Obs: Este artigo é uma continuação.
O primeiro artigo pode ser lido aqui.
O segundo artigo pode ser lido aqui.
Em 1920, o autor tcheco Karel Capek escreveu uma peça de teatro chamada “R.U.R.” (“Rossum’s Universal Robots”), encenada no ano seguinte.
Esta peça conta uma história que hoje seria considerada um clichê da ficção científica. Uma sociedade desenvolve seres artificiais para o trabalho pesado, que mais para frente ganham consciência, se rebelam e destroem seus criadores.
O mais importante sobre esta peça é a palavra “robot” em seu título e texto é a origem do termo “robô” que usamos atualmente.
O termo vem da palavra tcheca “robota”, que significa “trabalho forçado” ou “servidão”. Portanto, em sua origem, “robô” também quer dizer algo similar a “escravo”.
A associação que automação e robôs estão de certa forma ligados à ideia de trabalho escravo, então fica mais fácil associar também o principal elemento que impulsiona o desenvolvimento dessas tecnologias bem como sua rápida e disseminada aplicação.
No caso específico da I.A. neste artigo, a importância está nela não ser apenas uma nova automação. Ela altera a escala, a velocidade e o custo da substituição do trabalho humano. É isso que estudaremos aqui.
I – A Teoria dos Jogos – O Dilema dos Comuns
Sim, o principal motivo para que diferentes tecnologias de automação sejam desenvolvidas, projetadas e implantadas é o fator econômico. Não é bonito de se dizer, mas é um fato real. O problema com este argumento é que ele recai sobre um paradoxo.
Uma empresa não é uma entidade de caridade. Ela precisa não apenas lucrar, mas maximizar o lucro, e uma das formas disso é reduzindo, agressivamente se possível, os custos totais de operação da empresa.
Do ponto de vista do empresário, quando ele implanta e operacionaliza uma automação, às custas da demissão de alguns funcionários, ele não está cometendo nenhum erro ou abominação. Um funcionário não custa apenas seu salário. Há encargos sociais, impostos, benefícios… Um funcionário pode não estar bem psicologicamente e isso afeta sua produtividade, uma funcionária pode dar a luz e se retirar para usufruir de licença-maternidade, existem horários de refeições e descanso, etc.. Tudo gerando custos para a empresa.
Quando o empresário substitui um funcionário por uma automação, não só ele corta custos diretos com a mão de obra, como ele obtém uma força de trabalho que não se cansa, trabalha 24 horas por dia e 7 dias por semana, faz o trabalho sempre com a mesma qualidade, etc.. A automação parece só gerar vantagens para o empresário.
O paradoxo desta atitude é que, conforme previsto pelo Dilema dos Comuns, esta vantagem não é só óbvia para ele, mas para todos os empresários.
E quando todos os empresários automatizarem totalmente seus negócios, buscando vantagens individuais, ninguém terá dinheiro para comprar os produtos mais baratos que a automação produziu.
Isso causa uma falha sistêmica de toda economia da qual as empresas também dependem.
II – Mas será que as I.A.s podem automatizar 100% das funções de trabalho?
Esta resposta é dada por um trabalho do Fundo Monetário Internacional, que pode ser lido aqui.
Segundo este estudo, 40% de todas as atividades laborais sofrerão algum tipo de impacto com a adoção das modernas técnicas de I.A., porém de formas diferentes, conforme a natureza do trabalho. As novas técnicas de I.A., diferente das técnicas antigas, rígidas ou baseadas em lógica booleana, são compatíveis com funções altamente cognitivas, e são justamente estas atividades que serão mais impactadas.
O texto mostra duas métricas importantes para determinar quanto e como é o risco que cada atividade pode sofrer com a introdução da I.A. no seu ambiente de trabalho. As métricas são a exposição à I.A. e a complementariedade.
Para entendermos o método proposto, vamos usar três exemplos: um faxineiro, um operador de telemarketing e um juiz.
O faxineiro tem baixa exposição à I.A.. Ele possui grande variabilidade de funções como tirar o pó dos móveis, passar pano úmido no piso, etc.. Este é um tipo de atividade pouco cognitiva para que uma I.A. consiga se adaptar com vantagens. Ele sofrerá pouco, talvez nenhum, impacto direto do uso da I.A..
Já o operador de telemarketing e o juiz possuem trabalhos altamente cognitivos, e estes sim possuem alta exposição à I.A.. É então que a segunda métrica, a da complementariedade, que dita como o trabalho de cada um será impactado.
Esta métrica é obtida através da mensuração de uma série de condições que cada atividade exige:
- Condições físicas (ex.: presença física): o operador atende remotamente, mas o juiz necessita estar na presença do réu para perceber, cognitivamente, se ele diz ou não a verdade;
- Comunicação cara-a-cara: É uma especialização da condição anterior. O operador pode fazer seu trabalho por telefone, enquanto o juiz precisa da percepção cognitiva da fisionomia do réu durante seu relato;
- Responsabilidade: A responsabilidade sobre os resultados do seu trabalho são baixos no caso do operador, mas elevada no caso do juiz;
- Criticalidade: O trabalho do operador não é crítico, o do juiz é;
- Variação da rotina: O operador faz múltiplas ligações para pessoas diferentes, mas sempre lidando com o mesmo tema e usando o mesmo discurso decorado. Para o juiz, cada caso é um caso;
- Nível de habilidades: O operador não precisa de altos conhecimentos para trabalhar, o contrário do juiz, que precisa de profundos conhecimentos da área de direito.
O resultado deste método é o gráfico a seguir. Ele divide as atividades em 4 áreas. As duas áreas à esquerda possuem baixa exposição e não deverão ser impactadas. É onde está posicionado o faxineiro.

Do lado direito, na parte inferior, há baixa complementariedade, onde se coloca o operador de telemarketing, enquanto o juiz encontra-se na parte superior.
O que o gráfico diz sobre o operador de telemarketing é que há baixa complementariedade da atividade dele com a I.A.. Em resumo, a I.A. pode tomar o emprego dele.
Já o juiz possui alta complementariedade, ou seja, para um bom trabalho, a I.A. se complementa com a atividade do juiz. Ele não será substituído pela I.A., mas provavelmente será bastante beneficiado por ela, aumentando sua produtividade e podendo até alcançar maiores salários.
Aqui cabe um comentário que não está no texto. O texto induz uma percepção de favorecimento no caso do juiz ao invés de um risco. Ocorre que, em empresas que possuem cargos com alta exposição e complementariedade, alguns podem se beneficiar da I.A., se tornando mais produtivos e até conseguindo maiores salários, porém, se o volume de trabalho continuar o mesmo, a tendência é que os mais produtivos fiquem e sejam sobrecarregados com todo o trabalho, enquanto os excedentes perderão seus empregos.
Então, é preciso tomar cuidado com a conclusão do texto de que a relação parece ser benéfica. Na verdade, há situações vantajosas e desvantajosas associadas. É preciso cuidado com esta situação.
Uma boa referência para este texto pode ser vista neste vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=P8Dv2YS4CQM
III – Seguindo adiante
Há ainda muitas outras análises, baseadas em fatos já observados antes nos processos de automatização e substituição de mão de obra.
Uma destas análises estuda a transformação organizacional das empresas.
Para entendermos este tipo de análise e para que conclusões ele nos conduz, vamos imaginar uma empresa com a seguinte organização simplificada, descrita de baixo para cima: empregados, supervisores, chefes, gerentes, diretores e presidente.
Esta empresa apresenta uma estrutura organizacional em formato de pirâmide, com numerosos empregados na base, com cada vez menos pessoas nos cargos cada vez mais superiores, até chegar no presidente da empresa.

Podemos dizer que empregados e supervisores pertencem ao nível operacional da empresa, chefes e gerentes pertencem ao nível tático, enquanto a diretoria e o presidente pertencem ao nível estratégico.
Nos últimos 30 anos houve dois grandes movimentos de entrada de automação na estrutura das empresas, e que ocorreram praticamente em paralelo, resultado a evolução explosiva das tecnologias digitais. O primeiro movimento foi o uso cada vez mais intenso do computador e da internet em quase todas as atividades da empresa. O segundo movimento foi a adoção de máquinas automáticas altamente especializadas, como os tornos CNC.
O primeiro movimento afetou todos os níveis hierárquicos da empresa. Exemplo disso foram os softwares de ERP (“Enterprise Resource Planning”). Antes as empresas possuíam batalhões de funcionários para lidar com a burocracia da empresa. Um calculava os valores de uma nota fiscal, enquanto outro a preenchia na máquina de escrever, outro preenchia uma ficha em papel com informações do cliente, outro lidava com as contas a receber, outro lidava com a baixa do estoque, e assim por diante. Softwares de ERP facilitaram muito essa rotina, causando a alta produtividade de alguns funcionários, enquanto outros, considerados desnecessários, eram sumariamente demitidos.
É importante notar que a introdução dos computadores nas empresas causou maior impacto nos empregos das camadas mais baixas da pirâmide.
O segundo movimento é mais complexo de analisar e o que oferece mais conclusões sobre os processos de automatização.
A automação por equipamentos dedicados ocorreu fundamentalmente no nível operacional da empresa. Máquinas CNC substituíram torneiros mecânicos. A maioria foi mandada embora e somente alguns subiram para o nível de supervisor, mesmo assim em casos bem particulares, onde os cargos foram arranjados para não demitir especificamente alguns funcionários.
Aqui já é possível mostrar o impacto do terceiro movimento, que será a adoção da I.A. em larga escala.
Tanto a adoção dos computadores e internet seguiam uma lógica booleana. Foi um grande avanço, mas ela estava restrita a aplicações de ambiente controlado.
Já a automação por equipamentos dedicados entrou pelos níveis mais baixos da empresa.
Ao longo de 30 anos, as pessoas se condicionaram a acreditar que a tecnologia de automação sempre entra por baixo na pirâmide e ameaça empregos nestas camadas mais baixas.
Hoje, a maioria de chefes e gerentes, da camada tática da empresa se sentem seguros quando se fala da adoção da I.A.. O que eles menos esperam é que justamente os cargos deles que serão mais diretamente impactados e não estão se preparando para esta transição. Quando a I.A. for adotada na empresa, o impacto sobre chefes e gerentes será mais severa por causa disso.
Antes as máquinas CNC eram grandes, pesadas e caras substituindo mão de obra barata. Agora as I.A.s ameaçam trabalhadores que usam simples computadores no seu dia a dia. As I.A.s ameaçam substituir trabalhadores mais qualificados, que custam mais para as empresas, por uma solução relativamente barata e mais simples de implantar. Esta caracaterística tende a aumentar significativamente a velocidade de adoção da I.A. em relação a outros tipos de automação.
Muitas pessoas podem fazer uma interpretação errada deste fenômeno e acabar se prejudicando profissionalmente.
Outro problema que podemos perceber é que existe a tradição da promessa de promoção dentro das empresas. O funcionário entra por baixo e almeja subir na estrutura – e ganhar mais – conforme se dedica à empresa ao longo dos anos. Se a I.A. atacar os cargos intermediários, demitindo muitos e gerando alta produtividade dos que ficarem, em algum instante funcionários das camadas mais baixas perceberão que, na prática, suas chances de promoção e aumento salarial estarão liquidadas pela I.A., e isso pode causar frustração, com impacto na fidelidade e produtividade do funcionário.
Veja que este é um argumento em realimentação positiva. Se as pessoas entram por baixo para subirem, mas tem suas expectativas frustradas, elas não sobem estrutural e culturalmente. Se elas não sobem, em algum instante as empresas precisarão de mais mão de obra qualificada naqueles cargos mais elevados e não a terão. O jeito é investir ainda mais em I.A.s para conseguir essa fonte de trabalho, reiniciando o processo.
IV – O modelo da fábrica de parafusos
Há certas características dos processos de automação, conhecidos de décadas, que quase certamente se repetirão com a introdução em larga escala da I.A. nas empresas. Para entendermos estas características, vamos tomar um modelo hipotético, mas bastante realista.
Imagine uma empresa que fabrica parafusos. Para isso ela possuía 20 torneiros com muitos anos de experiência, mas, de repente, a empresa decidiu substituí-los por 2 tornos CNC, e para fazê-los funcionar, contrataram um operador e um programador.

A história parece ser bem simples, mas esconde muitos detalhes sutis.
O primeiro detalhe é que uma única automação possui a capacidade de substituir muitos trabalhadores humanos. O impacto nestes empregos é direto.
O segundo detalhe é que essa é uma automação facilmente escalável e de resultados praticamente imediatos.
Quando a empresa usava tornos convencionais, se ela precisasse aumentar sua produção em 50%, ela precisaria contratar de uma única vez 10 torneiros mecânicos. Mas torneiros mecânicos levam anos para atingirem uma boa experiência, o que deixa a empresa em dificuldades de contratação. Se ela exige a experiência, pode ter dificuldades em contratar, e se aceita torneiros sem experiência, pode levar anos para que eles atinjam a maturidade profissional desejada.
Mas com tornos CNC, basta comprar mais uma unidade, instalar e sair produzindo com a mesma qualidade e produtividade das máquinas já instaladas.
O terceiro detalhe é sobre a capacidade dos torneiros para se adequarem à nova realidade. Torneiros costumam ter um conhecimento cognitivo de muitos detalhes e truques de sua profissão, e desta forma não sabem exatamente como formalizar por escrito como determinadas tarefas são feitas. Isso cria uma enorme dificuldade para que eles aprendam a programar o torno CNC. Além disso, pessoas mais idosas, ainda mais quando exercem a mesma atividade por anos, podem ter severas dificuldades em se adaptar, e, portanto, de conseguir recolocação.

A dificuldade em se recolocar pode forçá-los a continuar trabalhando em atividades inferiores em posição e remuneração, como pipoqueiro ou motorista de aplicativo, o que pode afetar seu orgulho próprio.
Outra situação é que, neste caso, 20 torneiros experientes perderam seus empregos de uma vez e estarão disponíveis para o mercado imediatamente. Quando aparecer uma única vaga, provavelmente alguns destes tentarão conseguir essa vaga e se verão competindo contra colegas de trabalho por muitos anos. Isso pode ser devastador para eles.
Em certo sentido, estas pessoas se sentirão como se fossem perfeitamente descartáveis, obsoletos e que não servem para mais nada, ao invés de serem respeitados por sua atividade de muitos anos que lhes dava orgulho e um motivo de viver. É se esperar que muitos deles sofram consequentes complicações até em sua saúde física e mental.
Caso interessante é a contratação, neste caso, do programador CNC.
Ele tem o trabalho de criar os programas que fazem os tornos CNC realizarem, passo a passo, a fabricação de cada modelo de parafuso. Ele faz cada programa uma única vez e as máquinas fabricam milhões de parafusos, exatamente iguais.
Mas uma vez que ele fez os programas, o que justifica que ele continue trabalhando na empresa?
Muitos programadores de CNC sentiram isso na pele. Num primeiro instante houve uma grande procura por este tipo de profissional e muitos estudaram e se formaram em cursos de programação CNC, para, num instante posterior, estarem novamente desempregados e com baixa procura desse tipo de profissional.

Então, anos depois, a empresa decide mudar sua linha de produtos e precisa novamente de um programador CNC. Mas se quase nenhum programador CNC continua na profissão, onde conseguir alguém que faça os programas?
A resposta é que muitas empresas enfrentaram tanto essa dificuldade que gerou uma pressão para uma solução alternativa. No lugar de programadores CNC, empresas do ramo de software desenvolveram extensões de programas de CAD (desenho auxiliado por computador) que faziam a programação CNC automaticamente.
Esta questão de haver pressões no mercado de trabalho por profissionais extremamente raros e que deixam vagas vitais para as empresas em aberto é um poderoso potencializador para investimentos para que mais automação faça o que não há disponibilidade em termos humanos diretamente.
O perigo desta situação é que algumas pessoas podem ser atraídas para essa atividade (muitas vindas de demissões causadas pela I.A.) com a promessa de altos salários e função atraente, e quando conseguirem se formar nesses cursos, haver uma I.A. que faça o mesmo, mas mais e melhor do que elas.
V – O ciclo paradoxal das automações anunciadas
Nos anos 1980 havia a promessa que a então informatização do trabalho iria beneficiar a todos, incluindo a afirmação que as pessoas trabalhariam meio período por causa da maior produtividade trazida pelos computadores.
O quadro atual mostra exatamente o contrário.
As pessoas deixaram de realizar trabalhos mais braçais, mas continuam trabalhando em turnos completos, e muitos estão adoecendo por sobrecarga de informações que precisam processar no cérebro todos os dias para acompanharem o que o computador processa.
Isso provavelmente irá piorar com a I.A..
Na atualidade, grandes empresários como Bill Gates e Elon Musk têm afirmado que a I.A. causará desemprego no futuro e que será necessário criar um imposto sobre a automação para garantir uma renda mínima para as famílias, e isso pode causar uma falha sistêmica, como previmos inicialmente.
Então voltamos ao velho problema das promessas de um mundo idílico, como nos anos 1980.
Quem será o empresário que defenderá pagar imposto sobre a automação para que “vagabundos” vivam bem e confortavelmente sem trabalhar? Afinal, eles investiram na automação e na I.A. justamente para cortar custos e agora estão propondo um novo imposto que anulará a vantagem econômica da automação.
Há vários sociólogos, economistas e outros especialistas especulando, e nenhum acredita que o futuro seja esse, mas que isso poderá causar um desastre ao sistema econômico. Alguns falam até mesmo num possível retorno à versão moderna do feudalismo, o chamado tecno-feudalismo, com os senhores feudais sendo as “big techs”, detentoras das tecnologias de I.A.s. É um quadro extremo e alarmista, mas a experiência passada também mostra que a natureza humana nem sempre corre no sentido do bem comum.
Há ainda outros quadros alarmistas.
Há pouco tempo, haviam notícias nos jornais dizendo que “segundo especialistas”, até 2030 ou mais tardar em 2035, 70% da mão de obra no mundo estaria obsoleta pela I.A. É uma afirmação puramente alarmista, o que já foi contradito pelo texto do Fundo Monetário Internacional.
Porém, mesmo longe de virar realidade, este tipo de notícia gera expectativas tanto em empresários, ansiosos por automações que reduzam seus custos de fabricação, tanto quanto empregados, que, com medo de perderem seus empregos, podem se subordinar a piores condições de trabalho, esforços além das suas capacidades físicas para manter níveis irreais de produtividade, além de salários mais baixos na esperança que o empresário não adote este tipo de tecnologia, temor este amplificado por constantes notícias alarmistas como a citada.
Isto mostra que tecnologias como a I.A. nem precisam ser reais para causar grandes transformações nas relações de trabalho.
Este tipo de notícia causa impactos profundos na sociedade e existe responsabilidade no ato de divulgá-la, quer ela seja otimista-ufanista com o intuito de facilitar a aceitação popular de uma nova tecnologia, quer seja como pessimista-alarmista para gerar controvérsias.
VI – O Taylorismo/Fordismo versus a Automação/I.A.
Era antiga a relação conflituosa entre capital e trabalho. Houve inclusive movimentos como os dos ludistas, que se revoltavam e destruíam as próprias máquinas que lhes oferecia sustento, ou trabalhadores franceses, que jogavam seus tamancos de madeira no meio dos mecanismos das máquinas para que quebrassem, ou movimentos que levaram à revolução bolchevique na Rússia em 1917.
O curioso do caso francês é que a palavra francesa para tamanco é “sabot”, de onde surge o termo “sabotagem”.
Percebendo esta situação, Frederick Winslow Taylor propôs que as então modernas relações de trabalho fossem estudadas de forma científica, com o intuito de apaziguar esta relação entre capital e trabalho.
Para nosso estudo atual, é importante destacar dois pontos fundamentais da teoria taylorista:
– Um funcionário deve ser muito bem pago, para que garanta sua fidelidade à empresa e trabalhe de boa vontade;
– O conhecimento pertencente ao artífice humano deve ser capturado e contido na máquina, e privando seu operador deste conhecimento.
Henry Ford foi grande entusiasta das teorias de Taylor, e não só as aplicou, como as desenvolveu, estando elas impregnadas na invenção da moderna linha de montagem.
Mas Ford deu um passo ainda maior ao ir além do chão de fábrica. Ele percebeu que seus carros eram caros, por mais barato que ele conseguisse produzir. Além disso, a linha de montagem só se mostraria vantajosa se houvesse volume de consumo do seu produto, o que na época só estava acessível aos pouco numerosos consumidores mais ricos.
Então Ford extrapola a ideia de Taylor de pagar bem seus funcionários, não mais apenas como forma de apaziguamento da relação capital/trabalho, mas como forma de criar um mercado consumidor, num efeito sistêmico.
Ford propôs o então impensável: ele anteviu as vantagens da grande redistribuição de renda. O resultado foi a criação da moderna e poderosa classe média americana. Esta é considerada a maior contribuição que Ford prestou aos Estados Unidos.
Há até um termo jocoso a respeito, dizendo que Henry Ford foi o maior comunista dos EUA de todos os tempos por esta ideia.
As técnicas Tayloristas/Fordistas ditaram a forma de trabalho nas empresas do mundo todo, nem sempre aplicadas em sua totalidade (principalmente na questão dos salários e melhores relações de trabalho), iniciando sua decadência nos anos 70, quando concorrentes estrangeiros, com outras filosofias de produção, começaram a fazer forte concorrência aos produtos americanos.
A importância desta história para o presente texto é notar como a I.A. absorveu a filosofia Taylorista/Fordista por um lado e como se opõe a ela por outro.
Por um lado, é o âmago da I.A. a captura do conhecimento humano para substituí-lo ou complementá-lo na produção, permitindo que, caso necessário, o humano que a acompanhe não precise de tanto conhecimento.
Por outro lado, a substituição do trabalho humano pelo da I.A. vem ae encontro ao desejo de redução de custos das empresas, uma escolha que oferece vantagem a cada empresa individualmente, mas que, coletivamente, conduz a uma falha sistêmica da economia e da sociedade.
Assim, deveriam os modernos empresários estudar as bases do taylorismo/fordismo antes de aplicar desmedidamente a I.A. apenas porque é possível e gera lucros imediatos.
A evolução tecnológica tornou o taylorismo/fordismo obsoleto, mas ele ainda pode nos ensinar boas lições. Precisamos de uma nova filosofia dos meios de produção que abarque a evolução tecnológica como a automação e a I.A. e que nos traga de volta o equilíbrio de décadas promovido pelo Taylorismo/Fordismo.
VII – Conclusão
Há um pensamento bastante disseminado que diz:
– A automação sempre gera empregos enquanto destrói outros.
Este pensamento, repetido à exaustão como se fosse um mantra, é uma falácia.
Simplista do jeito como é dito, passa a impressão que basta treinar as pessoas que perderam seus empregos para a automação para que elas estejam aptas aos empregos que a automação criou.
Há muitos detalhes que aprendemos ao longo deste artigo que demonstra que esse pensamento é falacioso:
- A automação aumenta a produtividade, mas isso não significa aumento proporcional em vendas. Assim, força de trabalho excedente é normalmente dispensada.
- A automação tem o potencial de gerar muito menos vagas do que as que eliminou, e geralmente as vagas criadas são mais exigentes e atualizadas que as atividades eliminadas;
- A I.A. não apenas demite. Ela redefine o valor do ser humano;
- O futuro do trabalho não é mais sobre quem é o mais qualificado, mas sobre quem ainda é necessário;
- A I.A. é escalável: capacidades que humanos demoram anos para serem aprendidos podem ser reproduzidos em larga escala praticamente de modo instantâneo pela automação. Ela o faz porque contém o conhecimento facilmente replicável que antes era humano e precisava ser lentamente aprendido, pessoa a pessoa;
- Humanos demoram anos para adquirirem certas habilidades e conhecimentos, e a idade pode dificultar ainda mais a capacidade de adaptação destas pessoas;
- Se a taxa de substituição de mão de obra por I.A. for mais elevada que a capacidade dessas pessoas de se requalificarem e serem reabsorvidas pelo mercado de trabalho, haverá um excedente de mão de obra que ficará cronicamente desempregada;
- O problema maior da I.A. é que ela pode reduzir drasticamente o número de pessoas necessárias para realizá-lo — e nem todos conseguirão fazer a transição para as novas funções que ela fará surgir;
- Mesmo quem continua trabalhando com a I.A. pode sofrer sobrecarga de trabalho;
- Quando a função técnica é rara, cara e difícil de encontrar, a indústria busca formas de automatizar esta função.
A fonte de maior preocupação especificamente sobre a automação feita por I.A. vem de três fatores importantes:
- A I.A. pode afetar um número muito maior de atividades, com muito mais severidade que tipos mais antigos de automação;
- A velocidade com que essas mudanças podem ocorrer tende a ser muito maior do que a de tipos mais antigos de automação, e provavelmente a sociedade e a economia não estejam preparadas para absorver adequadamente o choque. Então todos perdem com uma opção que deveria gerar ganhos para todos.
- Somado aos outros dois fatores, ela, diferente das tecnologias de automação anteriores, é barata de ser implantada e operacionalizada.
A grande conclusão deste artigo não é a de ser contra a adoção da I.A.. Ela é uma evolução importante da tecnologia que faz do ser humano quem ele realmente é.
A verdadeira conclusão deste artigo é reconhecer que poucas tecnologias tem o potencial de aplicação da I.A., e, ao mesmo tempo, que tanto sua evolução como sua adoção podem ser rápidas demais para que a sociedade humana seja capaz de absorver tanto as benesses como os destrutivos efeitos colaterais que ela tem potencial de causar, muitos dos quais já foram observados em menor escala com outras tecnologias de automação.
A questão não é se a inteligência artificial substituirá trabalhadores.
A questão é se a sociedade conseguirá se adaptar à velocidade com que isso pode acontecer.
É preciso cautela na sua adoção em larga escala, e para isso, precisamos conversar sobre ela em termos abertos, sinceros e acessíveis a todos.
É disso que trata esta série de artigos.
VIII – Uma provocação
Aprendemos muito sobre características não muito divulgadas dos processos de automação e de I.A..
À luz deste conhecimento, como vocês enxergam as medidas do presidente Trump em repatriar indústrias para gerar novos empregos melhor remunerados, como nos tempos dos pais e avós dos atuais eleitores de sua base?
É uma ideia que pode ser realizada, ou é mais uma promessa ufanista como as descritas neste artigo só para agradar eleitores?
AAD




