Na nossa bolha de apaixonados por automóveis, duvido que alguém não tenha a sua listinha de carros atrelados ao êxito na Mega Sena. É ganhar lá e sair gastando em seguida. Também duvido que, pertencendo à bolha ou não, exista alguém que não possua outra lista preferida, desta vez que exprima as “viagens dos sonhos”. Todo mundo tem a sua, não? Pois uma das que mais cultuo é cruzar o sudoeste americano de motorhome. Sou fã dessa ideia há algumas décadas.
Mas eis que escrevo uma coluna só com suposições. Nunca nem entrei num motorhome. Sei tanto desse tipo de veículo quanto sou capaz de versar sobre crochê. Só sei que você usa fios de lã (ou algodão). Pois, no motorhome, só sei que você adapta o conceito de um trailer no próprio chassi de um utilitário. Mas não sei muito além disso. Mas até para cumprir com a função de colunista pesquisei um pouquinho. Não muito.
A mente divaga, porém, sobre o quão prazeroso seria sair de Los Angeles em direção ao Grand Canyon, parando em Las Vegas, depois fazendo o retorno e cruzando o Death Valley… e segue. Passo ainda pelo Sequoia Park, vou a San Francisco e desço de volta a LA pela HWY1. E tudo isso parando para dormir nos campings.
Sou capaz, sim, de explicar o porquê que essa viagem me fascina tanto. Pense bem. Existe um momento em qualquer deslocamento rodoviário tradicional, como nas mais de 40 vezes que peguei a Via Dutra em direção ao Rio de Janeiro, em que a ansiedade pelo destino supera o prazer do percurso. A paisagem desaparece pela janela sem que você a desfrute. Você só quer “chegar”.
Viajar de motorhome propõe exatamente o contrário: transformar o caminho na principal atração da jornada. Não importa o “pra onde”. O que interessa é o “como”. Como sou aficionado por tudo o que tem motor, volante/guidão e rodas… esse me parece o grande tchan de viajar de motorhome.
Fico viajando em outro aspecto, esse bem particular. Não ria. Mas já parou para pensar o quanto a pilotagem de um motorhome precisa ser “técnica”? E essa pilotagem técnica atrelada à suavidade? Considerando que você vai pegar a estrada com um infinidade de tralhas soltas lá atrás, como pratos, copos e demais utensílios, eu fico pensando na balbúrdia que isso tudo vira se você guiar mais agressivamente, pegar buracos, fazer desvios repentinos. Quebra tudo! Não é legal pensar na técnica de pilotar um gigante desses (foto de abertura) com total suavidade?? Ou só eu que sou doidinho e viajo nesses desafios?
Nos últimos anos, esse estilo de turismo ganhou força entre brasileiros que buscam experiências mais autênticas e menos engessadas. E é fácil entender o motivo. Um motorhome oferece algo cada vez mais raro no turismo contemporâneo: liberdade. Liberdade para mudar de planos, prolongar uma estadia em um lugar encantador ou simplesmente seguir adiante quando o destino não corresponde às expectativas.
Na prática, trata-se de uma casa sobre rodas. Os modelos mais modernos contam com banheiro completo, cozinha equipada, área para refeições, camas, armários, climatização e sistemas independentes de energia. Alguns vão além e oferecem até cozinhas externas, transformando uma simples parada em um mirante qualquer num agradável jantar ao pôr do sol.
Mas se engana quem imagina que basta girar a chave e sair por aí. A improvisação faz parte do espírito da viagem, mas uma boa organização continua sendo fundamental. Definir pontos de apoio, postos de abastecimento, áreas seguras para pernoite e campings adequados é tão importante quanto escolher os destinos que serão visitados.
Como o espírito desse tipo de veículo pressupõe longos deslocamentos, e alguns deles possivelmente por regiões com pouca assistência, dependendo do trajeto, prepara-se adequadamente é uma questão de responsabilidade com sua família — sim, não dá para saborear tudo isso sozinho. Água, combustível, alimentação e segurança continuam sendo itens essenciais, independentemente do grau de aventura que a viagem proponha.
Outro detalhe que costuma passar despercebido é a sazonalidade. Durante o verão e os períodos de férias, campings e áreas de apoio podem atingir a lotação máxima. Já no inverno, sobretudo em determinadas regiões, muitos estabelecimentos reduzem atividades ou fecham temporariamente. Conhecer essas particularidades evita contratempos e garante uma experiência mais tranquila.
Para quem sonha em explorar as estradas da América do Norte, como eu, uma novidade amplia ainda mais as possibilidades. Descobri isso casualmente num texto de divulgação que recebi nessa semana. Foi ele, inclusive, que me motivou a falar dos motorhomes. A Operadora Bancorbrás firmou parceria com a Cruise America, considerada uma das maiores locadoras de motorhomes dos Estados Unidos, com mais de cinco décadas de atuação. A operação permite retirar o veículo em uma cidade e devolvê-lo em outra, facilitando roteiros clássicos por destinos como Orlando, Miami, Las Vegas, Los Angeles, Chicago, Toronto e Nova York.
No fim das contas, viajar de motorhome não é apenas uma forma diferente de turismo. É uma mudança de perspectiva. Afinal, quando se leva a própria casa para a estrada, o destino deixa de ser o único objetivo. E talvez essa seja a maior lição desse tipo de viagem: descobrir que algumas das melhores experiências acontecem justamente entre a partida e a chegada.
Mas me conte: você curtiria uma viagem de quinze dias a bordo de uma “casa sobre rodas”? Já teve essa experiência? Me conta como é.
EP
A coluna “Acelerando ideias” é de exclusiva responsavilidade do seu autor.

