O dia 4 de abril, que se escreve como 4/4, acabou sendo elevado a Dia Internacional do 4×4 (ou do off-road) pela clara alusão ao sistema de tração 4×4, sempre presente nos carros com real capacidade para desafios fora de estrada.
Entre tantos valores fundamentais à prática do off-road — estratégia, ação, determinação, superação, senso de liberdade e aventura — o companheirismo é o que mais se destaca, o mais presente e o mais exercido. Em meio às dificuldades das trilhas e a tudo o que pode acontecer nelas — carros atolados, enguiçados, obstáculos e terrenos difíceis — ele se torna essencial para que tudo seja resolvido em equipe.
Embora profissionalmente e com os companheiros de trilha, eu mais tenha servido aos outros ao longo desses mais de 36 anos praticando off-road, dos quais 28 como profissional, há várias histórias em que precisei desse senso de companheirismo para me safar de problemas e conseguir terminar ou sair de trilhas. Esta é uma delas, ocorrida há 25 anos.

Contexto da época e do meu carro
O ano é 2001, durante o Carnaval. Num evento organizado pela minha empresa de eventos TRAILWAY, na região da Serra da Bocaina com amigos e clientes, o “Ecotour Serra da Bocaina” reuniu com 11 carros e 30 pessoas.
Naquela ocasião, estávamos em recesso do projeto do Option Land Club, iniciado em julho de 2000 com a concessionária Option Motors. Entre dezembro de 2000 e maio ou junho de 2001, o projeto ficou suspenso, aguardando reformulação que, ao final, ampliaria a atuação do clube para atividades off-road com a marca Land Rover, incluindo passeios, trilhas, workshops e expedições.
Nesse período de recesso a TRAILWAY promoveu alguns eventos para o público que já havia participado das primeiras atividades do Option Land Club, entre os quais este do Carnaval de 2001. Como o evento era promovido pela TRAILWAY, sem o apoio da concessionária naquele momento, utilizei meu próprio 4×4 em vez de um Land Rover cedido pela marca, como era habitual. Era um Envemo Camper 1991, vermelho e, naturalmente, com tração 4×4.
Para quem não conhece, o Camper foi um suve à moda tradicional, aqui citado assim para diferenciá-lo dos atuais suves, que acabaram distorcendo o conceito original. Tinha chassi e carroceria de plástico reforçado com fibra de vidro, com desenho inspirado no Jeep Cherokee de primeira geração, mas baseado na mecânica do jipe Engesa.
O motor era de origem Chevrolet Opala, nas versões de quatro ou seis cilindros. Houve versão a diesel. O câmbio manual de cinco marchas Clark 240-V tinha primeira extremamente curta (relação de 6,89:)1, oriunda do caminhão Chevrolet D-40. A caixa de transferência Engesa permitia tração 4×2 e 4×4 sem reduzida — a capacidade fora de estrada vinha da primeira marcha bem curta..
Suspensões e eixos eram rígidos, com molas helicoidais. Freios a disco na dianteira e a tambor na traseira. Muitos diziam que o Camper era um Engesa com roupa de festa — definição adequada.

Quando comprei esse Camper no início de 1998 ele era completamente original. Em 2000, instalei um motor GM 4.1 MPFI, com injeção eletrônica, oriundo da Silverado — também utilizado no Chevrolet Omega com modificações — e em função disso alonguei os diferenciais para adequar ao novo conjunto, significativamente mais potente: 138 cv contra 82 cv do motor original de quatro cilindros.
Além disso, utilizava pneus maiores, 31×10 5R15 do tipo Mud, e instalei freios a disco na traseira. O carro ficou comigo até 2004, embora pouco utilizado a partir de 2002.
Como curiosidade, o Envemo Camper foi apresentado no Salão do Automóvel de 1988 e, em 1990, apareceu na novela “Rainha da Sucata”’, quando o personagem Edu, interpretado por Tony Ramos, tinha como sonho fabricar o carro.
O passeio e o perrengue
Nossa base foi a cidade de Bananal, SP. Por ser Carnaval, a programação ia da sexta-feira pré-Carnaval até a quarta-feira de Cinzas. Os primeiros dias, de sábado a segunda-feira, foram de passeios leves pela região, com cachoeiras e belas paisagens.

Na terça-feira, a proposta era mais ambiciosa: atravessar a Trilha da Madeireira, ligando a região da Estação Ecológica de Bananal à região de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro, com travessia do Rio Piraí, no trecho chamado Rio do Braço.
Tudo corria bem até que ouvi um estalo forte vindo da transmissão. O diferencial traseiro havia quebrado. A partir dali, passei a contar apenas com tração dianteira.


Retirei o eixo cardã e segui. Com alguma dificuldade, consegui concluir a trilha.
Quando a situação piora de verdade
No dia seguinte, durante a travessia rumo a Silveiras, iniciou-se chuva. Até então os dias haviam sido secos.

Em uma subida mais exigente, com erosões e piso escorregadio, não consegui avançar. Após insistir, a caixa de transferência quebrou. Fiquei sem nenhuma tração.
Começa a saga final
A partir desse ponto o Camper passou a ser rebocado. O Defender 110 do amigo Geremias assumiu a tarefa.

A operação era complexa e lenta. Subidas exigiam combinação de carros — o chamado “trenzinho” — ou uso de guincho com ancoragem. Descidas exigiam controle absoluto, com o carro rebocado atuando na frenagem do conjunto.
Com o piso molhado, a dificuldade aumentava. Era necessário coordenação constante, comunicação por rádio e trabalho coletivo.
Até que, em uma descida longa e íngreme, os freios do Camper superaqueceram e perderam eficiência. Ao tentar parar, a cinta de reboque afrouxou, enroscou na roda e acabou rompendo o circuito de freio.

A partir daí, a situação se agravou: além de não ter tração, o carro também não tinha capacidade de frenagem adequada. Passou a ser necessário rebocar nas subidas e escorar nas descidas, com outro veículo atrás.

Mesmo assim, ninguém desanimou. O espírito de companheirismo se manteve presente do início ao fim.
Seguimos assim por quilômetros, já à noite, até chegar ao Bairro dos Macacos, por volta das 22 horas. Dali, o Camper seguiu em caminhão-guincho para São Paulo.
Toda essa história foi extremamente marcante para todos que participaram. Na época, a revista “4×4 & Cia.” publicou o ocorrido com base em material enviado à imprensa.

Encerro reproduzindo os parágrafos finais daquele texto:
“Eu estava, sinceramente, constrangido com a situação. Afinal, era o responsável pelo evento e um incidente dessa natureza não deveria, nem poderia, ter acontecido. Mas quem pratica o off-road sabe que estamos todos sujeitos a esses contratempos. Contraditoriamente, sentia uma certa felicidade em perceber o quanto o grupo fez questão de colaborar para resolver aquela situação.
Tenho a impressão de que todos participaram de uma experiência diferente e real, que pode ser vivida pelos que praticam o off-road. Puderam demonstrar todo o espírito de companheirismo que aparece nos momentos mais difíceis e complicados e foram exemplos vivos de como se deve proceder nessas situações, seja numa trilha ou no dia a dia.
Meus agradecimentos ao Sr. Geremias pelo reboque eficiente; ao Luciano e ao Sidney por segurar meu carro nas ladeira; ao José Ayres (in memoriam) por servir tantas vezes de ancoragem para o guincho; ao Henrique por colaborar nas operações; e a todos os demais, companheiros e acompanhantes, pelo apoio, pela paciência e pelo trabalho eficiente.
O trabalho e a paciência de vocês contribuíram para um encerramento em grande estilo — e diferente — do Ecotour Serra da Bocaina. Até o próximo.”
Feliz Dia do 4×4 neste 4 de abril de 2026.
LFC



