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Home Matérias Automobilismo

O QUE MUDA NA F-1 2026?

NOVA ARQUITETURA TÉCNICA, MAIS ELETRICIDADE, AERODINÂMICA ATIVA, ADEUS DRS, CARROS MENORES E MAIOR DECISÃO NAS MÃOS DOS PILOTOS

identicon por Gerson Borini
19/12/2025
em Automobilismo, Curva 3, GB
Fotos: divulgação FIA F-1

Fotos: divulgação FIA F-1







A Fórmula 1 entrará em 2026 com a reformulação técnica mais profunda desde a adoção dos V6 turbo híbridos em 2014. O novo regulamento não apenas redesenha o carro, mas redefine a lógica de potência, armazenamento e aplicação de energia, interação aerodinâmica, ultrapassagem e tomada de decisão em corrida. É uma mudança estrutural que altera o papel das equipes e devolve protagonismo ao piloto.

A diretriz da FIA e da FOM é explícita: combustível 100% sustentável, simplificação operacional para fabricantes, carros mais compactos e corridas menos dependentes de soluções artificiais. A ultrapassagem deverá ser consequência de gestão energética e aerodinâmica móvel, não de zonas fixas.

O efeito combinado prevê carros mais ágeis, mais elétricos, e que exigem leitura constante de energia disponível, vácuo do carro à frente e arrasto. A operação muda.

Unidade de potência: sai o MGU-H e aumenta o MGU-K

O V6 1,6-l turbo permanece, porém com reequilíbrio estrutural. O MGU-H — responsável pela recuperação térmica — é removido, reduzindo complexidade, custo e barreiras de entrada. Em contrapartida, o MGU-K assume papel central: sua potência sobe substancialmente e passa a responder por parcela equivalente ao motor a combustão, aproximando a arquitetura de uma proporção 50/50 entre térmico e elétrico.

.

Esse equilíbrio exige baterias maiores, software de gerenciamento de torque mais sofisticado e monitoramento dinâmico da recuperação de energia. O combustível passa a ser integralmente sustentável e a gestão energética define os mapas e parâmetros de combustão, não mais o volume de combustível.

Na prática, o motor térmico deixa de dominar: aceleração, retomadas e capacidade de ataque dependerão do componente elétrico e do uso estratégico da bateria.

Dimensões: carros menores, menor massa, menor arrasto

A mudança dimensional deixou de ser conceito e virou métrica. Os novos carros ficam 30 kg mais leves, com meta regulamentar de 724 kg incluindo pneus, revertendo parcialmente o aumento contínuo de massa desde 2017. O entre-eixos encolhe 200 mm, chegando a 3.400 mm, a largura diminui 100 mm, e o piso perde 150 mm de largura estrutural.

O plano aerodinâmico também se contrai:
• a asa dianteira fica 100 mm mais estreita, agora com flap ativo bi-elemento;
• a asa traseira passa a três elementos ativos;
• a asa dupla (beam wing) é abolida e as extensões laterais (endplates) são simplificados;
• os elementos de carenagem ao redor das rodas passam a ser proibidos;
• as abas ou “sobrancelhas” aerodinâmicas posicionadas acima da roda dianteira, introduzidos em 2022, desaparecem.

Do ponto de vista aerodinâmico, a queda de carga projetada é de ~30%, enquanto o arrasto cai mais agressivamente, ~55%, alterando a relação entre velocidade de curva e velocidade de reta. Os carros deverão ser menos eficientes em apoio máximo, porém mais rápidos na saída e sustentação da reta. Passando a ter um perfil mais compatível com uso intensivo da potência de motor elétrico.

Gestão de vácuo: 90% de eficiência a 20 metros

O problema crônico de turbulência volta a ser atacado com engenharia mensurável. Em 2019, um carro perseguidor mantinha por volta de 50% do downforce a 20 metros. Com os primeiros carros 2022, o índice saltou para ~80–85%, voltou a cair com o desenvolvimento aerodinâmico para algo em torno de ~70% hoje.

Para 2026, a FIA estima início de ciclo com ~90% de retenção de eficiência aerodinâmica a 20 metros, uma marca inédita. É um salto técnico que explica o potencial dos carros andarem mais pertos um do outo, frenagem mais próxima e maior probabilidade de ataque e ultrapassagens sucessivas.

Aerodinâmica ativa: DRS aposentado

Após quinze anos, o DRS será removido. O aumento de velocidade em reta passa a ser gerenciada por asas dianteira e traseira móveis operando em dois regimes básicos: baixo arrasto em retas e alto apoio em curvas.

Para melhor entendimento, o DRS é o artifício utilizado para diminuir o arrasto aerodinâmico em retas, através da mudança de ângulo de parte do aerofólio traseiro. O conjunto era totalmente fixo e somente uma parte alterava o ângulo ao comando do piloto quando a menos de 1 segundo do carro à frente em determinado trecho da pista.

Diferentemente do DRS, o acionamento não depende de delta de tempo nem de posição relativa a outro carro. Cada pista terá pontos previamente definidos com comprimento mínimo de reta, e qualquer piloto poderá ativar a configuração de baixo arrasto, independentemente de adversário estar a um segundo de separção.

A aerodinâmica móvel passa a operar em conjunto com a liberação energética — não substitui o sistema híbrido, mas amplifica sua aplicabilidade. Para o público, desaparece a ultrapassagem “pré-programada”. Entra em cena uma cadeia decisória: ãngulo de incidência da asa, estado de bateria, momento de ataque, temperatura de pneu e leitura de espaço. A diferença competitiva poderá vir tanto de eficiência aerodinâmica quanto de confiabilidade dos atuadores e do software embarcado.

Gestão de corrida

O novo vocabulário técnico estrutura a aplicação de energia:

  • Boost Mode – libera pico térmico + elétrico, com janela curta de potência.
  • Active Aero – alinhamento dinâmico de asas conforme mapa escolhido.
  • Recharge – prioriza recuperação para ciclos futuros de ataque.

E o Overtake Mode, substituto estratégico do DRS, passa a operar com parâmetros objetivos:
• libera +0,5 MJ adicionais quando o piloto estiver dentro de 1s do carro à frente;
• o carro líder passa a ter corte e redução de entrega elétrica após ~290 km/h;
• o perseguidor pode utilizar até 476 cv (350 kW) plenos até ~337 km/h.

A ultrapassagem deixa de ser binária e passa a ser probabilística. Quem desperdiça energia cedo fica exposto. Quem acumula demais pode não ter janela de ataque. A dinâmica aproxima a F-1 da lógica de corridas de longa duração, porém com intensidade de corrida curta.

Dimensão competitiva

O rearranjo energético e financeiro abriu o grid. A temporada 2026 terá cinco fornecedores de unidade de potência:
– Mercedes
– Ferrari
– Honda
– Audi (estreia formal)
– Ford, em parceria com Red Bull Powertrains, atendendo Red Bull e Racing Bulls

Além disso, pela primeira vez desde 2016 (Haas), a F-1 recebe um novo construtor completo: Cadillac, iniciando 2026 com PU Ferrari, mas com homologação oficial pela FIA para produzir sua própria unidade a partir de 2029, via GM Performance Power Units.

Esse redesenho competitivo pode gerar assimetrias relevantes no primeiro ciclo de desenvolvimento.

Cadillac já está fazendo os testes obrigatória da FIA

Sustentabilidade auditada

Os 10% elétricos de 2014 evoluíram para quase 50:50 térmico-elétrico em 2026 — e a FIA trocou narrativa por rastreabilidade. Todo combustível será derivado de fontes renováveis não-alimentares ou resíduos, seguindo limite certificado de emissões. A auditagem externa é responsabilidade do esquema independente SRFAS (Sustainable Racing Fuel Assurance Scheme), que valida origem, cadeia de fornecimento, composição e performance de gases.

Ou seja: não é marketing — é conformidade técnica verificável.

Segurança: estrutura, energia e sinalização

O pacote introduz novos testes de impacto frontal e lateral, reforços estruturais e luzes externas obrigatórias que indicam estado elétrico em frenagens emergenciais ou abandono. Os números são claros:
• “santantônio” sobe sua resistência de 16G para 20G;
• cargas estruturais de teste sobem de 1.380 kgf para 1.636 kgf;
• luzes laterais passam a indicar estado elétrico;
• placas laterais da asa traseira incorporam iluminação homologada.

A fibra exposta ficará limitada por regras de pintura mínima, reduzindo o “jogo dos gramas”. No cockpit, sistemas adicionais de refrigeração auxiliarão os piloto a suportar as condições extremas. A sinalização elétrica agiliza resposta médica e técnica, reduzindo risco.

Impacto operacional

O foco passa a ser integração eletrônica. Software deixa de ser suporte e passa a definir desempenho. O diálogo entre aerodinâmica, baterias, gerenciamento térmico e telemetria operacional se torna contínuo.

A ultrapassagem volta a depender da pilotagem, mas apoiada por leitura energética e momento aerodinâmico, não apenas frenagem tardia.

Riscos e oportunidades

Se o modelo funcionar, entregará:
• ultrapassagens orgânicas;
• menor dependência de zonas artificiais;
• decisões por volta sobre armazenamento, aplicação e abertura aerodinâmica;
• carros menores e mais reativos;
• temperatura e pneus como pilares estratégicos;
• tráfego mais ativo;
• assimetrias entre fabricantes — principalmente software, regeneração e confiabilidade aerodinâmica.

Se houver assimetrias de desenvolvimento — especialmente no gerenciamento de torque, na eficiência de regeneração ou na confiabilidade aerodinâmica — a diferença entre fabricantes poderá ser significativa. A curva de desenvolvimento determinará quem irá liderar as primeiras voltas.

Conclusão

A F-1 entra em um ciclo mais elétrico, mais leve e menos previsível. Em 2026, a disputa por posição deverá voltar ao campo decisório do piloto: aplicar, defender, poupar, arriscar. Se entregar o que promete, veremos ultrapassagens decididas na leitura do momento, e nem sempre favoráveis ao ultrapassado. A conferir!

GB

Resumo Técnico – F1 2026

  • Carros menores e mais leves: –30 kg; meta de 724 kg; entre-eixos –200 mm; largura –100 mm.
  • Aerodinâmica ativa: asas dianteira e traseira móveis substituem o DRS com modos de reta e curva.
  • Queda de apoio e arrasto: downforce –30%; drag –55%, favorecendo velocidade de reta.
  • Gestão da esteira aerodinâmica: perseguidor deve manter ~90% do desempenho a 20 metros.
  • Poder híbrido ampliado: arquitetura ~50% térmico / 50% elétrico; aumento do MGU-K; MGU-H abolido.
  • Ultrapassagem por energia: Overtake Mode com +0,5 MJ extras; 476 cv (350 kW) até ~337 km/h para o perseguidor.
  • Combustível sustentável: 100% renovável, rastreado e auditado por certificação independente.
  • Novos players competitivos: Audi e Ford entram via unidades de potência; Honda permanece; Cadillac estreia como construtor.
  • Segurança reforçada: arco de segurança +20 G; cargas estruturais de teste elevadas; luzes externas indicam status elétrico.

 







Tags: aerodinâmica ativaAudi F1Cadillac F1F1 2026F1 eletrificaçãoFIA 2026Ford Red BullFormula 1 2026Honda Aston MartinMGU-Knovo regulamento F1over­take mode
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Foto: Ford/divulgação

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