Durante muito tempo o GP do Japão (foto de abertura) marcava a fase final da temporada da F-1, mas em 2024 o evento foi transferido para o início do calendário: foi a quarta etapa em 2024 e a terceira no ano passado. Com o cancelamento dos GPs do Bahrein (12/4) e Arábia Saudita (19/4), a corrida em Suzuka neste domingo marca o início de uma pausa de cinco semanas no calendário. O reinício será em Miami, EUA, dia 3 de maio. Tamanho intervalo numa agenda apertada e que chega a ter GPs em três fins de semana (Austin, 25/10; Cidade do México, 1/11 e São Paulo 8/11) dá fôlego tão inesperado quanto necessário às equipes que já vivem crises. Aston Martin, Cadillac e Williams são as principais beneficiadas da situação criada com a deflagração dos ataques do EUA e Israel ao Irã.

Independente de causas e consequências, o GP do Japão segue sendo uma das provas mais coloridas e festivas da temporada. Os fãs locais se esmeram na confecção de adornos e fantasias para homenagear seus ídolos e não faltam os que se vestem a caráter a ponto de desfilar vestindo macacões originais dos pilotos favoritos. Ayrton Senna, que era tratado como “The Warrior” (Guerreiro) pela imprensa especializada do país, é uma expressão maior dessa febre que inclui a venda maciça dos bonés azuis com o logotipo do desaparecido Banco Nacional.

Muitas equipes não perdem a oportunidade de surfar nessa onda e preparam pinturas especiais para Suzuka. Este ano a Haas e a Racing Bulls já revelaram seus projetos gráficos para essa festa. A primeira vai homenagear o filme “Godzilla” (localmente conhecido como “Gojira), lançado em 1954 e consagrado pelos efeitos visuais produzidos por Ishiro Honda. A produção remete às consequências da era nuclear através do monstro mutilado por essa forma de energia. Ironicamente, um dos principais parceiros da Haas é a Toyota, concorrente da Honda. A segunda explora uma pintura marcada por efeitos que sugerem velocidade e dinamismo nas cores nacionais do Japão, o branco e o vermelho.

Se as duas podem se dar a esse tipo de luxo, Aston Martin, Cadillac e Williams estão às voltas com problemas variados. A primeira delas vive uma crise interna grande o suficiente para questionar se a fartura de recursos econômicos é a solução para todos os males. Desde que adquiriu o controle da equipe Force India em agosto de 2018, o bilionário canadense Lawrence Stroll já investiu centenas de milhões de dólares na equipe agora conhecida como Aston Martin Racing. Apesar de contratar nomes de peso onde o projetista Adrian Newey é a cereja desse bolo, e construir uma das mais avançadas estruturas tecnológicas da F-1, o carro criado para 2026 não poderia ser pior.

A Honda é parte importante desse fiasco: o motor concebido para o novo regulamento da categoria vibra excessivamente, a ponto de anestesiar os dedos das mãos de Fernando Alonso e Lance Stroll. As limitações impostas ao desenvolvimento do chassi AMR26, porém, não anulam falhas no seu projeto. Tudo indica que a falha maior da Honda foi não utilizar plenamente os seus engenheiros que já tinham experiência nos motores que garantiram títulos e vitórias à Red Bull nos últimos anos.

A Cadillac vive situação semelhante: o fato de ser um projeto tipicamente americano, fato notado até mesmo o padrão de comunicação do time, não contribui. A F-1 tem valores europeus e para contornar isso o time se vale de muitos nomes ingless, caso de Graeme Lowdon, o diretor-geral da operação que funciona a partir de quatro bases, três delas nos estados de Indiana, Carolina do Norte e Michigan. e outra em Silverstone, na Inglaterra. Inicialmente liderado por Michael Andretti, a proposta foi rejeitada pela direção da F-1 e só aprovada em meados de 2024, quando o filho de Mario Andretti foi desligado e substituído por Lowdon.
O renascimento da Williams, outrora uma das grandes forças da categoria, segue vivendo um calvário de obstáculos que surgiram após muitos anos de pouco investimento tecnológico e da falta de apoiadores. Pelo segundo ano consecutivo o carro fabricado em Grove, no condado de Oxford, mostra-se pesado demais em relação aos monopostos dos rivais. Este ano isso é agravado pelo fato de a Mercedes, provedora de motores da equipe desde 2014, aparentemente ter reservado para si a receita de melhor desempenho para esse item.
O GP do Japão também será o primeiro sem a presença de Jonathan Wheatley, contratado pela Audi a peso de ouro para deixar a Red Bull em meio à crise que levou à demissão de Christian Horner. Apesar disso e do potencial do projeto da Audi na F-1, na semana passada Wheatley e o time alemão anunciaram que o inglês deixava a operação “com efeito imediato por questões pessoais”. O eufemismo é entendido por muitos como um convite irrecusável para se juntar à Aston Martin e se unir a Adrian Newey, com quem trabalhou muito tempo na Red Bull. Mattia Binotto, diretor do projeto Audi F-1, acumulará o cargo até a definição de um novo chefe de equipe.
WG
A coluna “Conversa de pista” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
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