Antes de entrar no novo modelo da CAOA Changan, convém olhar para a base industrial que o sustenta. A atualização da fábrica de Anápolis, em Goiás é parte essencial da operação. Ela ajuda a distinguir a CAOA Chery e agora a CAOA Changan de outras fabricantes chinesas que chegaram ao Brasil por estruturas mais simples, quando não apenas por importação. Isso importa ao consumidor e importa ao país.
No último dia 26 de março, a CAOA celebrou a reinauguração de sua unidade industrial de Anápolis, inaugurada em 2007, marcando uma nova fase de expansão. Ao mesmo tempo, anunciou um novo ciclo de investimentos de R$ 5 bilhões no Brasil para os próximos três anos. Esse valor se soma aos mais de R$ 3 bilhões aplicados entre 2023 e 2025, destinados à ampliação da capacidade produtiva, modernização tecnológica e incorporação de processos avançados de manufatura automobilística.
Hoje, a operação industrial gera mais de 7 mil empregos diretos, sustenta milhares de postos indiretos na cadeia produtiva e movimenta uma ampla rede de fornecedores e prestadores de serviços especializados. Em 2025, a CAOA encerrou o ano com mais de 70 mil unidades produzidas e, graças à modernização da fábrica e à chegada da CAOA Changan, espera ultrapassar 90 mil unidades neste ano.
Na montagem de carrocerias foram implantados 54 robôs dedicados à linha de produção dos modelos CAOA Chery, além de uma nova linha de solda com 16 robôs destinada aos veículos CAOA Changan. Entre esses equipamentos, dois realizam a solda do teto a laser. Ainda nessa área, a linha de montagem das partes móveis, como portas, capô e para-lamas, recebeu 130 metros adicionais.
Na pintura houve aumento de capacidade em todas as etapas do processo, do tratamento de chapas ao acabamento final. A área de vedação passou a contar com quatro robôs para aplicação de selante fino no assoalho interno e nove robôs para vedação do assoalho externo, atividade antes feita manualmente.
Também foram ampliados os processos de pintura automatizada. A cabine de aplicação de fundo passou de dois para quatro robôs, enquanto a cabine de acabamento, base e verniz, dobrou a capacidade, de oito para 16 robôs. As três estufas de pintura foram ampliadas para atender aos requisitos de cura, e o layout da linha final foi reconfigurado para suportar volumes maiores até 2027, quando a fábrica deverá atingir capacidade de 200 mil veículos por ano ao fim do plano de investimentos.
O prédio dedicado à pintura de peças plásticas também foi modernizado, com novas posições de trabalho, ampliação da estufa de cura e melhorias ergonômicas que aumentam a eficiência operacional. Na montagem final, foram acrescentadas seis estações de trabalho, e o equipamento de enchimento de fluidos foi substituído por uma solução de última geração.
Há outras melhorias em planejamento, incluindo transportadores automáticos para abastecimento de linha, com o objetivo de reduzir o fluxo interno de rebocadores e transpaleteiras. Estão previstas ainda uma linha dedicada para montagem de portas, novos sistemas de alinhamento, teste de rolo e ampliação do teste de chuva.
O resultado já aparece nos indicadores de qualidade, tanto nos índices internos de produção quanto nos resultados observados no campo. Isso é particularmente relevante porque mostra que o investimento não ficou restrito ao discurso institucional. Há efeito prático sobre o produto e qualidade. Bom para os consumidores da marca.
A unidade de Anápolis também se destaca como polo de pesquisa automobilística. Entre seus principais ativos está o Centro de Pesquisas e Eficiência Energética, criado com investimento de R$ 130 milhões e apontado como um dos maiores laboratórios automobilísticos de emissões e análises petroquímicas da região. O centro realiza testes de emissões e eficiência energética, homologação e durabilidade de veículos, pesquisas em combustíveis e biocombustíveis e estudos em mobilidade sustentável. Além de apoiar o desenvolvimento das operações da CAOA, o laboratório presta serviços a outras fabricantes instaladas no país.
A companhia também mantém parcerias com instituições de pesquisa e universidades brasileiras, incluindo USP, Unicamp, Universidade de Brasília e Universidade Estadual de Goiás. Isso reforça a integração entre indústria e ciência aplicada, algo ainda raro no setor.
O novo plano de investimentos, de R$ 5 bilhões, levará o total aplicado entre 2023 e 2028 a mais de R$ 8 bilhões. O programa envolve expansão da infraestrutura fabril, formação da mão de obra direta e indireta, adoção de tecnologias avançadas de manufatura, incorporação de novos processos produtivos e fortalecimento das iniciativas de pesquisa, desenvolvimento e inovação. É um volume relevante mesmo em comparação com operações de maior tradição local. E funciona como indicação clara de confiança no mercado brasileiro, confiança que nem todas as fabricantes demonstram com o mesmo comprometimento.
O CAOA Changan UNI-T
É nesse contexto que chega o CAOA Changan UNI-T, primeiro modelo da marca fabricado no Brasil, em Anápolis. A CAOA o define como “Luxury Sport Coupé SUV”, classificação de vocação mais publicitária do que técnica, embora o preço de lançamento, R$ 169.990 na versão única Infinity, chame atenção de imediato.
O UNI-T marca o início de uma estratégia de longo prazo que inclui produção local, desenvolvimento tecnológico e introdução progressiva de novos modelos globais da Changan no mercado brasileiro. A fabricante chinesa tem mais de 160 anos de história industrial, presença em mais de 70 países e mais de 30 milhões de veículos produzidos, com centros de engenharia na China, Europa e Estados Unidos.
O UNI-T chega aqui em sua terceira geração e passou por um amplo processo de validação conduzido pela engenharia global da Changan em conjunto com a equipe especializada da CAOA. Esse processo local, a julgar pelo que foi apresentado, parece mais robusto do que o adotado por parte das novas marcas chinesas que desembarcaram recentemente no Brasil. Isso merece registro.
Segundo a CAOA, vivemos um mercado cada vez mais homogêneo, e o UNI-T seria um dos poucos carros a romper essa uniformidade. O argumento de fabricante é previsível, mas neste caso há algum fundamento, ao menos no desenho. O modelo de fato tem presença, principalmente pelo tratamento das superfícies, pela proporção da carroceria e pela ousadia formal num segmento que se acomodou demais.
Ele chama atenção na rua, e isso não é pouco num mercado em que quase tudo começa a parecer derivação do mesmo tema.
Como já havia sido dito, o UNI-T passou por adaptação profunda às condições brasileiras. O programa de validação envolveu 30 protótipos e mais de 2 milhões de quilômetros de testes em diferentes regiões do país, enfrentando variações severas de pavimento, clima e condições reais de uso. Ao longo dos últimos 24 meses, mais de 200 engenheiros brasileiros e chineses participaram do desenvolvimento do modelo.
Entre as principais adaptações estão o trem de força calibrado para combustível flex, com ajustes para álcool e gasolina locais, a suspensão recalibrada para melhor absorção das irregularidades do asfalto brasileiro, direção e freios revistos para respostas mais progressivas e precisas, além de ajustes de software e eletrônica embarcada.
O UNI-T usa motor 1,5 turbocarregado de injeção direta flex, desenvolvido pela engenharia da Changan e calibrado pela equipe da CAOA. Entrega 180 cv e 29,2 m·kgf. A fabricante não informa as rotações de potência e torque máximos. A caixa automática é robotizada de dupla embreagem em banho de óleo, sete marchas; a tração é dianteira.
Não há qualquer assistência elétrica no trem de força, o que chama atenção num momento em que boa parte das novidades do mercado já se orienta pela eletrificação, ainda que parcial.
Com controle de largada, a aceleração de 0 a 100 km/h é feita em 7,4 segundos. É um número bom para um carro a combustão nessa faixa de preço. No papel, o conjunto parece bem posicionado. Na prática, ao menos numa avaliação inicial, a sensação não acompanha por inteiro o que o desenho sugere.
A suspensão é independente nas quatro rodas, com McPherson na dianteira e multibraço na traseira, calibrada para as condições e preferências do consumidor brasileiro. O equilíbrio entre conforto, estabilidade e precisão dinâmica é bom. O carro é mais firme, mas sem se tornar desconfortável. Com rodas de 20 polegadas e pneus de perfil 45, era razoável esperar alguma aspereza.
Os freios usam discos ventilados na dianteira e simples na traseira, com sensibilidade de pedal bastante satisfatória.
Nas retomadas, sobretudo por volta de 100 km/h, o conjunto demora mais do que deveria. O enchimento do turbocarregador não é tão pronto, e a caixa também demora a reduzir. Falta resposta imediata. Não ajuda o fato de o carro não oferecer trocas de marchas manuais seja pela alavanca ou por borboletas no volante. O modo Sport melhora um pouco o comportamento, mas a impressão é que ele deveria ser o ajuste normal do carro, não o mais dinâmico.
Boa parte da apresentação do modelo foi dedicada a sustentar a tese de que o UNI-T rompe padrões tradicionais do segmento ao combinar a postura elevada de um suve com a silhueta dinâmica de um cupê. A comparação sugerida foi com Audi Q3 Sportback, BMW X2, Mercedes-Benz Classe A e Lexus UX. Pelo preço, é claro que há vantagem numérica.
Mas a comparação não se sustenta quando entram em cena marca, tradição, percepção de qualidade ao longo do tempo e atributos menos tangíveis. O UNI-T pode até oferecer muito equipamento por menos dinheiro, mas isso não basta para colocá-lo na mesma conversa em sentido amplo.
Ainda assim, em desenho, há algo mais no UNI-T. E isso é real. O carro não parece genérico. A linguagem estética da Changan aposta em superfícies esculpidas, proporções esportivas e identidade visual forte.
A grade do radiador sem moldura, composta por mais de 150 elementos geométricos, os faróis e lanternas de LED, as maçanetas escamoteáveis, o defletorn traseiro em formato de V, as rodas de 20 polegadas com pneus Pirelli P Zero e o grande teto panorâmico compõem um conjunto de presença incomum nessa faixa de preço.
Ele mede 4.535 mm de comprimento e tem entre-eixos de 2.710 nn. O espaço interno é bom, e o porta-malas de 425 litros atende sem dificuldade ao uso cotidiano. A CAOA enfatizou que o modelo tem dimensões um pouco mais generosas que as dos carros usados na comparação. Mas deixou de mencionar que a linha de teto é mais baixa (altura 1,565 mm(. Isso reduz a altura do ponto H e, portanto, a posição do banco em relação ao solo, algo que parte do público de suves valoriza bastante. Em contrapartida, ajuda o desenho a ficar mais coeso e esportivo.
O interior causa boa impressão pelos materiais, pela montagem e pelo conforto. O destaque está no chamado cockpit (seção dianteira da cabine) panorâmico, formado por duas telas de ultra alta-definição integradas que somam 25,1 polegadas. A interface é fluida, bem resolvida e visualmente limpa. O sistema de som é Pioneer, com 11 alto-falantes, incluindo dois integrados ao encosto de cabeça do motorista.
Há ainda sistema de aromatização com três fragrâncias selecionáveis na central multimídia. É um agrado de produto, e certamente haverá quem goste. O sistema de filtragem do ar inclui padrão PM2.5, com retenção de pólen e partículas finas, filtros de carvão ativado contra gases nocivos e eliminação de poluentes do ar da cabine em proporção significativa.
Por meio do aplicativo CAOA Changan Connect, o motorista pode controlar remotamente 12 funções do veículo, entre elas partida do motor, climatização da cabine e abertura de portas e janelas. O serviço de conectividade ilimitado será oferecido gratuitamente por dois anos.
Em segurança, o UNI-T traz classificação máxima de cinco estrelas em testes NCAP. A estrutura do veículo é composta por mais de 60% de ligas metálicas de alta resistência. São seis bolsas infláveis e um pacote de assistência avançada ao motorista com 18 funções, incluindo controle de velocidade de cruzeiro adaptativo, alertas de saída de faixa, colisão frontal, ponto cego e tráfego transversal traseiro, além de assistente de congestionamento e assistente de permanência na faixa.
Há também a prática assistência de estacionamento que movimenta o carro para frente e para trás por meio da chave eletrônica, útil em vagas apertadas.
A garantia é outro ponto forte: sete anos ou 150.000 km. Falta apenas verificar as condições detalhadas no manual, ainda indisponível no momento da apresentação.
A CAOA tentará posicionar a CAOA Changan como alternativa mais sofisticada no mercado brasileiro, combinando desenho chamativo, bastante tecnologia embarcada e a credibilidade de uma operação industrial completa no país. A julgar pelo que a empresa já fez com outras marcas, não seria prudente subestimar sua capacidade. Mas o cenário atual é mais competitivo, mais congestionado e mais atirado que em outros momentos. Há mais fabricantes disputando espaço com grande apetite.
Para começar, a campanha de lançamento traz Gisele Bündchen. É movimento inteligente, porque ajuda a construir de imediato uma imagem de sofisticação para a marca, algo de que toda recém-chegada precisa.
O CAOA Changan UNI-T já está disponível na rede dedicada da marca, que deverá chegar a mais de 60 pontos de venda até o fim de 2026. A rede contará ainda com mais de 40 oficinas estruturadas para serviços e manutenção, apoiadas pelo Centro de Distribuição CAOA, com estoque superior a 1 milhão de peças. Segundo a empresa, o polo logístico atende 99% da demanda das oficinas em até 48 horas, dado importante porque o pós-venda continua sendo um dos pilares históricos da operação da CAOA no Brasil.
Numa avaliação inicial e rápida, o UNI-T parece um produto bem resolvido, com real destaque em porte e desenho, além de excelente nível de equipamentos. O trem de força é interessante no papel, mas não entrega nas retomadas a esportividade sugerida pela aparência e pelos números declarados. Ainda assim, o que pesa mesmo aqui é a relação custo-benefício. Numa primeira análise, ela parece muito forte, talvez forte demais para ser ignorada pelo restante do mercado.
PM
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