Se tem uma coisa de que eu gosto são anúncios antigos. E este, em especial, sempre me intrigou.
Publicado no fim dos anos 1970, o anúncio traz a assinatura Volkswagenwerk AG ao lado de toda a linha Dodge vendida no Brasil. Uma foto interessante, um texto longo e direto. Nada nele chama atenção pelo layout ou pela criatividade publicitária. O que salta aos olhos é o contexto.
O simples fato de um anúncio de Dodge ser assinado pela Volkswagen já indicava que algo profundo estava mudando.
Naquele momento a Chrysler do Brasil já havia passado ao controle da Volkswagen. O mercado sabia. As concessionárias sabiam. O consumidor desconfiava. E num Brasil de mercado fechado, inflação elevada e poucas alternativas, comprar um carro que pudesse se tornar órfão era uma decisão séria. O anúncio surge exatamente para isso. A Volkswagen precisava acalmar os clientes da Dodge.
Abaixo, a transcrição integral do texto do anúncio, revisada apenas em pontuação e padronização editorial, preservada como documento histórico.

O que vai acontecer com esses carros e caminhões?
Pergunte a quem assina este anúncio.
Primeira pergunta a ser feita:
o que esses Dodges estão fazendo em um anúncio da Volkswagenwerk?
A resposta é simples: eles agora são Volkswagenwerk.
E, se você está concluindo que por isso eles vão sair de linha, temos uma palavra a dizer: não. Um grande e enfático não, que vai ocupar todo o resto deste anúncio.
Estamos ampliando as linhas de montagem e os quadros técnicos da Chrysler Motors do Brasil. Estabelecemos um rígido controle de qualidade em cada fase da montagem, de acordo com os padrões da nossa matriz alemã.
E o resultado disso já pode ser comprovado.
Dart, Charger, Le Baron e Magnum já se encontram nos revendedores Chrysler, equipados, opcionalmente, com a nova e econômica transmissão automática Lock Up, inédita no país. Você já pode também sentir as emoções do mais sofisticado e exclusivo opcional apresentado pelo Dodge Magnum: o Sun Roof. Um teto solar de vidro espelhado, com acionamento automático.
Tudo isso sem falar na transmissão automática que vai equipar o Polara. Dentro de bem pouco tempo, ele será o primeiro carro médio brasileiro a oferecer esse opcional.
E o que é mais importante: toda essa evolução está ocorrendo sob a supervisão e os padrões de uma das engenharias mais avançadas e exigentes do mundo, a da Volkswagenwerk.
Se você quer saber mais alguma coisa, dê um pulo hoje mesmo em um revendedor Chrysler para conhecer de perto todas as novidades da linha Dodge.
Sabe o que vai acontecer com esses carros e caminhões?
Um deles vai ganhar uma vaga na sua garagem.
VOLKSWAGENWERK AG
Vale uma breve explicação. Volkswagenwerk AG significa Fábrica Volkswagen S.A. em alemão. Nascida estatal em 1937. chamava-se simplesmente Volkswagenwerk. Terminada a Segunda Guerra Mundial a administração da Volkswagenwerk passou para as forças de ocupação britânicas. Em 21 de junho de 1960 o parlamento da Alemanha Ocidental aprovou lei que privatizava a Volkswagenwerk transformando-a em sociedade anônima — Aktiengesellschaft (AG) — e autorizando a venda de 60% das ações ao público. Apesar da privatização, o estado alemão e o estado da Baixa Saxônia ficaram com 20% das ações cada.
Volkswagen não era só marca, mas todo o complexo industrial e de engenharia alemã que com o tempo se expandiria para outras fabricantes sob seu controle como Audi, Porsche, Škoda, SEAT e outras que formam o grupo Volkswagen. Assinar um anúncio com esse nome carregava peso institucional, autoridade industrial e confiança de longo prazo.
A Chrysler chegou ao Brasil em 1969 com ambição grande. Trouxe carros grandes, motores V-8, uma estética claramente americana e um posicionamento associado a status, robustez e presença. Dart, Charger e Magnum ocuparam um espaço que nenhuma outra fabricante, exceto a Ford com o Galaxie 500, em 1967, explorava daquela forma no mercado nacional.
Mas os anos 1970 mudaram o jogo. A crise do petróleo, os custos elevados, um mercado cada vez mais sensível a consumo e eficiência, além das dificuldades financeiras globais da própria Chrysler, minaram a operação. A filial brasileira começou a perder fôlego justamente quando exigia mais investimento, mais atualização técnica e maior adaptação ao novo perfil do consumidor.
É nesse cenário que a Volkswagen entra. Primeiro como sócia majoritária, depois como controladora total da Chrysler do Brasil. A leitura estratégica era pragmática. A Volkswagen via valor na estrutura industrial, na engenharia local e, sobretudo, na divisão de caminhões. Ali havia futuro. Nos automóveis Dodge, não.
O anúncio tenta construir uma ponte entre esses dois mundos. Ele fala de continuidade, evolução e padrões alemães, mas já nasce dentro de um processo de transição que tinha destino definido. A Volkswagen não precisava, nem pretendia, sustentar uma linha de automóveis que competisse por recursos com seus próprios produtos no Brasil. Nesse sentido, o discurso do anúncio não foi exatamente honesto.
“E, se você está concluindo que por isso eles vão sair de linha, temos uma palavra a dizer: não. Um grande e enfático não, que vai ocupar todo o resto deste anúncio.” (Frase do anúncio)
Poucos anos depois, em 1981, a produção dos automóveis Dodge foi encerrada. A Chrysler do Brasil deixou de existir como fabricante de carros de passeio. O que permaneceu foi a base industrial que daria origem à Volkswagen Caminhões, hoje uma das operações mais relevantes do grupo no país.
Visto hoje, esse anúncio é um documento histórico. Ele marca o instante em que a Dodge ainda estava presente, mas já não tinha futuro. Um momento em que a indústria precisava ganhar tempo, acalmar o mercado e preparar o terreno para o que viria depois. Difícil imaginar, mesmo naquela época, que a Volkswagen continuaria fabricando carros da Chrysler no Brasil.
Resta a pergunta: será que esse anúncio fez alguém realmente acreditar nessa possibilidade?
Para completar o raciocínio, vale lembrar que essa não foi a primeira vez que a Volkswagen recorreu a esse tipo de discurso no Brasil. O anúncio da parceria entre Volkswagen e Vemag, que prometia que mais pessoas comprariam Volkswagen e mais pessoas comprariam DKW, usava a imagem da convivência e da soma de forças como argumento central. O que ele não mostrava era o desfecho.

A Volkswagen adquiriu a Vemag em agosto de 1966 e, pouco mais de um ano depois, em novembro de 1967, a produção dos automóveis DKW foi encerrada. A estrutura industrial permaneceu, a engenharia foi absorvida e a marca desapareceu do mercado depois de apenas 11 anos.
O DKW de fato não teria chance pois a marca foi descontinuada também no seu país de origem. Mas talvez a Chrysler tivesse uma chance se superasse a crise. Embora a situação da marca Chrysler hoje esteja crítica, a marca Dodge poderia ter continuado no país por muito mais tempo. O que teria sido bem interessante para todos nós.
PM




