A Toyota apresentou algo que vai muito além do lançamento de três novos esportivos. Ela decidiu revisitar sua própria essência e reinterpretar símbolos que moldaram sua história. Os GR GT, GR GT3 (note que esses modelos não têm o nome nem logos Toyota) e o novo Lexus LFA Concept formam uma tríade moderna que pretende ocupar o lugar simbólico que um dia foi do 2000GT e do primeiro LFA, revelando a ambição de preservar a alma esportiva da marca enquanto ela se reinventa para o futuro. Vale lembrar que a Toyota já teve outros esportivos marcantes, como Supra e Celica, além de MR2, AE86, GT86 depois GR86 e, mais recentemente, os GR Yaris e GR Corolla.

Mesmo assim, Akio Toyoda nunca esteve plenamente satisfeito com o nível de emoção transmitido pelos carros da marca. Ele assumiu a liderança da Toyota num momento em que a empresa era referência absoluta em qualidade e eficiência, mas já carregava a fama de fazer carros pouco emocionantes. Muito antes de se tornar presidente, porém, ele já atuava internamente como uma espécie de contraponto a esse excesso de racionalidade.
Foi um dos principais impulsionadores do projeto que acabaria se tornando o Lexus LFA, defendendo que o grupo precisava de um esportivo de altíssimo nível, capaz de mostrar ao mundo tudo o que a engenharia da Toyota e da Lexus podia fazer quando não estava limitada por planilhas de custo ou por metas de volume. A insistência em elevar o padrão levou, por exemplo, à mudança da estrutura de alumínio para fibra de carbono, algo que prolongou o desenvolvimento, mas que foi decisivo para que o LFA nascesse como um verdadeiro marco.
Quando assume a presidência, ele leva essa mesma filosofia para o centro da estratégia corporativa. Sob seu comando, a Toyota cria a Gazoo Racing como braço esportivo estruturado, retoma esportivos de nome forte como o Supra, desenvolve projetos de nicho como o GR Yaris e, gradualmente, recoloca o prazer de dirigir como prioridade de engenharia. A ideia deixa de ser apenas fazer o carro mais confiável e eficiente da categoria para também buscar aquele ajuste fino de chassi, direção, freios e resposta de motor que transforma condução em experiência.
Para sustentar essa mudança, Akio Toyoda decide viver o processo na pele. Começa a treinar de forma sistemática, participa de provas de longa duração, incluindo Nürburgring, e segue o rigoroso caminho interno até obter a certificação de master driver, o grau máximo dentro da hierarquia de pilotos de desenvolvimento da empresa. Não é um título protocolar. Ele passa a ser, de fato, uma referência dinâmica, capaz de apontar nuances de comportamento que os engenheiros precisavam traduzir em ajustes de suspensão, de rigidez, de calibração de direção ou de motor. A combinação dessas duas dimensões, a visão estratégica e a vivência ao volante, é o que explica por que, na era Akio Toyoda, a Toyota recupera um lado emocional que estava adormecido havia décadas.

Quando atua como piloto de testes e competições dentro da Gazoo Racing, ele usa o codinome Morizo para separar sua figura de presidente da Toyota da sua identidade de condutor e avaliador, permitindo que participe das atividades em pista de maneira mais livre, sem a formalidade que acompanha seu cargo.
Voltando aos novos modelos, por trás da apresentação existe uma ideia profundamente japonesa, o “Shikinen Sengu”, o ritual xintoísta em que templos são reconstruídos de tempos em tempos para transmitir o saber fazer às novas gerações. A Toyota decidiu aplicar esse mesmo princípio aos seus esportivos. Preserva o que importa, renova o que precisa evoluir e usa essa tríade como uma forma de passar adiante o seu “molho secreto” de projeto e engenharia.
GR GT
O GR GT nasce como o modelo que representa a Gazoo Racing, concebido para levar adiante a filosofia de criar carros moldados pelas pistas. Desde o início, o projeto foi conduzido com a participação direta de pilotos experientes, incluindo o Master Driver Morizo, além de profissionais como Tatsuya Kataoka, Hiroaki Ishiura, Naoya Gamo e do gentleman driver Daisuke Toyoda. O desenvolvimento partiu do ponto de vista do motorista e começou pela posição de dirigir, algo que influenciou todo o arranjo técnico. O modelo continua em refinamento constante e percorre repetidas vezes o ciclo típico dos produtos GR.
A plataforma adota motor dianteiro e tração traseira, centro de gravidade extremamente baixo e o primeiro chassi integral de alumínio da Toyota, combinação criada para unir rigidez e leveza. O motor é um V-8 de 4 litros biturbo com lubrificação por cárter seco. O conjunto mecânico inclui um tubo de torque de compósito de fibra de carbono e um transeixo traseiro que integra câmbio automático de oito marchas, motor elétrico e diferencial autobloqueante mecânico. O resultado buscado é um comportamento direto, comunicativo e acessível a motoristas de níveis variados.
GR GT3
O GR GT3 deriva diretamente do GR GT e foi desenvolvido para competir nas categorias internacionais de FIA GT3, o mais alto nível automobilístico de clientes baseado em carros de produção. A Toyota adotou a mesma abordagem centrada no piloto, buscando criar um carro competitivo para equipes profissionais e previsível o suficiente para gentleman drivers. O chassi mantém a estrutura espacial de alumínio em posição baixa, com suspensão de duplo A montada para maximizar precisão e estabilidade.
O motor é o mesmo V-8 4-litros biturbo utilizado no GR GT, calibrado para atender às regulamentações da categoria. O objetivo vai além de entregar desempenho. A Toyota prepara uma estrutura global de suporte técnico para as equipes que disputarem campeonatos GT3 com o modelo, reforçando a intenção de atuar de forma consistente no automobilismo de clientes.
Lexus LFA Concept
O Lexus LFA Concept representa a visão da marca para um esportivo elétrico que preserve o espírito do LFA original. Ele foi desenvolvido num esquema totalmente integrado, com participação de Morizo, e busca equilibrar proporções, pureza de estilo e comportamento dinâmico refinado. A ideia é mostrar que um modelo elétrico a bateria pode oferecer emoção ao volante e precisão de condução. A Lexus trata o conceito como uma vitrine de técnicas e conhecimentos que considera fundamentais preservar para o futuro e assume o desafio de redefinir a percepção de que esportivos elétricos ainda estariam em estágio inicial.
O LFA Concept tenta apontar caminhos para uma nova geração de carros de alto nível, capazes de unir tradição esportiva e eletrificação avançada. Eu já li comentários sobre a besteira de ter eliminado o V-10. Mas eu acredito que esse carro será realmente especial, mesmo sem o V-10.
Eu assisti a transmissão ao vivo da apresentação dos modelos. Foi muito bacana o jeito autêntico como foi feito, e por isso escolhi transcrever a apresentação por completo, com Simon Humphries e Akio Toyoda, explicando a filosofia, as motivações e o espírito por trás dessa nova tríade de esportivos.
Apresentação – Simon Humphries: Diretor Executivo de Marca

Bom dia a todos.
Obrigado por dedicarem tempo e esforço para vir até a Fábrica Higashi-Fuji da Toyota, aqui no leste do Japão. Originalmente, isto era uma estamparia.
E, como alguns de vocês sabem, foi a fábrica onde Shoichiro Toyoda e Kenya Nakamura criaram o primeiro Century, em 1967.
O espírito de invenção que nasceu aqui hoje renasce como a Inventor’s Garage de Woven City, uma instalação voltada para criar o futuro.
Hoje celebramos não apenas a invenção, mas algo que todos nós amamos: uma celebração do automóvel. A emoção, o entusiasmo, o amor pela velocidade, tudo aquilo que cada pessoa nesta sala e todos que assistem on-line compartilham como paixão.
Mas, como em muitas coisas na vida, uma história de força começa com uma história de humilhação, algo que em japonês se chama kuyashisa.
Eu quero contar isso a partir de dois pontos de vista.
Sou designer há 36 anos, e posso dizer com sinceridade que não há nada mais doloroso para um designer do que ouvir que algo no qual você colocou coração e alma é “entediante”.
Quatorze anos atrás, em Pebble Beach, nos Estados Unidos, foi exatamente isso que aconteceu com Akio quando ouviu: “Lexus é entediante”.
Aquele sentimento de humilhação foi um divisor de águas. Tornou-se determinação.
Depois disso, Akio se levantou e fez uma promessa:
“Chega de carros entediantes.”
E, quando fomos consultá-lo sobre como apresentar este carro (o LFA Concept) em Pebble Beach neste ano, a resposta dele foi simples:
“Apenas coloquem lá e deixem o carro falar por si.”
Foi exatamente o que fizemos. Sem explicações, deixamos que as pessoas formassem suas próprias opiniões.
E posso dizer com satisfação que, neste ano, em Pebble Beach, ninguém disse que a Lexus era entediante.
Ser inovador, ousado, original, ajudar nossos clientes a descobrir… isso é o que define a Lexus.
Com este carro, queríamos proporcionar um novo nível de imersão sensorial.
A postura, as proporções dramáticas, as soluções técnicas… tudo isso sob uma altura inferior a 1.200 mm.
Um enorme desafio para qualquer esportivo.
E, quando estiver pronto, este carro responderá ao último pedido de Akio: redefinir completamente o som de um esportivo elétrico.
Mas este carro só existe por causa de outra história.
E isso nos leva à segunda humilhação, desta vez nas pistas.
Akio me contou que, há 20 anos, em Nürburgring, viveu uma experiência que jamais esqueceu.
Não se tratava de ser ultrapassado ou de não vencer.
Ele percebeu que outros fabricantes estavam usando as corridas para nutrir novas tecnologias, novos produtos e as pessoas que os fazem.
Protótipos camuflados, nunca vistos antes, sendo levados ao limite no circuito mais desafiador do mundo.
Naquela época, a Toyota sequer tentava fazer um carro capaz de competir em Nürburgring.
Não tínhamos nem um esportivo à venda.
Então Akio, ao lado do piloto de testes Naruse-san, acabou pilotando um Supra antigo, sob o codinome Morizo, com sua equipe particular, a Gazoo Racing.
A cada vez que ele dava passagem para outro protótipo de desenvolvimento, era como se dissessem:
“Vocês da Toyota nunca conseguirão fazer um carro como este!”
Aquilo foi o passado. E isto aqui é o presente.
O GR GT e seu irmão de corrida, o GR GT3, junto com o novo Lexus LFA Concept, formam agora o ápice esportivo da Lexus e da Gazoo Racing.
Todos vindos de uma mesma plataforma voltada a corridas. Todos parte da promessa de Akio:
“Carros sem graçã não mais”.
O GT3, categoria onde essa história começa, é para quem quer vencer — profissionais ou pilotos independentes.
E tudo começa pela velocidade. Sem velocidade, não há nada.
O GR GT3 nasceu com isso: V-8 4-itros biturbo, chassi de alumínio extremamente rígido, centro de gravidade baixíssimo e aerodinâmica refinada.
Mas velocidade não basta.
A verdadeira arte está em controlar a velocidade.
Como diz Morizo, no mundo real tudo se resume a kaiwa, a conversa entre carro e piloto.
Ele deve transmitir confiança em todas as situações.
É o feedback certo no momento certo, que permite ao piloto tomar decisões em frações de segundo.
O GR GT fala tanto ao piloto profissional quanto ao entusiasta, seja a mesma pessoa ou suas duas personalidades.
E parte essencial dessa conversa é o som.
Não só na aceleração, mas também na desaceleração e na frenagem.
Os engenheiros buscaram recriar uma experiência visceral nos momentos em que você tira o pé do acelerador.
A versão de rua usa o mesmo V-8 biturbo, agora com sistema híbrido.
Um carro de pista, mas também um carro para o dia a dia.
Banco perfeito, dinâmica refinada, usável na cidade e brutal no autódromo.
Akio ama automobilismo.
Em uma equipe de corrida não há hierarquia.
Todos estão nos boxes juntos.
E estes três carros nasceram para levar emoção tanto a pilotos experientes quanto a uma nova geração de apaixonados.
Seja o V-8 biturbo com combustível convencional ou combustível ecológico, seja um futuro elétrico como o LFA, a missão é manter viva a alegria de dirigir no limite da capacidade humana.
Nos últimos 14 anos, todas as marcas do Grupo Toyota renasceram emocionalmente.
O design, a engenharia, os processos… tudo mudou.
E, com Akio atuando como Master Driver, temos liberdade para transformar cada história em realidade.
Mesmo com quase 70 anos, neste ano Akio voltou para onde tudo começou: a 24 Horas de Nürburgring.
E, com esses três carros diante dele, posso garantir que ele não vai se afastar tão cedo.
Senhoras e senhores, com vocês: Akio Toyoda!
Apresentação – Akio Toyoda: Presidente do Conselho de Administração

Trinta anos atrás, éramos apenas Naruse-san e eu, mergulhados na criação de carros.
Pouco a pouco, pessoas com a mesma paixão foram se juntando.
Quando o LFA ficou pronto, Naruse-san, com um sorriso que eu nunca tinha visto, disse:
“É a primeira vez que consegui pilotar Nürburgring olhando só para frente.”
Até então, éramos constantemente ultrapassados.
De repente, tínhamos um carro capaz de ultrapassar outros.
Eu sentia o quanto ele estava genuinamente feliz.
Mas isso não eliminou a humilhação.
O LFA entrou em produção limitada.
Ganhávamos corridas, mas apenas na classe.
Ainda havia muitos carros mais rápidos.
E eu continuava ouvindo:
“Não existe chance de a Toyota fazer um carro assim.”
Nunca vou esquecer aquele sentimento.
E essa dor é o que ainda me impulsiona.
Quinze anos atrás, herdei o papel de Master Driver.
Naruse-san me deixou o “molho secreto” de fazer carros, criado a partir da nossa dor.
E também deixou colegas que compartilhavam aquela mesma frustração.
Usamos isso como combustível para criar carros cada vez melhores.
GR86, GR Supra, GR Yaris, GR Corolla, motor a hidrogênio, Super Taikyu, Nürburgring…
E agora estes carros.
Hoje, tenho muitos colegas que compartilham essa convicção.
A eles, quero confiar o futuro da nossa criação de automóveis.
E quero trabalhar junto com eles para que nosso “molho secreto” seja transmitido às próximas gerações.
Minha vida sempre foi uma sequência de batalhas.
E o papel que encontrei foi o de ser a última barreira de proteção – não como presidente ou chairman, mas como alguém que garante que meus colegas tenham um ambiente seguro para evoluir e se tornarem ainda melhores.
Eu sou quem os protege.
E, para garantir isso, Morizo continuará ativo enquanto eu puder ficar de pé.
Muito obrigado por terem vindo hoje.
Bem, de fato os carros da Toyota de hoje já têm um pouco mais de emoção. Talvez ainda não o suficiente, mas a melhoria é notória. O que eu acho que ainda falta é que essa emoção se permeie por todos os empregados da Toyota pelo mundo. Assim como o próprio Japão, a Toyota é um paradoxo. Quer ter o máximo da racionalidade com emoção. Acho que todos nós só temos a agradecer ao Akio-san por essa nova cultura e esses novos carros.
Mas antes de terminar, deixo duas explicações que acho interessantes.
Hiromu Naruse, mencionado pelo Akio, foi o lendário piloto de testes da Toyota, responsável por moldar o comportamento dinâmico de esportivos como o 2000GT, os primeiros Supra, os Celica GT-Four e sobretudo o LFA. Mentor de Akio Toyoda no caminho para se tornar master driver, Naruse era conhecido pela sensibilidade excepcional ao volante e pela capacidade de traduzir nuances de chassi em soluções de engenharia. Ele acompanhou o LFA desde os primeiros protótipos e liderou sua calibração final, mas morreu em 2010 durante testes ao volante de um LFA, deixando um legado profundo na cultura esportiva da Toyota.

O nome Gazoo nasceu no fim dos anos 1990 com o site Gazoo.com, um portal criado pela Toyota que reunia, em forma de “quadros” de imagens, os carros em estoque nas concessionárias; o termo veio de gazo em japonês, que significa “imagem” ou “foto”, depois reinterpretado pela própria Toyota como a combinação de gazo (imagem) e gareji (garagem). Esse nome do portal foi emprestado para a pequena equipe que Akio Toyoda montou para correr em Nürburgring, a Team Gazoo, e acabou evoluindo até se tornar a marca Toyota Gazoo Racing que conhecemos hoje.
PM
FICHA TÉCNICA GR GT
(valores de desenvolvimento de protótipo, medições internas)
Dimensões
Comprimento: 4.820 mm
Largura: 2.000 mm
Altura: 1.195 mm
Entre eixos: 2.725 mm
Estrutura e ocupação
Estrutura: chassi integral de alumínio
Ocupação: 2 lugares
Peso: 1.750 kg ou menos
Distribuição de peso: 45 percentual dianteira, 55 percentual traseira
Motorização e transmissão
Cilindrada: 3.998 cm³
Diâmetro x curso: 87,5 × 83,1 mm
Configuração: V-8
Alimentação: biturbo
Sistema híbrido: motor elétrico integrado ao transeixo
Caixa de câmbio: automática de 8 marchas, desenvolvimento novo
Potência máxima do sistema: 650 cv ou mais
Torque máximo do sistema: 86,7 m·kgf ou mais
Conjunto dinâmico
Tração: motor dianteiro, tração traseira
Suspensão dianteira: duplo A com mola helicoidal
Suspensão traseira: duplo A com mola helicoidal
Freios dianteiros: discos carbono cerâmica
Freios traseiros: discos carbono cerâmica
Pneus dianteiros: 265/35 ZR20
Pneus traseiros: 325/30 ZR20
Desempenho
Velocidade máxima: 320 km/h ou superior
FICHA TÉCNICA GR GT3
(valores de desenvolvimento de protótipo, medições internas)
Dimensões
Comprimento: 4.785 mm
Largura: 2.050 mm
Altura: 1.090 mm
Motorização
Cilindrada: 3.998 cm³
Configuração: V-8
Alimentação: biturbo
Conjunto dinâmico
Tração: motor dianteiro, tração traseira








