Esta é mais uma matéria de Hugo Bueno, que se soma às inúmeras contribuições que ele já fez para a coluna “Falando de Fusca & Afins”. Para aqueles que ainda não conhecem, Hugo é uma verdadeira referência no mundo antigomobilista dedicado ao Volkswagen. Seu olhar atento e preciso faz dele um autêntico “detetive” da marca, conhecido por sua abordagem cuidadosa, observadora e detalhista.
Boa leitura!
Um ano surpreendente para o VW sedã brasileiro: 1975
por: Hugo Bueno
Durante a produção do VW Fusca no Brasil (que a fábrica também chamava de VW Sedã), foi somente em 1975 que a Volkswagen disponibilizou para o mercado cinco modelos diferentes que, apesar do período exato de fabricação diferente de cada um, provavelmente por um breve momento, estiveram simultaneamente disponíveis á venda em algumas concessionária da marca. O ano de 1974 terminou com três opções disponíveis, os já consagrados Fusca 1300 e Fuscão 1500 e o inovador Bizorrão 1600S, um VW sedã feito para jovens e tratado ainda como uma novidade face ao seu recente lançamento.

Famoso desenho baseado na tendência de época fortemente influenciado pelo filme de animação “Submarino Amarelo” dos Beatles, lançado em 1968.

Em letras pequenas, abaixo das fotos, foram indicados pontos altos do lançamento de 1975 do VW 1300, a saber: para-brisa com vidro laminado de segurança; maior tambor de freio; bitola traseira maior (igual à do Fuscão, 1.355 mm ante 1.288 mm); luzes intermitentes de advertência (pisca-alerta); filtro de ar a seco; novo carburador; novo distribuidor.
[NR: desde 1966 a Volkswagen, antecipando-se à legislação que só viria no início da década de 1990, implementou os para-brisas laminados, aumentando a segurança deste componente. Com isto a denominação “vidro temperado de segurança” que aparece nos dois folders, o do 1300 e do 1500, não corresponde à realidade]

No caso do VW Fuscão 1500 foram ressaltados os seguintes itens abaixo das fotos: para-brisa com vidro laminado de segurança; para-sóis maiores; luzes intermitentes de advertência (pisca-alerta).
Já em janeiro de 1975, segundo informação oficial da Volkswagen, começou a produção do que seria o quarto modelo do VW Fusca disponível no início daquele ano: o VW Fusca 1300-L. Em 21 de fevereiro de 1975, o jornalista Fernando Mariano, em sua coluna semanal “Auto Moto”, no jornal O Globo, anunciava a chegada dos primeiros VW Fusca 1300-L no Rio de Janeiro, ainda que somente para exposição, provavelmente devido à baixa produção inicial pela fábrica. Interessante o destaque que foi dado pelo jornalista citando que o novo modelo era exatamente igual ao VW Fuscão 1500, interna e externamente.


Ainda no início do ano, apesar de quatro modelos disponíveis à venda, a propaganda institucional da Volkswagen para veiculação pela TV, apresentava somente três modelos, 1300, 1300-L e 1500, deixando de fora o 1600S, provavelmente por ser encarado como uma série limitada, prestes a ser descontinuada.
O mês de abril de 1975, segundo informação institucional, foi crucial para a linha VW Fusca. Oficialmente, a Volkswagen registrou que nesse mês parava a produção do VW Fuscão 1500 e do “Bizorrão” 1600S e iniciava a produção do VW Fusca 1600 , mecanicamente um “Bizorrão”, mas despojado de todos os itens que agradavam aos jovens, ficando mais “careta” conforme se dizia na época.

O novo VW Fusca 1600 chegava sem muito alarde, destacando principalmente sua parte mecânica em detrimento do seu acabamento, que com a inevitável comparação com o “Bizorrão”, ficou muito mais pobre. O próprio folder de lançamento não registra nenhuma foto do interior ou cita suas características de acabamento, focando apenas na motorização 1600.
Nos meses subsequentes, o mercado começava a assimilar toda essa mudança que a Volkswagen fez na linha VW Fusca para 1975. Nas tabelas de preços, publicadas nas principais revistas especializadas e jornais da época, a mudança só se consumou no mês de julho.
Na capa da Revista Quatro Rodas, nº 179 de junho de 1975 aparecia o teste com o “Fuscão 1600”, mas na tabela de preços desta revista constavam apenas os modelos “Sedã 1300, 1300-L, 1500 e 1600-S”:



[NR: Em 1975, a moeda brasileira era o Cruzeiro (Cr$). Esse nome foi adotado em 1970, substituindo o Cruzeiro Novo, e permaneceu em circulação até 1986, quando foi substituído pelo Cruzado. Ainda distante da denominação atual que é Real (R$) e sua sigla internacional é BRL]
Já o nº 180 de julho de 1975 da Revista Quatro Rodas trazia em seu interior a propaganda do motor VW 1600 onde a Volkswagen destacava o desempenho e a economia da mecânica 1600. Na tabela de preços deste número da revista, já atualizada, constavam os modelos “Sedã 1300, 1300-L, 1500 e 1600”.



No mesmo mês de julho, foi publicada matéria no jornal O Globo detalhando um pouco mais as mudanças acontecidas e ainda possíveis de acontecer na linha Volkswagen como um todo e não apenas na linha VW Fusca. Sobre essa especificamente, a matéria abordou a redução drástica na produção do VW Fuscão 1500, o medo dos proprietários com a saída do modelo de linha e estimou como deveria ficar a divisão do mercado por modelo do VW Fusca.
O VW Fusca 1300-L foi tratado como um “Fusca mais requintado e econômico”, caindo no gosto do consumidor. Já o novo VW Fusca 1600 foi tratado como “um carro mais potente e que não bebe gasolina demais”, sobrando para o pobre Fuscão 1500, a fama de “alto consumidor de combustível” como se queixavam seus proprietários. A pequena diferença de preço entre o velho 1500 e o novo 1600 também foi considerada uma vantagem a favor do novo Fusca.

Ainda em outubro de 1975, era discutida a mudança que a Volkswagen fez em sua linha de automóveis. O jornalista Fernando Mariano em sua coluna semanal “Auto Moto” no jornal O Globo, “desceu a lenha” não só na estratégia de substituição de modelos cujo lançamento foi considerado recente, assim como na desinformação propagada pela Volkswagen, inclusive pelo seu presidente, reforçando a ideia de que sempre quem é prejudicado nessa história é o consumidor. Algum leitor da coluna já passou por experiência parecida? O que cada um acha dessa estratégia? Todos estão convidados a expor seus comentários sobre o assunto.

Mais um belo trabalho do Hugo Bueno a quem agradeço a mais esta participação na minha coluna.
E vem mais novidades por aí! Em uma próxima matéria será apresentada uma interessante e detalhada comparação fotográfica entre um VW Fusca 1600 no ano de seu lançamento, 1975, e um VW Fusca 1500 que foi descontinuado neste ano.
Ambos os carros foram “flagrados” estacionados lado a lado em um Encontro Brasileiro de Autos Antigos que acontece anualmente na cidade de Águas de Lindoia/SP. Aguardem.
AG
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