No dia 14 de novembro próximo o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) completa 50 anos. O que levou à sua criação foi a necessidade de encontrar um combustível que substituísse a gasolina não por razões técnicas, mas por uma questão exclusivamente econômica: o primeiro choque do petróleo.
Em outubro de 1973 a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), iniciou uma escalada de brutal elevação do preço do barril de petróleo que em apenas três meses passou de 2 para 12 dólares, aumento de nada menos que 500%. Países que dependiam largamente do petróleo do Oriente Médio, como o Brasil, que importava 80% do petróleo para suas necessidades, viram-se diante de um gasto inesperado, isto levou o governo Ernesto Geisel a criar o programa que possibilitasse a produção de álcool etílico para substituir a gasolina nos automóveis e veículos comerciais leves.
O problema é que o derivado de petróleo que comandava sua importação era o diesel, que não poderia deixar de ser importado, ou o país literalmente pararia em transporte de carga e de passageiros. Em suma, gasolina teve que continuar a ser produzida, querendo ou não, no processo de refino do petróleo. Esse fato, combinado com a venda de gasolina proibida das 20 horas às 6 horas do dia seguinte e aos sábados, domingos e feriados, só poderia resultar num colossal excedente de gasolina estocada. Na época eu soube por fontes sigilosas que até petroleiros ancorados foram utilizados para armazenar gasolina a partir do momento em que os carros álcool começaram a ser produzidos em grandes volumes.
Consta que toda essa gasolina era exportada e contribuía para o caixa do governo, que continuava a despender para importar petróleo (ainda não havia o pré-sal).
O seis por meia dúzia
Troca sem sentido, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) ter determinado em 2009 a troca de álcool para etanol, jogou no lixo um momento importante, apesar de confuso, da nossa História. É o mesmíssimo, uso o superlativo a contragosto, produto. Foi como se álcool gerasse confusão ou dúvida para os motoristas, varejistas e frentistas dos postos. Foi esse o motivo de o AE ter abolido a palavra etanol e voltado a álcool poucos meses depois, assim permanecendo até hoje. Diante de um programa que tem álcool no nome, soa estranho seu abandono. Não se muda História, quanto mais por motivo tão fútil.
A ANP e outros, como o colunista e muito amigo desde 1966, Fernando Calmon, alegam ter-se tratado de internacionalização do nome do combustível, que em outros países é ethanol e a especificação da gasolina “alcoolizada” ser composta pela letra ‘E’ seguida do número que representa o percentual de álcool na mistura, como em gasolina E27. O fato é ser muito estranho comemorar 50 anos do Proálcool quando hoje é etanol.
Em 2019 a Fiat comemorou os 40 anos da homologação do primeiro carro a álcool do mundo, o Fiat 147, chamando a imprensa para um evento alusivo na fábrica em Betim. Foi uma bela saia-justa para os executivos da fabricante, ora falavam em álcool, ora falavam em etanol, mesmo que o primeiro carro a álcool em exposição naquela ocasião, o carro 00001 estivesse decorado como carro a álcool. Culpa da ANP.
Sistema de partida a frio desnecessário
Cabe comentar o grande erro do Proálcool, estabelecer álcool puro que requereu sistema de partida a frio por problemática injeção de gasolina e que gerou funcionamento errático dos motores na fase fria.
Bastaria a mistura 90% álcool e 10% gasolina para as manhãs de inverno no Brasil — nos EUA e Canadá é 85%-15% ou 70%-30% no inverno deles. Faltou-nos inteligência e bom senso nesse aspecto.
BS
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