Estar presente em Daytona durante todo o final de semana da Rolex 24 Horas é uma experiência que vai muito além da simples cobertura de uma corrida. Desde a quinta-feira, acompanhando treinos livres, classificação e toda a movimentação dos boxes e arquibancadas, fica claro que o evento é, antes de tudo, um grande encontro de apaixonados por automobilismo.

A cada edição, Daytona reafirma seu caráter único: não se trata apenas de uma prova de 24 horas, mas de um evento pensado para todos. Grupos de amigos dividem espaços no interior do Daytona International Speedway, famílias inteiras montam suas estruturas para acampar e acompanhar a corrida noite adentro e crianças crescem respirando o ambiente das provas de longa duração. A harmonia entre competição e o lazer transforma o circuito em uma pequena cidade dedicada ao esporte a motor.
A pista é aberta duas horas antes da largada para que o público visite o grid de largada e é também o momento das fotos e de deixar sua mensagem na pista, e ainda dá tempo do lanchinho no gramado
Do ponto de vista esportivo, a corrida começou com uma tendência que se confirmou ao longo das horas: os carros números 6 e 7 da equipe Porsche de Roger Penske, mesmo sem ter sido a mais rápida na classificação, mostrou desde as primeiras voltas que havia chegado preparada para vencer. A execução estratégica, o ritmo consistente e a leitura correta das neutralizações colocaram o Porsche nº 7 de Felipe Nasr em posição de controle da corrida.

Nas demais categorias, o cenário foi de alternância constante de liderança e disputas intensas, típicas de uma prova em que ritmo, confiabilidade e tráfego pesam tanto quanto velocidade pura.
Na GTD Pro, o brasileiro Daniel Serra teve sua corrida interrompida de forma prematura. Após pouco mais de duas horas de prova, o Ferrari nº 62 sofreu danos importantes na suspensão dianteira esquerda depois de um toque seguido de impacto, obrigando o abandono.
Este não foi o ano dos brasileiros Daniel Serra e Felipe Fraga
Já na GTD, a noite trouxe emoções distintas para os representantes do Brasil. Felipe Fraga, correndo com o Ford Mustang GT3 nº 16 ao lado do ex-piloto de Fórmula 1 Romain Grosjean, abandonou no início do período noturno. Foi nesse momento que o protagonismo brasileiro passou para Dudu Barrichello, que estava entre os primeiros da categoria com o Aston Martin Vantage GT3 Evo nº 27, dividindo o carro com Tom Gamble, Zach Robichon e Marco Drudi.

Na LMP2, os irmãos Enzo e Pietro Fittipaldi dividiram o cockpit do Oreca 07 nº 73 com o canadense Chris Cumming e o português Manuel Espírito Santo, competindo pela Pratt Miller Motorsports. Um toque sofrido durante a prova danificou parcialmente a lateral esquerda da carenagem e o assoalho, comprometendo o desempenho aerodinâmico do protótipo e deixando-os fora da disputa de melhor colocação – terminaram em décimo-primeiro lugar.

O fator decisivo da edição 2026 foi climático. Durante a madrugada, uma densa neblina tomou conta do circuito, reduzindo drasticamente a visibilidade e forçando a direção de prova a manter o Safety Car por mais de quatro horas. A preocupação que havia sido levantada ainda na sexta-feira — temperaturas elevadas e degradação acentuada dos pneus — perdeu relevância. A longa neutralização permitiu que praticamente todas as equipes chegassem às horas finais com jogos de pneus novos disponíveis.

Isso transformou os últimos 80 minutos numa verdadeira corrida sprint após quase 23 horas de prova. Sem restrição crítica de combustível e com pneus em boas condições, os líderes puderam atacar com tudo.
O duelo final entre o Porsche nº 7, pilotado pelo brasileiro Felipe Nasr, e o Cadillac nº 31, conduzido por Jack Aitken, foi eletrizante. O contexto tornava esse confronto ainda mais simbólico: o Cadillac havia sido o carro mais rápido na classificação, mas perdeu o direito de largar na pole position após uma discrepância dimensional detectada no assoalho durante a vistoria técnica, sendo obrigado a largar da última posição da classe GTP. Chegar ao segundo lugar após 24 horas de prova reforçou que era, provavelmente, o carro mais veloz do final de semana — e valorizou ainda mais a defesa firme de Nasr na liderança.

O tráfego não permitia negociação: as ultrapassagens precisavam ser decididas imediatamente. Aitken tentou um ataque decisivo na freada da curva 1, chegando a colocar o carro abaixo da linha amarela dupla, mas Nasr conseguiu se defender e levar o Porsche até a linha de chegada, garantindo a vitória ao lado de seus companheiros de equipe, o francês J. Andlauer e o alemão L. Heinrich.

A conquista teve peso histórico. Foi a terceira vitória consecutiva de Felipe Nasr na categoria principal da Rolex 24 Horas de Daytona e a quarta vitória do brasileiro na prova, considerando também seu triunfo anterior na categoria GT. Mais do que um feito individual, o resultado prolongou uma marca impressionante: esta foi a sexta vitória consecutiva de um piloto brasileiro em Daytona, confirmando a força do país nas corridas de longa duração.

Talvez não seja coincidência. Enfrentar diariamente o trânsito caótico das grandes cidades brasileiras pode ser uma forma particular de treinamento para o endurance: leitura constante de tráfego, tomada rápida de decisão e capacidade de manter a concentração por longos períodos sob pressão são habilidades tão úteis nas ruas quanto em uma corrida de 24 horas.
Momento importante na categoria GTD Pro quando o BMW nº 1 pula de quinto para segundo, deixando Corvette e Porsche para trás em uma ultrapassagem dupla entre as curva 2 e 3 à menos de uma hora do final da prova; certamente foi uma manobra decisiva para a conquista da vitória na categoria
Na GTD, o resultado também foi motivo de comemoração brasileira. Dudu Barrichello concluiu a prova na terceira posição da categoria, coroando sua participação em sua primeira Rolex 24 Horas de Daytona com um pódio importante para sua trajetória internacional e também em sua estreia em competições do campeonato americano, o IMSA.
Alegria da equipe e também do pai Rubens Barrichelo que acompanhou toda semana em Daytona
Um dado simbólico marcou esta edição: nas três categorias com múltiplas marcas, todas as vitórias ficaram com fabricantes alemães — Porsche na GTP, BMW na GTD Pro e Mercedes na GTD. Uma verdadeira “festa alemã” em Daytona, realizada sob condições que levaram muitos a rebatizar o evento informalmente como “Fogtona”, em referência à neblina que dominou a madrugada.
Ao final, fica a certeza de que a Rolex 24 Horas de Daytona segue sendo um dos maiores espetáculos do automobilismo mundial. Não apenas pela qualidade técnica dos carros e pilotos, mas pela capacidade de reunir pessoas, histórias e gerações em torno de uma corrida que dura 24 horas no relógio, uma semana inteira de convivência familiar e deixa memórias para muito mais tempo.
GB
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