Conceito
O desenho do T2 dialoga diretamente com o arquétipo clássico dos suves de vocação fora de estrada, tendo como principal referência o Land Rover Defender moderno. Não se trata de uma cópia literal, mas de uma inspiração na lógica formal que consagrou o Defender como símbolo global de robustez. A carroceria alta e quase cúbica, as superfícies planas, a verticalidade das laterais e da traseira, além da linha de teto reta e contínua, constroem uma silhueta funcional, imediatamente associada a uso severo e aventura, mesmo antes de qualquer análise técnica.
Essa escolha de linguagem não é casual. Ao adotar um desenho que remete a esse arquétipo, a Jetour busca legitimidade instantânea num território visual já consolidado no imaginário do público. O modelo se apresenta como ferramenta, não como crossover estilizado, com para-choques destacados, arcos de roda evidentes e peças baixas sem pintura, reforçando a ideia de resistência e uso despreocupado.
O desenho aponta para o fora de estrada real, criando uma expectativa elevada em relação à capacidade do produto.
E é exatamente por isso que eu acredito que ele deveria ter sido lançado por cima, começando pela versão mais completa e com o máximo da sua capacidade fora de estrada. Isso colocaria imediatamente a Jetour em outro patamar de percepção, reforçando o discurso de marca e estabelecendo um ponto de referência claro para o portfólio. Em vez disso, o T2 estreia no Brasil apenas com tração 4×2. Um desperdício, ainda que a marca já tenha sinalizado a chegada futura da versão 4×4.
Há explicações possíveis para essa escolha. Algumas mercadológicas, como as apresentadas oficialmente pela Jetour, e acredito que outras internas, fáceis de imaginar, como o descompasso entre o cronograma de lançamento da marca no Brasil e a disponibilidade industrial das versões mais complexas. Ainda assim, explicação não é justificativa.
Quando uma marca se define como fora de estrada, existe um compromisso implícito entre discurso e produto. No caso do T2, esse alinhamento não acontece por completo, e o resultado é um ruído difícil de ignorar.
Faço aqui uma ressalva importante. Já estive do lado de lá, trabalhando em diferentes fabricantes, e conheço bem os desafios do ambiente corporativo e as exigências das matrizes. Por essa razão, não há qualquer intenção de desmerecer o trabalho do time da Jetour. O lançamento foi bem conduzido, os produtos são competitivos em especificações e preço, e colocar uma nova marca no mercado com três modelos simultaneamente exige uma coordenação complexa e cuidadosa.
Justificativa ao 4×2
Segundo a Jetour, a decisão de iniciar as vendas do T2 no Brasil apenas com tração 4×2 está diretamente ligada ao perfil de consumo do mercado brasileiro. Dados apresentados pela marca indicam que, dentro do segmento de suves na faixa entre R$ 250 mil e R$ 300 mil, apenas cerca de 20% dos clientes optam por versões com tração nas quatro rodas. Desses, apenas entre 5% e 10% utilizam o carro em situações de fora de estrada mais severo.
A leitura da Jetour é que, para aproximadamente 70% dos consumidores, a tração 4×4 não é um requisito funcional, mas uma consequência de versões mais completas em conteúdo e imagem. A estratégia inicial prioriza eficiência energética, versatilidade familiar e preço competitivo, entendendo que o desenho, a tecnologia embarcada e a proposta híbrida plugável atendem melhor às expectativas do público majoritário. A marca também sinaliza que versões com maior capacidade fora de estrada podem ser avaliadas num segundo momento.

É verdade que o brasileiro, em geral, não liga para tração 4×4, e isso é comprovado em vendas e com os dados acima. Ainda assim, existe uma parcela que precisa ou deseja os 4×4. O Brasil é grande, com estradas ruins, e tecnicamente modelos com tração integral deveriam ter maior penetração. Nesse ponto, acredito que fabricantes que dispõem desse tipo de produto poderiam, e talvez devessem, educar e estimular a adoção do 4×4. Mas essa é apenas a minha leitura.
O T2 4×2
O T2 nasceu, conceitualmente, como um suve de vocação fora de estrada. Isso é evidente no primeiro contato visual e se confirma por uma série de soluções técnicas que fazem pouco sentido em um produto pensado exclusivamente para uso urbano. Mesmo na configuração 4×2 destinada ao Brasil, o modelo preserva atributos estruturais e funcionais típicos de um veículo originalmente concebido para tração nas quatro rodas.
As proporções ajudam a entender isso. O porte é imponente, a altura do solo generosa, as bitolas largas e a postura elevada transmitem robustez imediata.
Os pneus de perfil relativamente alto, montados em rodas grandes, as suspensões aparentemente robustas e o vão livre de 205 mm reforçam que o desenho não é apenas um exercício estético. Na versão Advance, o conjunto é 255/60 R19. Na Premium, 255/55 R20. Soma-se a isso um conjunto de recursos eletrônicos voltados ao uso fora de estrada, acessíveis pela tela central, com informações de inclinação lateral e longitudinal, bússola, altitude, monitor de profundidade para travessia de água e controle eletrônico de descida.
A própria Jetour declara capacidade de passagem em água de até 700 mm, um número elevado especialmente para um modelo 4×2. O interior acompanha esse discurso com alças de apoio robustas, posição de dirigir elevada e boa visibilidade dianteira. O estepe está presente, embora aqui surja a primeira contradição relevante, já que se trata de um estepe temporário, inadequado para a proposta conceitual do carro.
As incoerências avançam. O ponto mais crítico é a posição da bateria, que se torna o elemento mais baixo do conjunto e permanece vulnerável a impactos com pedras e obstáculos, justamente num carro que estimula visualmente o uso fora de estrada. Mesmo o modelo tendo sido testado em condiçoes extremas. Na minha experiência, usuários finais são capazes de fazer coisas incríveis e impensáveis. Espero melhorias aí na versão 4×4.
Outro ponto que não resisto em destacar são os ganchos de reboque dianteiros, símbolo clássico de robustez, que são de plástico, frágeis e meramente estéticos, sem função estrutural real. Algo impensável em modelos de referência da Land Rover, Jeep, Toyota e Ford.
O único modo de condução fora de estrada disponível chama-se Neve, claramente pensado para outros mercados e sem adaptação ao uso real no Brasil. Lama, terra ou cascalho seriam escolhas muito mais coerentes. Os pneus são de uso misto, com perfil mais alto, o que ajuda no conforto e em pisos irregulares, mas não oferecem a tração e a resistência de um pneu todo terreno.
Apesar disso, o conjunto impressiona positivamente em vários aspectos para o uso esperado que a marca imagina.
O desenho externo e interno é extremamente atraente, com identidade forte e bem resolvida. O espaço interno é amplo, coerente com o porte, e a qualidade percebida dos materiais chama atenção, especialmente pelo cuidado nos detalhes. O nível de equipamentos é elevado, com ampla oferta de assistentes eletrônicos, câmeras, sistemas de auxílio e recursos de conforto. O espaço interno também impressiona.
Os dados de desempenho e alcance do conjunto híbrido plugável são promissores, especialmente para quem pretende usar o carro majoritariamente em ambiente urbano e rodoviário. O alcance elétrico homologado é de 75 km e o alcance total combinado chega a até 1.100 km. Ainda assim, esse é um ponto que só poderá ser confirmado com testes dinâmicos mais aprofundados.
Versões e preços
O T2 será oferecido no Brasil em duas versões, Advance e Premium. A versão Advance tem preço de R$ 290.000, enquanto a Premium sobe para R$ 300.000, uma diferença de R$ 10.000. Ambas compartilham exatamente o mesmo conjunto mecânico e a mesma arquitetura híbrida plugável com tração dianteira, o que torna a versão de entrada pouco atraente do ponto de vista racional. Na prática, ela cumpre mais o papel de chamariz de preço do que de opção equilibrada de compra.

Há cinco cores disponíveis para o T2 no Brasil. Duas delas utilizam acabamento fosco da linha Veneer, o verde Veneer e o prata Veneer, ambas com custo adicional de R$ 3.500. As demais opções são preto Carbon, branco Snow e prata Cosmic.
A versão Premium concentra os equipamentos que fazem sentido em um carro desse porte e posicionamento, como teto solar panorâmico, sistema de som Sony, acabamento interno mais elaborado, iluminação ambiente configurável e recursos adicionais de comodidade. Considerando a diferença relativamente pequena de preço, é nela que o T2 se apresenta de forma mais coerente com o visual, a proposta e a expectativa criadas pelo discurso da marca.


Trem de força e bateria
Independentemente da versão, o modelo comercializado no Brasil utiliza um sistema híbrido plugável com tração dianteira, ainda que o projeto original tenha sido concebido para aplicações com tração integral. O conjunto combina um motor a combustão 1,5-litro de quatro cilindros turbocarregado a gasolina com dois motores elétricos integrados ao sistema híbrido. O motor térmico entrega 135 cv e 20,4 m·kgf, enquanto os motores elétricos fornecem 102 cv e 17,3 m·kgf e 122 cv e 22,4 m·kgf, respectivamente.

O sistema opera com um câmbio dedicada do tipo 3-DHT, permitindo diferentes estratégias de funcionamento, priorizando o uso elétrico sempre que possível e alternando entre modos elétrico puro, híbrido em série e híbrido em paralelo. O foco está em eficiência, suavidade e conforto, não em condução esportiva ou uso fora de estrada severo.
A bateria do sistema híbrido plugável tem 26,7 kW·h de capacidade, um valor elevado para um PHEV e coerente com a proposta de maximizar o uso em modo elétrico.
No carregamento, o sistema aceita corrente alternada e corrente contínua. Em AC, a potência máxima é de 6,6 kW, permitindo carga completa em cerca de quatro horas com wallbox residencial. Em DC, suporta até 40 kW, possibilitando recargas rápidas em situações pontuais. A bateria possui grau de proteção IP68 e conta com garantia de oito anos ou 160.000 km, cobrindo os principais componentes do sistema eletrificado.
Conclusão
No fim, o T2 4×2 é um modelo bem atraente, bem construído e tecnicamente interessante, mas que não entrega tudo aquilo que seu visual promete. Ele seduz pelo que aparenta ser, mas se limita pelo que efetivamente oferece. O projeto só estará completo quando a versão 4×4 chegar ao mercado brasileiro.
Até lá, permanece como uma base muito competente, com identidade forte, bom nível de tecnologia e um conjunto híbrido eficiente, mas ainda incompleta diante da expectativa criada pelo seu próprio desenho e posicionamento da marca.
Em posicionamento, ocupa um território curioso. Em dimensões e presença física, aproxima-se de modelos como SW4 e Tank 300. Em preço, fica mais próximo de Compass e Bronco. Em proposta técnica, porém, entrega apenas parte do que o desenho sugere. É maior, mais alto e mais imponente que um Compass, mas sem tração integral. É mais sofisticado eletronicamente que um SW4, mas sem sua robustez mecânica. E fica claramente abaixo de Tank 300 e Bronco quando o assunto é fora de estrada real.
Ainda assim, há mérito. Existe engenharia, existe cuidado, existe intenção. A base do projeto é interessante, o produto é bem resolvido em conforto, tecnologia e eficiência, e a identidade visual funciona.
Quando o T2 4×4 finalmente chegar ao Brasil, com tração integral de verdade e capacidade fora de estrada à altura do que o desenho sugere, aí sim será possível avaliá lo em sua plenitude.
Porém, no final, a Jetour ofereceu uma volta como passageiro na versão 4×4. Como haverá um lançamento diferente para essa versão, nenhuma informação foi oferecida. Mas pude observar que de fato essa é a versão definitiva do T2. Há um motor traseiro, melhor proteção da baterial e mais modos fora de estrada.



Até lá, permanece como um convite incompleto. Visualmente pronto para enfrentar qualquer caminho, tecnicamente ainda contido. A boa notícia é que a base está ali.
PM
FICHA TÉCNICA – JETOUR T2 (BRASIL)
Carroceria e dimensões
Tipo: suve médio
Construção: monobloco de aço com estrutura reforçada
Comprimento: 4.785 mm
Largura: 2.006 mm
Altura: 1.875 mm
Entre eixos: 2.800 mm
Altura livre do solo: 205 mm
Ângulo de entrada: 28°
Ângulo de saída: 30°
Peso em ordem de marcha: 2.110 kg
Capacidades
Porta malas: 580 litros
Porta malas máximo (bancos rebatidos): 1.494 litros
Tanque de combustível: 70 litros
Capacidade de passagem em água: 700 mm
Conjunto mecânico
Sistema: híbrido plugável (PHEV)
Transmissão: automática 3-DHT (Dedicated Hybrid Transmission)
Tração: dianteira
Motor a combustão
Tipo: 4 cilindros em linha
Cilindrada: 1.499 cm³
Aspiração: forçada por turbocarregador
Comando de válvulas: duplo no cabeçote
Potência máxima: 135 cv a 5.200 rpm
Torque máximo: 20,4 m·kgf a 2.500 rpm
Motores elétricos
Quantidade: 2
Motor elétrico 1
Potência máxima: 102 cv
Torque máximo: 17,3 m·kgf
Motor elétrico 2
Potência máxima: 122 cv
Torque máximo: 22,4 m·kgf
Desempenho
Aceleração 0 a 100 km/h: 7,5 s
Velocidade máxima: 197 km/h
Bateria e recarga
Capacidade da bateria: 26,7 kW·h
Alcance elétrico (Inmetro PBEV): 75 km
Alcance total combinado: 1.100 km
Padrão de recarga: CCS2
Potência de recarga:
Corrente alternada (AC): até 6,6 kW
Corrente contínua (DC): até 40 kW
Tempo estimado de recarga:
AC (wallbox): cerca de 2 horas e 24 minutos
DC (20 a 80%): aproximadamente 42 minutos
Proteção e garantia da bateria:
Grau de proteção: IP68
Garantia da bateria e motor elétrico: 8 anos ou 160.000 km
Garantia do veículo: 7 anos
Consumo e eficiência (PBEV)
Consumo gasolina: 11,0 km/l
Consumo elétrico: 2,8 km/kW·h
Eficiência energética: 0,80 MJ/km
Classificação PBEV: A
Suspensão
Dianteira: independente McPherson
Traseira: independente multibraço
Direção
Tipo: assistência elétrica decrescente com a velocidade
Freios
Dianteiros: disco ventilado
Traseiros: disco
Sistemas auxiliares: ABS, distribuição eletrônica das forças de frenagem, assistente de frenagem de emergência, controle de estabilidade e tração, atuação automática do freio de estacionamento nas paradas no trànsito
Rodas e pneus
T2 Advance: rodas de liga de alumínio de 19 polegadas com pneus 255/60 R19
T2 Premium: rodas de liga de alumínio de 20 polegadas com pneus 255/55 R20
EQUIPAMENTOS E DIFERENÇAS ENTRE VERSÕES (BRASIL)
ITENS DE SÉRIE – T2 ADVANCE E T2 PREMIUM
Segurança e Adas
Seis bolsas infláveis
Controle eletrônico de estabilidade e tração
Assistente de partida em rampa
Controle eletrônico de descida
Frenagem autônoma de emergência
Alerta de colisão dianteira
Alerta de colisão traseira
Assistente de permanência na faixa
Alerta de saída de faixa
Monitoramento de ponto cego
Alerta de tráfego transversal traseiro
Alerta de abertura de portas
Assistente de tráfego em congestionamento
Assistente de cruzeiro inteligente
Sistema de câmeras 540º (visão 360º + projeção superior)
Conforto e comodidade
Ar-condicionado automático de duas zonas
Chave presencial com partida por botão
Partida remota
Modos de condução (Economy, Comfort, Sport e Neve)
Freio de estacionamento eletromecânico com atuação automática nas paradas no trânsito
Banco traseiro bipartido e rebatível
Saídas de ar para o banco traseiro
Console central com compartimentos
Tomada 12 V no porta-malas
Tecnologia e infotenimento
Tela central multimídia de 15,6 polegadas
Quadro de instrumentos digital de 10,25 polegadas
Android Auto e Apple CarPlay sem fio
Comando de voz
Portas USB dianteiros e traseiros
Sistema de informações fora de estrada (inclinação lateral e longitudinal, bússola, altímetro,, monitor de profundidade e pressão dos pneus)
Exterior
Faróis Matrix LED
Luzes de rodagem diurna de LED
Lanternas traseiras de LED
Logo Jetour iluminado na dianteira
Barras de teto longitudinais de teto
Para-choques, arcos de roda e laterais em plástico preto sem pintura
Antena tipo barbatana de tubarao
ITENS EXCLUSIVOS – T2 PREMIUM
Conforto e acabamento
Teto solar panorâmico
Bancos dianteiros com ventilação
Ajuste elétrico do banco do motorista
Memória para o banco do motorista
Iluminação ambiente configurável
Acabamentos internos diferenciados
Tecnologia e comodidade
Sistema de som Sony com 12 alto-falantes
Carregador de celular por indução (50 W)
Porta-malas com abertura e fechamento elétricos
Retrovisores com projeção de logotipo no solo
Vidros e isolamento
Vidros dianteiros laminados com isolamento acústico
Proteção UV nos vidros dianteiros
Vidros traseiros escurecidos dentro da regulamentação
Cores disponíveis
Preto Carbon
Branco Snow
Prata Cosmic
Verde Veneer (fosco)
Prata Veneer (fosco)
Cores foscas Veneer: adicional de R$ 3.500









