No dia 8 de agosto último, no circuito de testes ATP Automotive Testing Papenburg, na Alemanha, o Yangwang U9 Track Edition, hipercarro elétrico da marca de luxo da BYD, atingiu 472,41 km/h, estabelecendo o novo recorde mundial de velocidade para veículos elétricos. O feito foi realizado pelo piloto alemão Marc Basseng.

O carro utilizado é uma versão de engenharia do U9 comercializado na China, equipada com elementos adicionais para suportar condições extremas. O recorde só foi possível porque cinco conjuntos tecnológicos atuaram juntos para equilibrar potência, estabilidade, aderência e segurança em velocidades próximas de 500 km/h.
Os cinco elementos que tornaram o recorde possível
1. Plataforma elétrica de 1.200 volts
O U9 Track Edition é o primeiro carro do mundo a utilizar uma arquitetura elétrica de 1.200 V produzida em escala. A elevação da tensão permite maior densidade de energia, menor perda por calor e maior rapidez na transferência de potência. Isso significa que, mesmo em acelerações contínuas e longas, os motores mantêm entrega estável. Em comparação, plataformas de 800 V, como as usadas em Porsche Taycan e Hyundai Ioniq 5 N, já representam avanço frente a sistemas de 400 V; o salto para 1.200 V leva a eficiência a outro patamar, essencial para atingir 472,41 km/h.
2. Quatro motores independentes de 30.000 rpm
A base de propulsão está na plataforma e4 (Yi Sifang), composta por quatro motores elétricos de755 cv cada, girando até 30.000 rpm. O total combinado chega a 3.019 cv, mas a potência isolada não conta a história completa. Cada motor controla individualmente uma roda, com ajustes de torque vetorizado mais de 100 vezes por segundo. Esse controle dinâmico garante que nenhuma roda patine ou perca tração em velocidades onde qualquer variação de aderência poderia comprometer a estabilidade.
3. Relação peso-potência de 0,821 kg/cv
O Yangwang U9 alcança 0,821 kg/cv número que coloca o elétrico acima do Koenigsegg Jesko Absolut (cerca de 1 kg/cv). A relação peso-potência é determinante em hipercarros porque define não apenas a capacidade de aceleração, mas também a possibilidade de sustentar velocidades máximas por trechos longos. No caso do U9, esse índice mostra como a engenharia elétrica já se equipara — e em certos casos supera — os hipercarros a combustão mais extremos do mundo.
4. Suspensão ativa inteligente DiSus-X
O DiSus-X é um sistema que ajusta em tempo real cada uma das quatro suspensões, corrigindo arfagem (movimento longitudinal) e rolagem (movimento lateral). Essa atuação garante que a carroceria permaneça estável e que os pneus mantenham a maior área de contato possível com o solo. Em velocidades acima de 400 km/h, qualquer movimento de carroceria amplificado poderia levar à perda de aderência. No U9, o DiSus-X trabalhou em conjunto com o torque vetorizado da plataforma e4, criando uma camada dupla de segurança dinâmica.

5. Pneus desenvolvidos para 500 km/h
O recorde exigiu pneus específicos, desenvolvidos pela Giti Tire em parceria com a Yangwang. São semi-slicks projetados para resistir a velocidades de até 500 km/h, com compostos otimizados e banda de rodagem larga. Além do material, há um detalhe técnico pouco usual: o tratamento de micro-ranhuras na interface com a roda (knurling), aliado a lubrificante especial de alta viscosidade (possivelmente para a montagem), reduz o risco de o pneu deslizar no aro sob aceleração ou frenagem extremas. Isso garante previsibilidade, menor desgaste e maior consistência durante tentativas de recorde.

Assista o vídeo do recorde
Repare que logo após atingir a máxima, na desaceleração, o carro perde estabilidade mesmo contando com a suspensão ativa inteligente. Também chama atenção a ausência de um grande aerofólio traseiro, que ajudaria a manter o carro mais “colado” ao solo, mas que, em contrapartida, aumentaria significativamente o arrasto aerodinâmico.
A pista ATP em Papenburg
O recorde foi realizado no campo de testes ATP Automotive Testing Papenburg, no norte da Alemanha. É uma das maiores e mais avançadas pistas de desenvolvimento do mundo, usada por diversas fabricantes globais para validação de protótipos em regimes de alta velocidade. Seu destaque é a pista oblonga de 12,3 km que compreende duas retas de 4 km unidas por duas curvas de 2,15 km com superlevação de 49,7º que não geram força lateral a 250 kmh. A pista permite manter velocidades acima de 400 km/h com segurança.

Foi também em Papenburg que outros recordes de elétricos foram estabelecidos, incluindo a marca de 2024, igualmente conduzida pelo alemão Marc Basseng, o mesmo responsável pela pilotagem do Yangwang U9. Segundo os dados oficiais, o carro ainda tinha margem para acelerar quando precisou frear no fim da reta.
A escolha de Papenburg foi determinante. Diferentemente de Ehra-Lessien, a pista do Grupo Volkswagen restrita a marcas do conglomerado, o circuito alemão se consolidou como o principal espaço para tentativas de recorde abertas a fabricantes independentes. Foi ali que o Bugatti Mistral registrou 282 mph (453 km/h) sob chuva leve em 2024.
Apesar da qualidade do asfalto e da infraestrutura de monitoramento e telemetria, Papenburg impõe limitações. Suas retas são praticamente metade da extensão das de Ehra-Lessien, que chegam a mais de 8 km. Acima de 450 km/h, cada metro adicional de pista faz diferença, o que torna ainda mais expressivo o resultado do U9 ao alcançar 472,41 km/h (293 mph).
A marca supera em 12 mph (19,3 km/h) a registrada pelo Bugatti Mistral no mesmo local e coloca o hipercarro chinês entre os três carros de rua mais velozes do mundo, independentemente da motorização. A conquista reforça o avanço da engenharia chinesa num território que até recentemente era exclusivo de fabricantes europeus. Com a experiência acumulada, não seria improvável que a Yangwang retorne a Papenburg em busca da barreira das 300 mph (482 km/h) e, em seguida, desafie o recorde absoluto de 304,77 mph (490,48 km/h) do Bugatti Chiron Super Sport 300+, obtido em Ehra-Lessien em 2019.
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Comparativo

* O Jesko Absolut ainda não teve homologação oficial de recorde, apenas simulações e testes de fábrica.
O recorde de 472,41 km/h do Yangwang U9 Track Edition é um marco na história do automóvel. Pela primeira vez, um fabricante chinês insere-se no grupo restrito de marcas capazes de desafiar e superar recordes absolutos de velocidade. O feito não se limita a potência ou aerodinâmica, mas à combinação de soluções inéditas: arquitetura elétrica de 1.200 V, quatro motores de alta rotação, suspensão ativa sofisticada e pneus projetados para velocidades que até recentemente pareciam impossíveis.
Esse resultado mostra que a eletrificação não apenas substitui a combustão em eficiência e sustentabilidade, mas também já alcança os níveis mais extremos de desempenho. O U9 coloca a engenharia chinesa no mesmo patamar de Koenigsegg e Bugatti, redefinindo o mapa do hipercarro no cenário mundial.
Não me causaria espanto algum que o próximo passo da BYD seja o automobilismo. Acho que o único elemento que limita a entrada de chineses na F-1, WEC ou WRC é que essas categorias ainda não evoluiram para a eletrificação. Questão de tempo para isso acontecer? Não sei dizer. Mas não vejo empenho consistente nessa direção. Por mais que isso cause estranhesa e eu torça pela marcas responsáveis pelo meu autoentusiasmo (que certamente não são chinesas) eu acho que seria bem interessante uma grande sacudida no automobilismo com a entrada de chineses.

Em tempo, o nome Yangwang transmite a ideia de admiração aspiracional e da ambição de alcançar algo elevado. A BYD utiliza “Yangwang” para posicionar a marca como sinônimo de alto padrão e objeto de desejo.
PM





