A temporada de Fórmula 1 de 1966 tinha tudo para ser um ano de glórias para a Ferrari: nenhum dos outros sete construtores inscritos no campeonato se preparou tão bem quanto o de Maranello. Uma semana após vencer o GP da Bélgica o inglês John Surtees deixou a equipe e pôs fim a esse sonho. Um quarto de século mais tarde o então tricampeão Alain Prost (1985/1986/1989) teve seu contrato com a Scuderia rescindido uma corrida antes do final de uma temporada marcada por crises internas.

Em 1966 o regulamento da F-1 adotou um regulamento que mudou radicalmente o conceito dos monopostos de uma categoria que, desde o fim dos anos 1950 foi dominada por monopostos e motores BRM e Climax V-8 1,5-litro fabricados na Inglaterra . Exceção a confirmar a regra daqueles dias, a Ferrari conquistou o título de 1964, com o Ferrari 158 pilotado por John Surtees, o único piloto a ter se sagrado campeão mundial no motociclismo e no automobilismo (1964).
As novas regras de 1966 tornaram evidente a disputa entre o continente — entenda-se Itália —, e os chamados garagistas ingleses. Enzo Ferrari investiu pesado no desenvolvimento de um motor V-12 3,0 derivado dos 3,3 que propulsionavam os protótipos 330 P3 e P4 e um chassis que serviu de passagem entre o tubular e o monobloco. Na estreia em Spa, Surtees largou na pole position e venceu com 42”1 de vantagem sobre Jochen Rindt e seu Cooper Maserati. A alegria não durou uma quinzena: dias depois o inglês discutiu com o chefe de equipe Eugenio Dragoni durante treinos para a 24 Horas de Le Mans e apareceu no GP de Mônaco ao volante de um Cooper Maserati da equipe oficial de fábrica. O australiano Jack Brabham saiu-se campeão da temporada ao volante de um carro construído por ele e dotado de um motor V-8 derivado de um bloco de Oldsmobile preparado pela Repco, retífica de motores baseada em Melbourne. No ano seguinte Dragoni foi dispensado e substituído pelo jornalista Franco Lini.

Segundo ato dessa tragédia anunciada aconteceu com a contratação de Alain Prost para ser companheiro de equipe de Nigel Mansell em 1990, ano que terminou com o antológico encontro de Senna e seu McLaren contra a traseira do Ferrari do francês logo após a largada do GP do Japão. Um ano mais tarde Prost era despedido da Scuderia às vésperas do GP da Austrália, quando foi substituído por Gianni Morbidelli. Sua passagem pela equipe foi marcada por uma série de desentendimentos com os demissionários chefe de equipe Cesare Fiorio e o projetista John Barnard e resultados inconstantes, incluindo abandonos em seis corridas e uma saída de pista ao alinhar para o GP de San Marino, em Ímola. Tamanho desgaste levou o piloto nascido em Lorette, pequena vila na francesa região da Auvérnia, a assumir um ano sabático em 1992.

Em janeiro passado a Ferrari anunciou a contratação de Lewis Hamilton para o lugar de Carlos Sainz e novo companheiro de equipe de Charles Leclerc. O monegasco é há tempos o queridinho de Maranello, onde corre desde 2019, e tem enorme apoio de Fred Vasseur, francês que comanda o time e com quem já trabalhou quando corria pela Sauber. Hamilton, coleciona 105 vitorias nos 362 GPs disputados até domingo passado e sete títulos mundiais (2008/14/15/17/18/19/20; Leclerc disputou 153 corridas e participou de outras duas em que não largou. Seu currículo inclui oito vitórias e seu melhor resultado é o vice-campeonato em 2022.

Esse tipo de composição repete erros cometidos com a contratação de Fernando Alonso e Sebastian Vettel, campeões mundiais que defenderam a Ferrari de 2011 a 2014 e de 2015 a 2020, respectivamente. Com exceção de Michael Schumacher e Juan Manuel Fangio (que correu com um Lancia-Ferrari) nenhum campeão mundial conseguiu repetir essa conquista a bordo dos carros vermelhos e tudo indica que este ano a escrita não será quebrada. Pior, as decisões tomadas no gerenciamento estratégico de Hamilton e Leclerc no recente GP de Miami mostram que além de um carro em condições de rivalizar com os McLaren, Mercedes e o Red Bull de Max Verstappen, falta uma dose de hierarquia dentro da Ferrari.

Na pista, a equipe McLaren segue firme no comando da classificação e uma disputa muito mais amena no que tange seus dois pilotos, Oscar Piastri e Lando Norris. Enquanto o australiano amadurece a cada volta completada, o inglês segue consertando erros e largadas desastrosas, que pouco a pouco o distanciam do companheiro de equipe.
O resultado completo do GP de Miami você encontra aqui.
WG
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