Carros sempre foram analisados por números, desempenho, tecnologia, posicionamento de marca e mercado. É assim que a indústria se organiza, decide e comunica. Mas existe uma camada anterior a tudo isso, mais simples e ao mesmo tempo mais determinante, que raramente aparece.
A relação pessoal com o carro.
Ao longo dos anos, convivendo com executivos, engenheiros e profissionais do setor automobilístico, percebi algo curioso. Pessoas que tomam decisões complexas sobre produto, marca e estratégia quase nunca falam de forma pessoal sobre carros. E isso faz diferença. Porque é nessa relação individual, construída por memória, experiência e emoção, que se formam critérios que depois influenciam decisões muito maiores.
Foi a partir dessa percepção que nasceu o VOCÊ | CARRO.
Um novo quadro para a minha coluna aqui no AE e no LinkedIn chamada Substance. Direto com apenas cinco perguntas. Respostas rápidas, mas que revelam como cada pessoa enxerga o automóvel, o que valoriza e o que carrega consigo nessa relação.
Com isso quero mostrar essa camada mais humana. Porque carros são um dos poucos produtos que têm alma. A alma de quem os definiu e trabalhou neles.
O primeiro convidado
Pablo Averame é Diretor de Estratégia e Planejamento de Produto para a América Latina na Stellantis, onde lidera a definição de portfólio e plataformas para marcas como Peugeot, Citroën, DS e Opel num momento de transição energética da indústria. Anteriormente, atuou como Vice-Presidente de Marketing, Produto, Pricing, Mobilidade e Serviços Conectados no Groupe PSA, consolidando uma trajetória de mais de duas décadas em estratégia de produto, planejamento e posicionamento em mercados globais e regionais.
https://www.linkedin.com/in/pablo-averame70/
Perguntas
PRIMEIRO CARRO: Qual foi o seu primeiro carro e o que ele representou naquele momento da sua vida?
Um Daihatsu Max Cuore de 1980. Preto. Quatro portas. Motor bicilindro de 550 cm³, humilde e honesto, exatamente como devia ser.
Naquele momento ele representou liberdade. Não liberdade de desempenho, liberdade de ir e voltar sem depender de ninguém.
Era econômico, confiável, com uma simpatia que desarmava qualquer expectativa. Não precisava provar nada. Só precisava funcionar, e funcionava sempre.
Aquele pequeno Daihatsu me ensinou algo que levo até hoje:
Um carro não precisa ser grande para ser importante. Precisa ser certo para o momento.

EXPERIÊNCIA MARCANTE: Existe um carro ou uma experiência ao volante que você nunca esqueceu? Qual foi?
Suzuki Swift GTi. 1993. Vermelho.
Tinha 23 anos. E ainda lembro de cada número daquele carro: 7,6 kg/cv, quatro freios a disco, suspensão independente nas quatro rodas, direção bem rápida, bancos tipo concha. Nada entre você e o carro.
Em “Ford vs Ferrari”, Carroll Shelby descreve o que acontece a 7.000 rpm: o carro some, o peso desaparece, e o que sobra é só um corpo se movendo no tempo e no espaço.
O Swift GTi girava até 8.000. Não era um Le Mans.
Era um hatch de rua, mas quando o motor passava das 6.000 rpm e acordava para outro registro, aquilo era exatamente o que Shelby descreveu. Mesma sensação. Outra escala.
Aos 23 anos, sentia que estava pilotando um puro-sangue. Não pelo que custava. Pelo que entregava.
O QUE É IMPORTANTE: O que um carro precisa ter para realmente te conquistar?
Um carro me conquista quando tem clareza de propósito. Quando cada decisão de design tem uma razão que vai além da estética ou da planilha.
Aprendi que os carros que ficam na memória das pessoas não são necessariamente os mais rápidos ou os mais tecnológicos. São os que sabem o que querem ser. Design que não pede desculpas. Dinâmica que corresponde à promessa visual. Uma identidade que você reconhece antes mesmo de ver o emblema.
Para mim, é isso: coerência entre o que o carro promete e o que ele entrega, principalmente na relação com quem dirige.
O CARRO DEFINITIVO: Existe um carro definitivo? Aquele que você teria para o resto da vida? Qual e por quê? (apenas um)
Alfa Romeo 33 Stradale. O original, de 1967. Dezoito unidades. Não é escassez, é declaração de intenção.
Franco Scaglione projetou algo que o tempo não conseguiu datar. Cada curva existe por uma razão, e o resultado é uma forma que ainda hoje para qualquer conversa.
Por baixo daquela pele de alumínio, um V-8 de dois litros capaz de girar até 10.000 rpm, construído com a mesma convicção do desenho. Seiscentos e poucos quilos. Portas que se abrem para cima como se entrar nele fosse um ato que merece cerimônia.
O 33 Stradale nasceu de um carro de corrida e foi para a rua sem pedir desculpas pela origem. Não foi domesticado. Foi traduzido.
Para alguém que trabalha com estratégia de produto, é difícil não se render a um carro que, com apenas dezoito exemplares, ainda define o que um automóvel pode ser.

FUTURO: Como você imagina o carro do futuro?
O carro do futuro será movido por novas energias, que combinam eficiência, tecnologia e responsabilidade ambiental de formas que ainda estamos aprendendo a desenhar. Será conectado, provavelmente capaz de se conduzir sozinho em boa parte das situações. Essa transformação é real e necessária.
Mas a questão que me parece mais importante é outra: o carro do futuro ainda vai ser desejado?
Minha convicção é que sim. E que essa será a linha divisória entre as marcas que prosperam e as que viram commodity. Tecnologia resolve o como.
O que nenhuma plataforma ou tecnologia resolve o porquê, a razão pela qual alguém escolhe um carro que diz algo sobre quem ela é.
Propósito é o que separa um produto de um simples meio de transporte. Sempre foi. No futuro do automóvel, essa distinção vai ser mais decisiva do que nunca.
Como eu conheci o Pablo Averame
Eu conheci o Pablo Averame em um momento muito específico da minha trajetória. Ele foi meu chefe na minha passagem pelo PSA Group, quando eu trabalhava com veículos comerciais. Eu vinha de uma sequência de experiências em que o domínio de produto, posicionamento e estratégia sempre foi um diferencial meu. Era um território onde eu me sentia bastante confortável, com segurança absoluta para argumentar, contestar e tomar decisões.
Com o Pablo a coisa foi diferente. Eu havia feito uma série de entrevistas com ele, que buscava alguém para assumir a frente de veículos comerciais e participar diretamente do lançamento de uma picape que, à época, seria da Peugeot e que hoje conhecemos como Peugeot Landtrek, mais recentemente reposicionada no Brasil como Fiat Titano. Um projeto de origem chinesa, com todas as complexidades que isso envolve em termos de adaptação, posicionamento e construção de marca. Eu tinha lançado a Hilux no Brasil, que é líder até hoje.
O processo seletivo foi longo, criterioso, exigente. Quando entrei, entendi rapidamente o porquê.
O Pablo foi, sem exagero, um dos chefes mais técnicos e mais completos que eu tive. E isso, para alguém que sempre operou com um nível alto de domínio, gera um efeito interessante. Pela primeira vez, eu me vi em um ambiente em que havia alguém com uma profundidade ainda maior, com uma visão muito estruturada e uma capacidade analítica impressionante. Isso me tirou um pouco da zona de conforto. Gerou, sim, um certo desconforto inicial, quase uma insegurança profissional. Mas, olhando hoje, foi exatamente isso que elevou meu nível.
Ele é exigente, direto, por vezes duro. Mas nunca gratuito. Existe método, existe critério e existe um senso muito claro de responsabilidade com o resultado e com o time. Ao mesmo tempo, sempre teve uma capacidade de integrar pessoas, alinhar áreas e fazer o time funcionar como um conjunto coeso.
Foi assim que eu conheci o Pablo. Um profissional de altíssimo nível, com repertório, consistência e uma liderança que se constrói no conhecimento e na entrega. Hoje somos bons amigos autoentusiastas. E eu continuo respeitando-o muito.
PM



