O mundo corporativo do esporte a motor ficou bastante agitado nos últimos dias: a Liberty Media anunciou seu balanço do primeiro semestre e assumiu oficialmente o controle acionário da MotoGP e a rede de TV Fox comprou um terço das ações do conglomerado Penske Entertainment, que inclui o autódromo de Indianapolis e a categoria F-Indy.
O Brasil também viveu um pouco dessas emoções: a Vicar anunciou ontem a reestruturação de seu departamento de marketing e oficializou a contratação de Eduardo Brunoro e Caio Neumann e Ronaldo Fenômeno passou a administrar a carreira de Rafael Câmara, pernambucano que é o novo campeão da F-3-FIA.

A Liberty Media é uma empresa criada em 1991 e que atualmente tem ramificações em várias áreas de entretenimento, o que permite replicar experiências bem-sucedidas num determinado segmento que, a princípio possam parecer inadequadas a um outro. O uso de novas técnicas de comunicação pode ser notado na interação criada nas transmissões das provas através da votação para destaques de cada prova.
Outra ação nessa área é a linguagem adotada no noticiário do site da F-1, onde o culto à personalidade é privilegiado sobre o conteúdo técnico.

Entre as 14 empresas que formam o conglomerado Liberty Media, a F-1 é, de longe, a que tem o maior faturamento: no primeiro semestre deste ano faturou US$ 1,629 bilhão, 12,9% a mais que em igual período em 2024. O volume de negócios no automobilismo cresce em dois vetores: no Exterior a série Drive to Survive (Dirigir para Viver no Brasil) da Netflix é o principal acelerador do aumento de popularidade da F-1.
Ao dar um tratamento inédito ao site oficial da categoria — e que não significa mais apurado — a rede de streaming americana gerou a curiosidade que Bernie Ecclestone sempre sonhou em conquistar nos Estados Unidos. Muito mais do que isso, essa movida impactou seriamente na popularidade da Nascar, até então a definição de automobilismo em estado puro entre os entusiastas desse país.

No vácuo desse fenômeno, marcas mundiais abriram o olho para o potencial de negócios que foi consolidado em poucas temporadas. Com isso o valor de uma equipe de F-1 — algo que o corporativismo financeiro chama de franchise, ou, entre nós, franquia — cresceu a ponto de algumas escuderias permitirem que investidores avulsos ou através de fundos comprem parte significativa de seus negócios.
Um exemplo é a Alpine, equipe que é propriedade da Renault e parte do seu capital é controlado pelo grupo formado pela Otro Capital, RedBird Capital Investments e Maximum Efforts e personalidades como Michael Jordan. Em 2023 eles adquiriram 24% de ações da Alpine por US$ 200 milhões.

Num passado não muito distante a F-1 era uma categoria formada por donos de equipe apaixonados por carros de corrida e cujo maior empreendedorismo era fabricar pequenas séries de carros de corrida, como a Brabham, Lotus e McLaren, ou esportivos luxuosos, como a Ferrari. Concorrente do construtor italiano, a Aston Martin é uma marca presente na categoria por obra e graça de Lawrence Stroll.
O milionário canadense adquiriu participações na fábrica de esportivos e forjou o uso do nome na equipe que adquiriu do indiano Vijay Mallya. Com essas ferramentas na mão desenvolveu um projeto no qual a fábrica de automóveis empresta seu nome e patrocina a equipe de F-1 e gera oportunidades de negócios para a escuderia. Além disso, não custa lembrar que a causa de todo esse empenho é tentar fazer de seu filho, Lance, um campeão da F-1.

Se a F-1 cresce como nunca nos Estados Unidos, a F-Indy não fica parada e tenta capitalizar o protagonismo da 500 Milhas de Indianapolis, um dos maiores evento do automobilismo mundial. Este ano a competição teve mais de 7 milhões de pessoas acompanhando-a pela TV.
A audiência dessa corrida é maior que todas as demais provas da temporada juntas e o incansável Roger Penske quer equilibrar essa relação para mitigar as consequências que os GPs em Miami, Austin e Las Vegas provocam no mercado publicitário local. Segundo a Penske Entertainment, o número de telespectadores da temporada de F-Indy cresceu 31% este ano.
No Brasil, o automobilismo tem duas frentes destacadas nos eventos promovidos pela Vicar e pela Mais Brasil. A primeira é comandada por Lincoln Oliveira e inclui as categorias Stock Car Pro, Stock Car Light, F-4 BR, Turismo Nacional e TCR South America. Em 2026 é bastante provável que o Campeonato Interestadual de F-Truck seja agregado a esse grupo em forma de evento associado. A outra é liderada por Carlos Col, inclui a Copa Truck, Nascar Brasil e a Copa Hyundai HB20 e em 2024 teve uma experiência mal sucedida com a etapa brasileira do Campeonato Mundial de Resistência (WEC, na sigla em inglês).

Oliveira investe pesado e sua organização continua crescendo em vários sentidos. A grandeza dos seus eventos só aumenta e envolve um número cada vez maior de carretas para transportar a estrutura de segurança, áreas de convidados, equipes técnicas e por aí a fora. Com a saída de Fernando Julianelli, responsável pelo marketing da Vicar e que no final do ano passado retornou para a Mitsubishi,
Oliveira preencheu a vaga com dois novos contratados: Eduardo Brunoro e Caio Neumann. Brunoro, profissional consagrado na área e irmão do ex-técnico de vôlei e empresário de Pedro Paulo Diniz, foi nomeado vice-presidente comercial e de marketing. Neumann, que estruturou a área de marketing da Go Pro na América Latina, vai gerenciar a área de marketing.
WG
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