A Ford deu um passo decisivo no seu retorno ao mais alto nível do automobilismo mundial ao apresentar, em Detroit, o programa global de competições para a temporada 2026. O evento, realizado na histórica Michigan Central Station — antigo símbolo de decadência urbana transformado pela própria marca em polo de inovação — marcou a primeira exibição pública da pintura do carro da Oracle Red Bull Racing para a Fórmula 1, parceria que recoloca a Ford oficialmente na categoria após mais de duas décadas ausente
Com a presença do executivo-chege Jim Farley, do presidente do conselho de administração Bill Ford e de executivos ligados ao esporte a motor, a apresentação deixou claro que o retorno à F-1 vai além do marketing. Os carros que serão pilotados por Max Verstappen e Isack Hadjar simbolizam, segundo a própria marca, a retomada de uma história interrompida em 2004, quando a Ford deixou oficialmente a categoria.

A escolha de Detroit e da Michigan Central Station não foi casual. O local, abandonado por décadas e revitalizado pela empresa, serviu como pano de fundo para reforçar a narrativa de reconstrução, legado e ambição tecnológica — elementos centrais do discurso da Ford para seu futuro no automobilismo.
Durante o evento, Jim Farley destacou a importância estratégica das corridas dentro da empresa. Para o executivo, o esporte a motor segue sendo um laboratório essencial para o desenvolvimento de produtos de alto desempenho, como o Mustang GTD e a família Raptor, além de funcionar como elemento de engajamento interno e fortalecimento da marca globalmente.
Mesmo fora da Fórmula 1 desde 2004, a Ford mantém um peso histórico relevante na categoria: são 174 vitórias, o que ainda a coloca como a terceira fabricante de motores mais vitoriosa da história da F-1. Um retrospecto que ajuda a explicar por que o retorno foi tratado internamente como “negócios inacabados”.

Vitórias recentes e ambição renovada
Somente em 2025, a Ford acumulou 91 vitórias em competições ao redor do mundo, espalhadas por 38 países e seis continentes, utilizando 20 veículos diferentes. O protagonismo recente veio principalmente dos programas com o Mustang GT3, GT4 e Dark Horse R, presentes em categorias como Supercars australiano, Fórmula Drift e provas de arrancada, além do recorde absoluto do Super Mustang Mach-E em Pikes Peak.
Will Ford, gerente-geral da Ford Racing, reforçou o simbolismo do momento ao afirmar que a volta à Fórmula 1 representa mais do que exposição global: trata-se de recuperar um espaço histórico da família Ford no automobilismo internacional.
Le Mans e o retorno aos Hypercars
Outro ponto alto da apresentação foi a confirmação do retorno da Ford à categoria máxima de Le Mans e do FIA-WEC, os Hypercars, a partir de 2027. A marca revelou seu trio de pilotos de fábrica para o projeto: Logan Sargeant, Sebastian Priaulx e Mike “Rocky” Rockenfeller.

O novo protótipo utilizará um motor Coyote V-8 5,4-l de aspiração atmostérica que será desenvolvido integralmente dentro da própria Ford — uma decisão que conecta diretamente o futuro do programa às vitórias históricas da marca em 24 Horas de Le Mans, especialmente o icônico triunfo de 1966. Até lá, a Ford segue competindo na classe LM-GT3 e já confirmou a atualização do Mustang GT3 para o Mundial de Resistência (FIA-WEC), com melhorias em aerodinâmica, suspensão e sistema de freios.

Off-road como pilar estratégico
O programa 2026 da Ford Racing também reforça a importância do off-road, área em que a marca mantém forte identidade. No Rali Dakar, a Raptor T1+ foi uma das protagonistas com pilotos como Carlos Sainz, Nani Roma, Mitch Guthrie e Mattias Ekström, disputando a vitória até o último dia da competição.
Além disso, a empresa apresentou novos nomes ligados ao universo fora-de-estrada. A piloto Bailey Campbell passa a integrar o time com o Bronco RTR em provas extremas como a King of Hammers, enquanto o austraiano Daniel Ricciardo, ex-piloto da Fórmula 1, foi anunciado como embaixador global off-road da Ford Racing.
Com presença ampliada no asfalto e na terra, a Ford deixa claro que seu retorno ao topo do automobilismo não se limita à Fórmula 1. A estratégia passa por usar as pistas — e os desertos — como vitrine tecnológica, reforçando a ligação entre competição, produto e identidade de marca, num momento em que a indústria automobilística vive profundas transformações.
GB





