grip na arrancada.
O tempo que ele gastou no quarto de milha (402 metros) também é de cair o queixo: 8,675 segundos, passando a 256 km/h. Para efeito de comparação: um BMW M3 Competition faz essa prova em 11,4 segundos e finaliza o trecho a 201 km/h. Seria um massacre se o sedã alemão alinhasse com a Corvette.
A Chevrolet ainda fez questão de frisar que o ZR1X precisou de menos de 30 metros para chegar a 96,5 km/h e gerou uma força de aceleração máxima de 1,75 g — os carros mais rápidos que eu testava davam 1,1 ou 1,2 g de aceleração.
O ZR1X é movido por um conjunto híbrido que, na prática, une os componentes elétricos do Corvette E-Ray com o sistema a gasolina do ZR1. Os engenheiros aprimoraram tudo para este ícone, e o motor elétrico dianteiro que garante a tração integral se junta a um V-8 biturbo central-traseiro de 5,5 litros de para uma potência total de 1.250 cv. Com asfalto preparado ou não, esse carro baixa de 2 segundos, certamente. Insisto na pergunta: para quê?
Talvez para resgatar o prestígio de uma marca centenária que foi líder mundial de vendas durante décadas e sucumbiu à crise nos últimos 20 anos? Se for essa a resposta, esrá bem, concordo. Parabéns à GM e seja bem-vindo, novo Corvette.
EP
A coluna “Acelerando ideias” é de exciusiva responsabilidade do seu autor.




