Em 1901, o banqueiro J. P. Morgan investiu US$ 150.000 (equivalente a muitos milhões em valores atuais) para financiar a construção do projeto de Nikola Tesla em Long Island, conhecido como Torre de Wardenclyffe. Este foi o começo do fim da parceria que mudaria o mundo moderno, e o ocaso da figura de Nikola Tesla.
A ruptura ocorreu devido ao choque de visões estratégicas e financeiras entre os dois.
O projeto no qual a torre estava incluída sofreu uma mudança de escopo por Tesla. J. P. Morgan queria colocar o projeto na vanguarda das tecnologias do rádio, mas Tesla havia redirecionado o projeto para usar a Terra e a ionosfera para transmitir energia elétrica em massa, sem fios, para qualquer lugar do planeta.
Morgan, que era um homem extremamente pragmático, percebeu que não haveria um modo de medir a energia usada por um consumidor para então poder cobrar dele. Sem apoio financeiro, Tesla entrou em crise financeira, perdeu o controle das instalações por dívidas, a torre de Wardenclyffe foi desmontada e vendida como sucata durante a Primeira Guerra Mundial.
Para a História, a cisão entre Tesla e Morgan ficou registrada como a demonstração fática da loucura que conduzia a genialidade de Tesla. Mas, será que Tesla estava louco ao propor um modelo de negócio onde haveria muito valor em oferecer energia de graça? Ou há uma forma genial de gerar lucros imensos com ela através da gratuidade? Esta é uma pergunta interessante, e que pode definir o nosso futuro.
A cooperativa
Vamos pensar em um pequeno produtor rural. Ele precisa de tratores, colheitadeiras, silos e outros equipamentos para plantar, colher, armazenar e distribuir o que produziu.

Poderia comprar tudo, mas o custo seria proibitivo. Além disso, utilizaria esses equipamentos apenas em pequenos períodos do ano, principalmente no plantio e na colheita, enquanto eles receberiam constantes evoluções tecnológicas.
Uma evolução seria alguém com capital investir na compra desses equipamentos e alugá-los para vários produtores, obtendo lucro enquanto reduz os custos de cada produtor pela maior taxa de utilização dos equipamentos.
Mas ainda haveria o lucro do empresário e os impostos incidentes sobre o aluguel. A solução seria o cooperativismo. Produtores rurais se associam para financiar uma infraestrutura compartilhada e passam a utilizar os equipamentos conforme suas necessidades, rateando seus custos. No fim, todos têm acesso aos recursos que necessitam sem precisar arcar individualmente com sua aquisição e manutenção.
É uma visão paradoxal: nada soa mais como comunismo, na definição original de Karl Marx, do que uma das atividades capitalistas mais reverenciadas e valorizadas.
Larry Ellison e a visão de plataforma
Larry Ellison, executivo-chefe e fundador da Oracle, empresa então focada no desenvolvimento de softwares de bancos de dados corporativos, deu uma série de palestras nas quais repetia um mantra: “Não se ganha dinheiro com plataforma, mas sim com o que funciona sobre ela”.

Ele comparava seu banco de dados Oracle ao MySQL, um banco de dados open source e gratuito. Assim como o Linux, o MySQL tornou-se uma das bases sobre as quais a internet foi construída, chegando a sustentar grandes serviços digitais.
Ellison observava que o Oracle procurava atender às necessidades específicas de seus clientes, tornando-se progressivamente mais complexo, enquanto o MySQL mantinha um projeto mais focado e eficiente. Ele especulava que a complexidade dos softwares cresceria a tal ponto que uma única empresa poderia não ser capaz de desenvolvê-los e mantê-los sozinha. Seria necessário algo semelhante a uma cooperativa de desenvolvedores, conduzindo naturalmente ao código aberto.
Anos depois, a Oracle adquiriu a Sun Microsystems, detentora dos direitos sobre o MySQL. Em vez de eliminá-lo, porém, preservou seu modelo open source. Assim, a Oracle passou a oferecer tanto o banco de dados proprietário quanto o gratuito. Clientes que precisam de uma solução paga podem usar o Oracle; os demais podem usar o MySQL. Em ambos os casos, abrem-se oportunidades para a Oracle prestar serviços a quem utiliza essas plataformas.
A própria Oracle havia deixado de ser apenas uma desenvolvedora de bancos de dados para se transformar progressivamente numa empresa de serviços e consultoria.
As plataformas
Quando Ellison proferiu seu mantra, o que talvez ele não tenha percebido — ou, se percebeu, não comentou — é que a ideia de plataforma vai muito além da área de software.
Uma plataforma tem um custo para ser construída e mantida funcionando. Há também custos associados ao uso que aquilo que funciona sobre ela acaba provocando. Alguém precisa pagar por esses custos.
Geralmente, quem paga é quem mais se beneficia deles, mas também pode haver benefícios para quem utiliza a plataforma gratuitamente.
Esse é o modelo completo desse tipo de negócio. Muitas vezes, o lucro de quem financia e sustenta a plataforma é indireto e pode ocorrer apenas no futuro. Porém, a abundância que esse modelo propicia pode gerar lucros maiores do que os obtidos em modelos tradicionais do tipo “toma lá, dá cá”.
É por isso que entender esse modelo exige pensar fora da caixa.
Uma visão mais ampla
O pensamento de Ellison define, em horizontes mais amplos, a ideia da cooperativa. O Linux é desenvolvido há 35 anos num esquema altamente colaborativo. Ele está presente desde lâmpadas inteligentes até os computadores mais potentes do mundo, passando pela maior parte da internet, pelos celulares Android, Smart TVs e roteadores.
É comum também que fabricantes de consoles de videogames subsidiem seus aparelhos, porque o lucro está na venda dos jogos. Encarecer o console significa reduzir a base de possíveis compradores.
São exemplos diferentes, mas que seguem o mesmo mecanismo: o valor não precisa estar necessariamente naquilo que é vendido, mas naquilo que sua disponibilidade permite criar.
O pensamento de caixa fechada
Mais ou menos na mesma época em que Larry Ellison proferia suas conferências, o executivo-chefe da Microsoft, Steve Ballmer, demonstrava grande desprezo pelo software livre. Pressionada pela concorrência do open source, a Microsoft via esses projetos como uma ameaça aos seus produtos proprietários. Ballmer chegou a comparar o open source a “dar pérolas aos porcos”.
Seu sucessor, Satya Nadella, entendeu melhor o paradoxo. Abraçou o Linux, que hoje domina o serviço de nuvem Azure, e a própria Microsoft tornou-se uma das grandes contribuidoras para seu desenvolvimento.
A empresa não ficou menor por isso. Ao contrário: passou a participar do ecossistema em vez de simplesmente tentar combatê-lo. A diferença entre os dois modelos é justamente a forma de enxergar a plataforma: como um produto que precisa ser protegido ou como uma infraestrutura sobre a qual outros podem criar valor.
O novo campo de batalha: a inteligência artificial
Hoje, a inteligência artificial ocupa cada vez mais espaço no noticiário, não apenas pelo que a tecnologia é capaz de fazer, mas também pelos modelos de negócios que estão sendo construídos ao seu redor.
Ela deverá se tornar uma ferramenta fundamental em praticamente todos os setores, mas a forma como essa tecnologia será disponibilizada pode produzir consequências muito diferentes.

Há dois modelos econômicos disputando esse mercado. De certa forma, eles lembram as visões opostas de J. P. Morgan e Nikola Tesla apresentadas anteriormente.
O J. P. Morgan dos Estados Unidos
O modelo americano concentra os recursos de inteligência artificial em gigantescos datacenters, acessados pela internet. A estratégia é oferecer inicialmente o acesso de forma gratuita ou subsidiada, criando dependência e, posteriormente, transformar essa infraestrutura em um serviço pelo qual todos terão de pagar.
O problema é que essa concentração pode criar uma espécie de “imposto I.A.”, incorporado aos custos de praticamente todas as atividades econômicas. Se cada etapa de uma cadeia produtiva depender de serviços de inteligência artificial pagos por uso, o custo será acumulado até chegar ao consumidor. Além disso, os gigantescos datacenters exigem enormes quantidades de energia elétrica, água e infraestrutura, aumentando ainda mais o custo desse modelo.
O Nikola Tesla da China
A chegada do DeepSeek mostrou que a China estava muito mais próxima dos Estados Unidos nessa tecnologia do que se imaginava. Mais importante ainda, apresentou seus modelos em uma arquitetura aberta, permitindo que fossem baixados e executados localmente.
À primeira vista, investir bilhões para depois distribuir gratuitamente o resultado parece desperdício. Mas essa é justamente a lógica que este artigo procura mostrar: o retorno de um investimento não precisa ocorrer diretamente sobre aquilo que foi produzido. Se a inteligência artificial se tornar uma infraestrutura fundamental para a economia, disponibilizá-la gratuitamente pode reduzir os custos de toda a cadeia produtiva chinesa, tornando seus produtos mais competitivos.
O investimento inicial poderia, portanto, ser recuperado indiretamente pelo crescimento da atividade econômica. O modelo aberto também permite que outros desenvolvedores contribuam para seu aperfeiçoamento e reduz a dependência de grandes datacenters centralizados. Por outro lado, traz problemas próprios, como fragmentação, suporte incerto e questões de governança.
Assim, não se trata de afirmar que um modelo é necessariamente superior ao outro. Trata-se de perceber que cada modelo distribui de maneira diferente os custos, os riscos, as dependências e os benefícios da inteligência artificial. Essa é a ponte para a próxima sessão: o que tudo isso significa para o automóvel e, principalmente, para quem compra e utiliza um carro.
Para o autoentusiasta: o que isso muda para você e seu carro
A fabricação de um automóvel envolve uma enorme cadeia produtiva, desde a mineração e o processamento de matérias-primas até a fabricação de componentes e a montagem final. Se cada etapa passar a consumir serviços de IA pagos por processamento, o custo poderá ser incorporado sucessivamente ao produto final, criando o chamado “imposto I.A.”
Mas a questão vai além do preço do carro. O automóvel está se tornando cada vez mais dependente de plataformas tecnológicas e conectado a serviços que monetizam dados e hábitos de seus usuários.
O carro, que antes era essencialmente uma ferramenta de mobilidade e prazer, corre o risco de transformar-se também em um grande terminal de coleta e transmissão de dados. Para o usuário, portanto, a disputa entre modelos centralizados e abertos de IA não é apenas uma questão tecnológica: envolve custo, privacidade, dependência e liberdade de escolha.
Conclusão
O artigo mostra que existem diferentes maneiras de pensar um negócio e que modelos aparentemente irracionais podem gerar valor quando analisados de forma sistêmica. De um lado, está a lógica de J. P. Morgan: como ganhar dinheiro diretamente com aquilo que produzo? De outro, a lógica atribuída a Nikola Tesla: como aquilo que ofereço pode criar um ambiente no qual outras atividades gerarão valor suficiente para sustentar meu investimento?
O open source e o cooperativismo demonstram que a abundância pode ser economicamente mais poderosa que a escassez. No caso da inteligência artificial, a disputa entre modelos centralizados e abertos representa também uma disputa entre dependência e liberdade tecnológica.
A questão, portanto, não é escolher simplesmente entre Estados Unidos e China, mas compreender quais modelos distribuem melhor custos, riscos e benefícios — e qual deles produz mais valor para todos.
AAD

