A decisão tomada pela equipe McLaren, inverter as posições de Oscar Piastri e Lando Norris no final do recente da GP da Itália (foto de abertura), tem implicações que vão muito além de uma simples correção de erro. Num ecossistema conhecido por manobras que não raramente cruzam a linha que distingue o honesto do desonesto, tal ato sopra uma lufada de ética e princípios pouco comuns na categoria.
Por mais que Piastri, líder do campeonato mundial, tenha desgostado do processo, o fato de ele ter consumado a decisão na pista reforça o episódio como algo positivo. A corrida foi vencida por Max Verstappen, autor da pole position, e Gabriel Bortoleto terminou em oitavo, o melhor novato dessa prova.

Para qualquer piloto que leve sua profissão a sério, competir na F-1 é um graal mais sagrado que aqueles que católicos acreditam ter sido usado por Jesus na sua última ceia. Isso significa não medir esforços, por vezes também atitudes, para cumprir sua meta. Desde aliciar patrocinadores já comprometidos com um rival. até usar o apoio de alguém mais dotado financeiramente, não faltam exemplos que confirmaram contratos.

Verdade que, vez ou outra, o processo termina numa situação bizarra, caso do que aconteceu com a equipe Sauber no GP da Austrália de 2015. O time suíço inscreveu o brasileiro Felipe Nasr e o sueco Marcus Ericsson, mas o holandês Giedo van der Garde apareceu nos boxes vestido com o macacão da equipe e, mesmo alegando ter um contrato válido, toda a equipe se retirou do local.
O assunto foi parar num tribunal do Estado de Victoria e o acabou num acordo entre o piloto e a Sauber sobre o qual não foram divulgados detalhes. Van der Garde nunca teve outra chance de competir na F-1, Ericsson está correndo na F-Indy e Nasr é um dos destaques da série IMSA.

Entre vários outros casos posso lembrar de um ou outro envolvendo Ayrton Senna em seus tempos de Lotus. Naquela época as equipes podiam levar um carro-reserva para as corridas e no começo do ano ficou acertado que o uso do monoposto-reserva seria feito em esquema alternado: em uma corrida seria de Ayrton e na seguinte, de Elio De Angelis.
Em Detroit, onde a prova era disputada num circuito de rua, condição que aumenta os riscos de batidas, De Angelis tinha direito sobre o Lotus 97T Renault sobressalente. Quando perguntei a Ayrton sobre isso sua resposta, impublicável, foi algo próximo de “nem podendo”…. Ayrton foi três vezes campeão mundial. De Angelis, um aristocrata italiano finamente educado, venceu três GPs: Argentina 1979 Áustria 1983 e San Marino, 1985.

Em 2024 Lando Norris era o piloto em melhores condições de disputar o título, que acabou nas mãos de Max Verstappen, mas no GP da Hungria aconteceu um precedente ao fato registrado em Monza, no último domingo. Na corrida húngara o inglês conquistou a pole position, mas largou mal e foi superado por Oscar Piastri. Durante as paradas nos boxes essas colocações foram invertidas e a equipe ordenou a inversão de posições, algo que Norris tentou discretamente evitar. Ele só foi demovido da ideia quando Andrea Stella lembrou-o que “você ainda vai precisar dele…”. A mudança foi realizada e garantiu a Piastri sua primeira vitória na F-1.

Este ano Piastri lidera o campeonato, mas a profecia tornou-se realidade em Monza. Nessa corrida Norris liderava e perdeu a ponta por causa de uma parada de box mal efetuada, mas acabou recuperando a liderança após uma ordem de box similar a aquela registrada um ano antes, em Hungaroring. Uma bela demonstração de ética e retidão. Algo bem diferente do que aconteceu em Singapura em 2008. Nesse GP Nelsinho Piquet foi levado a provocar um acidente para facilitar o caminho de Fernando Alonso rumo à vitória.
Após um tardio processo, Flaávio Briatore foi, inicialmente, banido permanentemente da F-1 e seu braço direito Pat Symmonds, por um período longo. Os dois estão de volta ao mundo dos Grandes Prêmios…
O resultado completo do GP da Itália você encontra aqui.
WG
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