Há algum tempo penso em compartilhar técnicas infalíveis para “engarrafar cidades brasileiras” com eficiência suíça — só que ao contrário. Tudo baseado no princípio sagrado da política municipal: “se o eleitor pede lombada, lombada haverá”. Fiscalização? Educação? Engenharia de tráfego? Coisas neoliberais demais.
Antes, um lembrete básico que todo prefeito ignora com orgulho:
“Vazão = velocidade x área. “
Mas quem liga para física quando dá para inaugurar concreto?
- Lombadas (a religião oficial)
Coloque “sempre nas vias principais”, de preferência logo após cruzamentos. Assim:
Quem vem da preferencial freia sem necessidade
Quem vem do “PARE” não sabe se para, arranca ou reza
Todos perdem tempo, combustível e sanidade
P.S.: Os testes em laboratórios de emissões veiculares demonstram que o maior consumo de combustível e consequente emissão de poluentes ocorre no anda e para do trânsito.
Fiscalizar velocidade dá trabalho. Lombada é voto sólido.
- Faixas de pedestres (o caos democrático)
Pinte faixas:
Em todo cruzamento
Em toda esquina
Em locais sem visibilidade nenhuma
Semáforo verde? Problema do motorista
Conversão à direita? Surpresa! Um pedestre brota do nada
Faixa no meio da avenida com canteiro central? Excelente. Pedestre não usava mesmo — agora vai usar
- Placas “PARE” estratégicas
Sempre dê preferência à rua:
Mais estreita
Mais lenta
Com menos fluxo
Estudo de tráfego é elitista. Intuição política é ciência exata.
- Estacionamento livre, leve e solto
Avenida com duas faixas? Transforme em “uma”.
Rua estreita? Estacione dos “dois lados”.
O importante é garantir que ambulância e ônibus nunca passem. Comércio feliz, cidade parada.
- Retornos infinitos
Permita retornos:
Em todas as ilhas
Em toda avenida movimentada
Sem recuo, sem sinalização e sem piedade
Nada cria mais engarrafamento que um carro atravessado tentando “só virar rapidinho”.
- Faixas que somem magicamente
Avenida de três faixas? Faça virar duas. Do nada!
Sem placa, sem aviso, sem vergonha
O motorista aprende na marra. Ou não aprende
- Mate as rotatórias (crime urbanístico qualificado)
Rotatória flui? Então está errado. Troque por:
Semáforos. De três tempos; Intermináveis! Que param tudo mesmo quando não passa ninguém, Trânsito parado transmite sensação de “controle”.
Conclusão:
O trânsito não precisa fluir. Precisa “parecer humano”, mesmo que seja burro. Lombada inaugurada, fiscalização não adotada. Lombada aparece na foto. Multa dá chilique. Engarrafamento é só o preço do populismo viário.
Se a cidade travar, melhor ainda: o eleitor acha que cresceu demais.
E os prefeitos? Seguem firmes, cortando fita… em cima da lombada.
Obs: O autor desse texto é Eduardo Fangel, formado pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo e foi, durante muitos anos, responsável pelo “Traffic safety” no Campo de Provas da Cruz Alta, da General Motors, em Indaiatuba, SP.
CL
A coluna “Histórias & Estórias” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.






