O antigomobilismo brasileiro acaba de alcançar um feito histórico. Pela primeira vez na Monterey Car Week, o mais prestigiado encontro mundial de veículos clássicos e esportivos, dois automóveis do acervo do CARDE – Arte Design Museu, em Campos do Jordão (SP), foram premiados em eventos distintos da programação na Califórnia (EUA).
A Monterey Car Week reúne alguns dos encontros mais importantes do mundo, cada qual com sua identidade. O Pebble Beach Concours d’Elegance, realizado desde 1950, é o ápice da programação e consagra os automóveis clássicos que melhor preservam autenticidade, design e história. Já o The Quail – A Motorsports Gathering, criado em 2003, traz uma proposta distinta: combina automóveis clássicos e superesportivos contemporâneos num ambiente de estilo de vida, onde fabricantes e colecionadores convivem em clima descontraído, mas de sofisticação absoluta. Mais que eventos isolados, Pebble Beach e The Quail se complementam e ajudam a explicar por que Monterey se tornou o centro do universo automobilístico durante uma semana de agosto a cada ano.

No domingo (17), o Isotta Fraschini Tipo 8A SS Guida Interna Sport 1928 conquistou em Pebble Beach o troféu Lap of the Luxury, distinção máxima que consagra o carro mais luxuoso do Concours d’Elegance. Já na sexta-feira (15), o Ferrari F50 exposto no museu venceu no The Quail – A Motorsports Gathering, em categoria que celebrava os 30 anos do superesportivo italiano. Uma dupla consagração que marcou em definitivo a estreia do Brasil no cenário internacional.
O Isotta Fraschini 1928: o mais luxuoso de Pebble Beach
Reconhecida mundialmente, a Isotta Fraschini foi fundada em Milão em 1900 e tornou-se referência em sofisticação e inovação nas primeiras décadas do século 20. O Tipo 8A, lançado em 1924, representava o auge da sofisticação automobilística italiana, equipado com motor de oito cilindros em linha, 7,4 litros e cerca de 110 cv.
O exemplar presente em Pebble Beach, chassis 1532, foi adquirido pelo aviador brasileiro João Ribeiro de Barros, o mesmo que em 1927 atravessou o Atlântico Sul sem escalas no hidroavião Jahú, equipado com motores Isotta Fraschini. Finalizado em 1928 com carroceria exclusiva da Carrozzeria Cesare Sala, de Milão, o modelo une história do Brasil e tradição italiana.
Antes da vitória no domingo, o Isotta participou do tradicional Tour d’Elegance, rodando cerca de 100 km pela 17 Mile Drive até Big Sur. O desempenho impecável ao lado de outro representante do museu, o duPont Model E Touring 1927, comprovou que esses automóveis, prestes a completar um século, seguem funcionando como no passado.

O Ferrari F50: troféu no The Quail
A consagração brasileira começou dois dias antes, em Carmel, quando o Ferrari F50 do CARDE venceu no The Quail, evento que reúne algumas das marcas mais exclusivas do mundo em atmosfera de estilo de vida.
O exemplar do museu se destacou entre 16 unidades concorrentes. E não apenas pela conservação impecável, mas por sua exclusividade: trata-se do segundo de três protótipos pré-série produzidos antes das 349 unidades destinadas a clientes. Uma raridade absoluta, restaurada especialmente para Monterey.
Apresentado em 1995 por Luca di Montezemolo como um verdadeiro “Fórmula 1 de rua”, o F50 dispensava direção assistida, ABS e outros auxílios, para entregar experiência purista. Seu chassi é de fibra de carbono, o câmbio manual de seis marchas em liga de magnésio e o motor V-12 de 4,7 litros gera 520 cv, suficientes para levá-lo aos 325 km/h.

O duPont 1927: outro brasileiro em Pebble Beach
Além do Isotta, o CARDE levou também o duPont Model E Touring 1927, produzido em apenas 83 unidades. Equipado com motor de seis cilindros e oferecido em cinco estilos de carroceria, este exemplar – chassis 547 – foi originalmente destinado a Nova York e, em seguida, exportado para a América do Sul, servindo como protótipo de testes no Brasil. Hoje é um dos duPont mais antigos do mundo ainda em circulação.
A força cultural do CARDE e Lia Maria Aguiar no Hall da Fama da FIVA
Fundado em novembro de 2024, o CARDE já recebeu mais de 50 mil visitantes em sete meses de atividades. Instalado em meio a uma floresta de araucárias em Campos do Jordão, o museu utiliza o automóvel como protagonista para contar a história do século 20, valorizando a cultura brasileira.
O projeto integra a Fundação Lia Maria Aguiar (FLMA), instituição sem fins lucrativos que atua em áreas como educação artística, saúde e inclusão social. Mais de 700 jovens participam de cursos nos núcleos de dança, música e teatro, enquanto o núcleo de saúde, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, já realizou mais de 100 mil atendimentos gratuitos, incluindo o pioneiro tratamento de hemodiálise no município.
Em paralelo às conquistas na Califórnia, a FIVA (Federação Internacional de Veículos Antigos) anunciou a entrada de Lia Maria Aguiar em seu Heritage Hall of Fame. É a primeira mulher brasileira a receber essa honraria mundial, que reconhece personalidades pelo compromisso com a preservação do patrimônio automobilístico.
Apenas outros dois brasileiros fazem parte da lista: Og Pozzoli e Roberto Suga, ícones na preservação da memória automobilística. O reconhecimento ressalta o impacto do projeto em Campos do Jordão, que rapidamente se consolidou como o maior museu antigomobilista da América Latina.
Com a vitória do Isotta e do Ferrari F50 em Monterey, e o reconhecimento internacional de sua fundadora, o CARDE colocou o Brasil de vez no mapa do antigomobilismo mundial. Um marco que une história, cultura e paixão pelos automóveis.
PM





