Eu arrisco a dizer que a Hyundai não tem uma legião de fãs no Brasil. Por aqui seus carros são bem vistos, têm boa confiabilidade, um certo capricho no acabamento e um custo-benefício interessante, mas talvez não mais interessante que seus concorrentes. Eu, particularmente, gosto muito do acabamento, do rodar silencioso e suave, e até do design. Mas não vejo grandes emoções. Por favor, caso alguém discorde na minha visão, eu gostaria de escutar contra argumentos.

Mas falando da Hyundai como um todo eu realmente admiro o que ela tem feito em termos de design e ousadia. Criou uma linguagem de design no mínimo interessante e diferente, com um posicionamento mais premium, e implementou a linha N. Vejo-a dinâmica, desafiante do convencional, e por isso me atrai muito. Gostaria de ver essa ousadia aqui no Brasil, para que mais pessoas passem a desejar um Hyundai.

E para demonstrar o que sinto pela Hyundai vejo o recém lançado Ioniq 6 N com um excelente exemplo. Mas antes de falar dele vale uma repassada no que é a linha N. Ela representa a divisão de alto desempenho da marca sul-coreana. Criada para desenvolver carros esportivos com foco em dirigibilidade e controle dinâmico, a linha N segue uma estrutura técnica clara: engenharia desenvolvida no centro global de P&D em Namyang, na Coreia do Sul, e validação final no Nürburgring Nordschleife, na Alemanha, dois polos que dão origem à letra N e que definem o padrão de exigência adotado em todos os modelos.

A proposta da linha N é oferecer carros que entreguem prazer ao dirigir em qualquer condição, da rua ao track day, com soluções concretas: geometria de suspensão específica, chassis reforçado, modos de condução dedicados, diferenciais eletrônicos, sistemas de arrefecimento ampliados e pacotes de software pensados para ampliar o envolvimento do motorista. Recursos como o N e-Shift (que simula trocas de marcha em EVs) e o N Drift Optimizer (controle eletrônico de drift) são exemplos do quanto a divisão investe na criação de uma experiência sensorial e responsiva.

A estrutura da linha se organiza em três níveis:
- N Line, com design esportivo e ajustes dinâmicos leves (como suspensão e resposta de direção);
- Modelos N, com engenharia própria e foco em performance real, tanto em estrada quanto em pista;
- Rolling Labs e Motorsport, que funcionam como laboratórios e campos de prova para soluções experimentais, muitas das quais migrarão para os modelos de produção.
Na prática, a Hyundai N é hoje uma das poucas divisões de performance que nasceu já no século XXI, sem legado a ser seguido, e talvez por isso tenha mais liberdade para experimentar, ousar e propor novas formas de construir esportividade. Não por acaso, seus carros vêm se destacando globalmente por sua capacidade de entregar desempenho com personalidade.
IONIQ 6 N
A Hyundai apresentou no Goodwood Festival of Speed 2025 seu segundo modelo 100% elétrico da divisão N: o IONIQ 6 N. Se o IONIQ 5 N já havia apontado que a marca sul-coreana não está apenas experimentando com esportividade elétrica, o novo sedã de aparência inusitada (mas bem interessante) leva a proposta a um novo nível, tanto em desempenho quanto em ambição.
E isso já começa nos números. São 650 cv (478 kW) e 770 Nm de torque, o suficiente para levá-lo de 0 a 100 km/h em apenas 3,2 segundos com o N Launch Control ativado. A velocidade máxima é de 257 km/h. Mas o destaque aqui não é só a aceleração em linha reta. A Hyundai aplicou engenharia de carros de pista em um elétrico de produção. Tudo em nome do envolvimento, da conexão com a máquina e da emoção, atributos amplamente criticados nos elétricos por sua ausência, sobretudo entre os autoentusiastas.

O IONIQ 6 N segue a cartilha de três pilares do braço esportivo da Hyundai: agilidade em curvas (Corner Rascal), desempenho em pista (Racetrack Capability) e usabilidade diária (Everyday Sportscar). Isso se traduz em uma série de soluções técnicas que começam no redesenho da suspensão, passam pela rigidez estrutural e chegam à gestão térmica da bateria, essa última crucial para manter o desempenho constante em sessões prolongadas.

A suspensão eletrônica ECS com sensores de curso (stroke sensing) permite variação dinâmica da rigidez dos amortecedores conforme o tipo de condução. Em conjunto com o novo centro de rolagem mais baixo e a nova geometria, o sedã entrega mais precisão e compostura tanto em alta velocidade quanto em situações de direção mais agressiva.

A aerodinâmica é parte central do projeto e foi pensada para equilibrar sustentação negativa e redução de arrasto em busca do máximo desempenho. Elementos do automobilismo, como o aerofólio traseiro do tipo “pescoço de cisne” e os para-lamas alargados, reforçam o visual agressivo e preparado para pista, ao mesmo tempo em que aumentam a estabilidade nas curvas em alta velocidade. Essa eficiência aerodinâmica faz com que o IONIQ 6 N una impacto visual e comportamento dinâmico com a mesma intensidade.
O N Battery é um sistema de gerenciamento de bateria totalmente revisado. A engenharia por trás dele foca no controle térmico ideal, ajustando-se a diferentes tipos de uso em pista, seja em arrancadas, sprints curtos ou provas de longa duração. O sistema incorpora funções de pré-condicionamento da bateria que elevam e sustentam o desempenho por mais tempo. Com controle térmico otimizado e maior capacidade de aquecimento do fluido, o tempo necessário para atingir a temperatura ideal foi significativamente reduzido.
O IONIQ 6 N foi desenvolvido para ampliar o envolvimento com o condutor, mesmo sem motor a combustão. E aqui ele apresenta soluções bem pensadas.
O N e-Shift simula trocas de marcha com relações curtas, imitando a resposta de um carro com câmbio sequencial de competição. E o N Active Sound+ entrega paisagens sonoras específicas para cada modo: Ignition (com pegada de pista), Evolution (mais próxima de um elétrico clássico) e Lightspeed (com sons futuristas). Os sons são gerados por um processador acústico dedicado e emitidos em estéreo para dentro da cabine, numa tentativa clara de criar vínculo emocional via som e ritmo.

Há quem odeie e ache um crime esses subterfúgios para gerar emoção. Mas se pensarmos bem, escapamentos podem ser desenvolvidos para abafar muito ou pouco o som do motor, e acabam sendo um alto-falante nesse sentido. O som e vibração do motor podem também ser mais ou menos proeminentes na cabine dependendo de quanto os engenheiros quiserem deixar passar pelos isolamentos. Também é possível trabalhar no som de aspiração do motor para ser mais ou menos ruidoso. Entendo que o som e a vibração do motor são elementos sensoriais importantes que nos ajudam a entender quão perto do limite estamos. São elementos importantes e fazem parte da sensação, e prazer, de dirigir, principalmente em esportivos. Mas não vejo isso como um elemento que deva paralisar a evolução tecnológica.

E nesse ponto a Hyundai tem escutado muito os autoentusiastas para trazer sensações similares aos seus elétricos esportivos. Acho que é uma questão de adaptação. Pense em um jovem que nunca dirigiu um carro com motor a combustão. Acredito que ele vai adorar dirigir um elétrico com marchas e sons simulados. Ou não?
E para completar há ainda o N Ambient Shift Light, um recurso de iluminação interna que marca os pontos ideais de troca de marcha simulada. Funciona como um conta-giros visual, transformando o interior em uma espécie de cockpit digital sensorial.

Quer mais?!
Para quem vai além do uso esportivo de rua, o IONIQ 6 N oferece o N Track Manager, um sistema que permite criar traçados personalizados, registrar telemetria, comparar tempos com um “carro fantasma” e analisar desempenho volta a volta.
Além disso, o modo N Drift Optimizer ajusta parâmetros como ponto de entrada, ângulo e rotação das rodas para controlar drifts, um recurso incomum até mesmo entre esportivos a combustão. Tudo isso com ajustes finos para diferentes níveis de habilidade e estilo de condução.
A Hyundai ainda preparou uma linha de peças N Performance para personalização visual e funcional. O modelo foi mostrado com essas peças aplicadas, incluindo o inédito tom Performance Blue Pearl, uma evolução do tradicional azul da linha N, com acabamento perolizado e maior profundidade visual.
A estreia aconteceu em um dos palcos mais simbólicos da cultura automobilística contemporânea: o Goodwood Festival of Speed. O IONIQ 6 N subiu a colina acompanhado de outros modelos da linha esportiva da marca, como os i30 N, RN24, IONIQ 5 N e versões especiais de competição.


Com tudo isso o IONIQ 6 N representa a transição da combustão para a eletrificação incorporando elementos sensoriais e muito envolvimento além do desempenho de carros de competição. A Hyundai N mostra que é possível repensar o prazer de dirigir com novos elementos: torque instantâneo, centro de gravidade mais baixo, inteligência artificial na suspensão, sons recriados com intencionalidade.
É o tipo de carro que ainda divide opiniões. É polarizador: os puristas vão torcer o nariz, entusiastas tecnológicos vão se empolgar. Mas uma coisa é certa: o IONIQ 6 N não nasceu para ser neutro. Ele é provocação e proposta ao mesmo tempo. E, como todo bom esportivo, é isso que se espera.
Alguém mais ficou com o desejo de testar esse carro em uma pista?
Espero que a Hyundai do Brasil leia esse texto e se inspire a trazer algo mais empolgante para o Brasil. Até a Toyota, que é a Toyota, está trazendo o Corolla GR. E a Honda o Civic Type-R.
Ficha técnica
| Especificação | Detalhes |
| Potência do motor (dianteiro) | 166 kW / 226 cv |
| Potência do motor (traseiro) | 282 kW / 383 cv |
| Potência total | 448 kW / 609 cv |
| Potência com Boost | 478 kW / 650 cv Dianteiro: 175 kW / 238 cv Traseiro: 303 kW / 412 cv |
| Bateria de alta voltagem (energia) | 84,0 kWh |
| Tempo de recarga (10% a 80% com 350 kW) |
Cerca de 18 minutos (condições ideais) |
| Comprimento | 4.935 mm |
| Largura | 1.940 mm |
| Altura | 1.495 mm |
| Entre-eixos | 2.965 mm |
| Pneus | 275/35R20 (Pirelli P-Zero 5 com marcação HN) |
| Freios dianteiro / traseiro | Quatro pistões 400 mm / Um pistão 360 mm |
| Desaceleração regenerativa | Até 0,6 G (0,35 G com ABS) |
| Coeficiente aerodinâmico | 0,27 |
| 0–100 km/h | 3,2 segundos (com N Launch Control) |
| Velocidade máxima | Até 257 km/h |
| Autonomia projetada | A ser anunciada no lançamento regional |
| Cores externas | Performance Blue Pearl, Abyss Black Pearl, Serenity White Pearl, Nocturne Gray Metallic, Nocturne Gray Matte, Gravity Gold Matte |
| Cor interna | Preto com detalhes em Performance Blue |
| N Launch Control | Modula automaticamente o torque para tração máxima e arrancada rápida |
| N e-Shift | Simula trocas de marcha com sensação semelhante à de carros a combustão |
| N Active Sound + | Gera sons para aumentar o feedback sensorial do motorista |
| N Grin Boost | Aceleração máxima por 10 segundos com aumento de potência e resposta do motor |
| N Battery | Pré-condicionamento da bateria para diferentes modos (Drag/Sprint/Endurance); aquecimento otimizado |
| N Drift Optimizer | Controle individual de drift: Início (RTO) / Ângulo (ESC) / Giro das rodas (TCS) |
| Distribuição de torque N | Distribuição de torque dianteiro/traseiro ajustável em 11 níveis |
| N Pedal | 3 níveis de resposta para fazer curvasccom mais agilidade |
| Regeneração de frenagem N | Até 0,6 G de frenagem regenerativa (0,35 G com ABS) |
| TPMS Modo Personalizado | Permite definir pressão ideal dos pneus de acordo com a necessidade |
PM
Onde me encontrar: Instagram, LinkedIn, AUTOentusiastas e Jornal Roda.





