Uma imagem apresentada pela CAOA Changan durante o lançamento do UNI-T provocou reação imediata do público. A pirâmide organiza marcas do setor automobilístico em níveis que vão de modelos simples até ultra luxo, posicionando a Changan ao lado de BMW e Mercedes-Benz, enquanto a AVATR aparece próxima de Ferrari, Lamborghini e McLaren.
No Instagram do AUTOentusiastas, publicamos essa imagem e fizemos uma pergunta simples: pode isso?

A proposta, no papel, é de posicionamento estratégico. Mas a leitura dos diversos comentários aponta em outra direção.
Estranhamento
A primeira reação é quase unânime. Estranhamento. Em muitos casos, riso. Em outros, crítica direta.
A colocação de marcas chinesas em patamares equivalentes a fabricantes com décadas, em alguns casos mais de um século de construção de marca, foi vista como exagerada. Não pela qualidade dos produtos em si, mas pela distância entre produto e percepção.
Esse ponto aparece de forma recorrente. A discussão não é apenas técnica, mas também de reputação e percepção de marca.
Há comentários que reconhecem evolução. Alguns destacam avanço em tecnologia, acabamento e proposta. Eu mesmo avaliei o UNI-T e concordo com as qualidades do produto e com a excelente relação custo-benefício. Mas isso não sustenta, por si só, um posicionamento dessa natureza. Marca não se constrói apenas com produto. Constrói-se com tempo, consistência e reconhecimento coletivo.
Falta de coerência
Outro eixo forte de crítica está na falta de coerência interna da própria pirâmide.
A hierarquia apresentada mistura critérios. Marcas de ultra luxo aparecem abaixo de outras. Fabricantes com posicionamento consolidado surgem no mesmo nível de empresas ainda em fase de construção global. Há questionamentos sobre GWM ao lado de Lexus e Genesis, sobre CAOA Chery no mesmo patamar de Toyota e Honda, e até sobre a própria relação entre Bentley, Rolls-Royce e Koenigsegg.
Ou seja, mesmo desconsiderando a presença das marcas chinesas, a estrutura já traz inconsistências básicas.


Intenção
Há também um terceiro elemento importante. A percepção de intenção.
Parte dos comentários interpreta a peça como um exercício de marketing, quase uma declaração aspiracional. Não como um retrato do mercado. Nesse contexto surgem termos como “autoestima”, “ousadia” e “pretensão”.
Essa leitura faz sentido. Posicionamento envolve projeção, mas depende de reconhecimento real. Quando a distância entre os dois é grande, a reação tende a ser de questionamento, não de adesão. Em vez de reforçar valor, o resultado acaba sendo ruído, ou até piada.
Um ponto aparece de forma mais isolada, mas merece atenção. A ideia de que esse movimento pode acontecer ao longo do tempo. Que novas marcas podem alcançar níveis mais altos se houver produto consistente e continuidade.
Isso é possível. Já aconteceu na indústria.
Mas nenhuma marca chegou lá por declaração. Chegaram por trajetória.
A pirâmide da CAOA Changan revela um momento de transição do setor. As fabricantes chinesas avançaram em produto, tecnologia e presença global. Ganharam escala. Ganharam relevância. Agora entram em uma fase mais complexa.
Constução de percepção
Na minha opinião, a estratégia é, de alguma maneira, interessante. Ainda mais se tratando da CAOA, que sempre atuou de forma intensa em comunicação para construir sua imagem. Quem não se lembra da locução enfática: “A melhor do muuuundo!”
Há um fenômeno conhecido na psicologia chamado efeito de verdade ilusória.
Quando uma afirmação é repetida com frequência, ela tende a ser percebida como verdadeira, independentemente de comprovação.
O cérebro passa a associar familiaridade com veracidade. Na prática, o que se ouve muitas vezes deixa de ser questionado e passa a ser aceito. No contexto de marca, isso ajuda a entender por que mensagens consistentes, mesmo quando inicialmente contestadas, podem ao longo do tempo moldar a percepção do público e ganhar espaço como referência.
Com isso, clientes aspiracionais de marcas premium/luxo, como o trio alemão, que nunca chegariam a modelos zero-quilômetro dessas marcas por falta de alcance financeiro ou por não querer pagar o valor adicional ao produto para ostentar uma marca, podem se motivar a buscar um Changan. Principalmente se encontrarem um tratamento mais elevado na experiência de compra e no pós-venda.


Já a AVATR segue um caminho mais difícil. Quanto mais alto o posicionamento pretendido, maior o peso da história, da construção de marca e do reconhecimento acumulado. Nem a “verdade ilusória” colocaria a AVATR junto com Ferrari. Talvez porque seus carros sejam avatares,
Vamos acompanhar com atenção esse movimento.
Leia os comentários na própria postagem.
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PM



