Qualquer um dos tópicos abaixo poderia ser uma boa manchete. Agora imagine todos juntos!
- Metade do tempo, metade do investimento: fabricantes chineses já lançam carros 2 vezes mais rápido e com 40 a 50% menos capital que concorrentes ocidentais.
- 30% mais baratos na origem: o modelo chinês entrega veículos 30% mais baratos já na linha de produção, e isso sem comprometer tecnologia.
- 800 mil carros chineses por ano na Europa: é a projeção até 2030, com produção local superando muitas marcas tradicionais do continente.
- US$ 30 bilhões em tarifas: esse será o custo direto das novas barreiras americanas contra os carros chineses já em 2026, um novo eixo geopolítico no setor.
- 129 marcas, só 15 sobrevivem: a China já caminha para uma consolidação brutal, mas essas 15 dominarão 75% do mercado de elétricos no país.
- 67% do mercado chinês será doméstico em 2025: as marcas estrangeiras estão preteridas pelos consumidores do maior mercado do mundo.
- 10% do mercado europeu será chinês em 2030: um salto que muda completamente a balança de poder do setor.
- IA encurta o ciclo de produto em até 8 meses: e ainda reduz 20% do custo de validação. Uma revolução silenciosa, mas decisiva.
Todos ele foram revelados pelo estudo Perspectiva Global da Indústria Automobilística 2025, publicado pela consultoria AlixPartners. Essa análise anual é uma das mais respeitadas do setor. Mas a edição deste ano extrapola qualquer recorte técnico ou conjuntural: ela expõe, que estamos testemunhando uma revolução estrutural na indústria automobilística global. E a força propulsora dessa transformação vem da China.
Chamo atenção para isso porque, num momento em que ainda há quem trate a ascensão chinesa como algo episódico ou vinculado unicamente ao preço, o estudo traz com bastante clareza que o que estamos vendo é um novo modelo operacional, que redefine o tempo, o custo e a eficiência da indústria. E mais importante, que muda o jogo completamente.
Já iniciei esse tema, falando sobre os SDVs (Software Defined Vehicles, ou Veículos Definidos por Software) nesse artigo especial para o Autoentusiastas.
Um novo modelo operacional: duas vezes mais rápido, metade do custo
Segundo o relatório, os principais fabricantes de veículos elétricos da China já são capazes de lançar carros no mercado duas vezes mais rápido que os concorrentes tradicionais, com 40 a 50% menos investimento e uma vantagem de custo de até 30%. Esse desempenho não é apenas técnico: ele deriva de uma abordagem completamente diferente sobre como desenvolver, testar, fabricar e comercializar veículos.
É o que os autores chamam de New Operating Model, um conjunto de práticas industriais, organizacionais e tecnológicas que está criando novos benchmarks para toda a cadeia. O estudo mostra que essa lógica já está em processo de exportação. Ainda que as tarifas internacionais tenham desacelerado os embarques físicos, o modelo mental e operacional da indústria chinesa está ganhando o mundo, por meio de parcerias, joint ventures, licenciamento e expansão de capacidade em mercados estratégicos.
Os carros passaram a ter desenvolvimento contínuo, assim como telefones celulares, e podem mudar a qualquer momento, com alterações incrementais. O clássico ciclo de vida de um carro de 4 a 6 anos no mercado com alguma mudança no meio desse período, já não funciona mais. As melhorias, ou mudanças, podem ser implementadas assim que prontas, sem a espera por uma janela de alterações. A velocidade agora é absurda e fica até difícil para os consumidores acompanharem.
Eficiência não é mais o diferenciador, é o pré-requisito
Os dados são diretos: até 2030, as marcas chinesas devem alcançar 67% do mercado interno e dobrar sua participação na Europa, chegando a 10%, com 800 mil veículos sendo produzidos localmente por ano. Enquanto isso, fabricantes europeus já sinalizam o fechamento de fábricas e a venda de ativos na ordem de US$ 18 bilhões, resultado de um modelo que se mostra cada vez menos competitivo diante das novas exigências do jogo.
Esse novo cenário exige uma reflexão: eficiência, que antes era diferenciador competitivo, passa a ser o mínimo necessário para sobreviver. O estudo da AlixPartners mostra que fábricas sem inteligência artificial, decisões lentas e estruturas infladas não são mais apenas ineficientes, elas são inviáveis. A inteligência artificial, aliás, ocupa papel central nesse modelo chinês: já permite cortar em até oito meses o ciclo de desenvolvimento de um veículo e reduzir em 20% os custos de validação e verificação.
A evolução do SDV é o AIV, Veículo Definido por Inteligência Artificial em vez de Veículo Definido por Software..
O novo padrão tecnológico é chinês
A liderança chinesa não se restringe à manufatura. Segundo o relatório, o mercado de ADAS (sistemas avançados de assistência ao motorista) deve atingir US$ 50 bilhões até 2030, e a China responderá por 45% desse total. Os fabricantes chineses deixaram de competir apenas com base em preço e passaram a liderar também em tecnologia embarcada, com soluções robustas, intuitivas e integradas.
Esse ponto merece atenção. Durante muito tempo, associamos qualidade técnica à tradição europeia e americana. Mas hoje, em muitos aspectos, a qualidade percebida e funcional dos sistemas chineses superam os modelos ocidentais equivalentes. Não é só uma questão de sensor ou radar, é sobre como os carros estão sendo concebidos como plataformas tecnológicas, com software como motor da experiência.
Consolidação: de 129 marcas para 15 competitivas
A AlixPartners estima que, das 129 marcas de veículos elétricos que atuavam na China em 2024, apenas 15 devem alcançar viabilidade financeira plena até 2030. Essas marcas devem capturar 75% do mercado total de NEVs (New Energy Vehicles, ou seja, elétricos) no país. O número pode assustar à primeira vista, mas esse movimento de consolidação é característico de todo novo setor em amadurecimento, e será benéfico no longo prazo. O resultado esperado é um mercado mais competitivo, inovador e sustentável.
Diferente do que muitos imaginam, não é um jogo de “vale tudo”. As marcas chinesas que estão prosperando são aquelas que entenderam a equação: rapidez, eficiência, tecnologia e escala com responsabilidade financeira. Algumas já alcançaram lucratividade anual, provando que é possível crescer e gerar valor ao mesmo tempo.
Como consumidores, devemos nos informar bem antes de embarcar em novidades tecnológicas. É preciso entender o contexto das marcas novas e observar com atenção seus movimentos. Vide o que aconteceu com a Neta: chegou com força, mas não se sustentou.
Das outras chinesas que já estão no Brasil, não vejo mais riscos imediatos. São as pioneiras e estão tomando a dianteira na competição global. Por outro lado, percebo que todas ainda carecem muito de entendimento sobre o consumidor brasileiro. Isso se nota nos produtos. E no pós-venda, então, fica evidente: em conversas, percebi que esse não era um ponto genuinamente considerado pelas marcas. Mas acredito que já entenderam o risco que falhas nesse campo representam.
Há muito discurso. Ainda preciso investigar melhor se os clientes estão de fato sendo bem atendidos.
Vejo também uma chance de que as marcas chinesas passem a influenciar os hábitos e necessidades de consumo do público. Chegam com agilidade e muita disposição para fechar negócio a qualquer custo. E o consumidor, que adora uma pechincha, gosta de acreditar que está fazendo um ótimo negócio.
Vamos ver se essa minha descrença no consumidor comum se confirma. Tomara que não.
Tarifas, tensões e o risco de ficar para trás
O relatório também faz projeções sobre as novas tarifas americanas, estimando um impacto de US$ 30 bilhões já em 2026. Isso tem levado empresas dos EUA a repensarem suas cadeias de suprimento, buscando alternativas à dependência da China. Mas o alerta que fica é outro: enquanto o Ocidente olha para as tarifas, a China olha para o futuro. Arrisco a dizer que os americanos vão sofrer muito.
A exportação do modelo chinês independe da exportação de carros. Está se dando via know-how, processos, startups, capital humano e influência técnica. Essa mudança é sutil, mas profunda. Não se trata mais de “o que a China vai nos vender”, mas de “como a China está nos ensinando a fabricar e operar”. Por mais relutante que possamos estar, essa é exatamente a realidade.
O quarto movimento: a indústria automobilística entra na era da autonomia digital
A AlixPartners contextualiza o momento atual como a quarta grande revolução da indústria automobilística, sucedendo o modelo Fordista, a manufatura enxuta japonesa e a modularização dos anos 1980 e 1990. Agora, vivemos a era das fábricas autônomas, guiadas por IA, com decisões descentralizadas e times organizados por projetos, não por hierarquias fixas.
Nesse cenário, o papel dos executivos muda. Precisamos ser orquestradores, não apenas gestores. Precisamos ter repertório para entender tecnologia, agilidade para reestruturar processos, e sensibilidade para cultivar marcas num ambiente digital, volátil e hipercompetitivo.
Como os líderes se adaptam a isso?
A lição que tiro deste relatório é simples: não há mais tempo para “acompanhar de longe”. Quem atua na indústria automobilística, direta ou indiretamente, precisa compreender e interpretar essa virada. Não se trata apenas de estudar a China, mas de entender como aplicar, adaptar e evoluir com base nesse novo padrão.
Precisamos repensar o que é velocidade, o que é eficiência, o que é diferenciaador. Precisamos rever o papel do design, da engenharia, da comunicação, do marketing. E, sobretudo, precisamos preparar nossas empresas, marcas e equipes para esse novo ciclo que já começou.
Quando deixei a JLR, fiz uma reflexão profunda e me preparei para estar aberto a me adaptar ao estilo de gestão chinês. A minha cartilha não serviria. Mas a minha vantagem é que aprendi a me adaptar. Aliás, nesse novo mundo, o conhecimento passado e a experiência ajudam. Mas talvez mais importante que isso seja justamente a capacidade de adaptação e o interesse, a vontade e a disposição para aprender.
Particularmente, acho a velocidade insana. Mas os chineses não acham. Então é bom exercitar a musculatura, a capacidade cardiovascular, manter o cérebro afiado e arregaçar as mangas.

Também uso grande parte da minha capacidade analítica para entender o cenário e ter uma proposta clara de diferenciação de marca nesse contexto tão complexo. Não vejo quase nenhuma marca com um posicionamento claro e consistente. Não vejo diferenciadores evidentes entre elas. Todas as comunicações são exatamente iguais. Daria até para criar templates e apenas trocar as marcas, as fotos e os modelos. Até os preços e promoções são os mesmos.
A guerra nem está mais nos preços. Está no tempo de garantia. Daqui a pouco, vão oferecer garantia vitalícia (é claro, desde que todas as revisões sejam feitas nas concessionárias). E aí vejo um grande risco estratégico: o de os clientes se motivarem apenas por custo-benefício.
O desafio é imenso. Mas, como todo grande ponto de inflexão, também é uma janela rara de reinvenção. E isso é altamente motivacional.
PM
Onde me encontrar: Instagram, LinkedIn, AUTOentusiastas e Jornal Roda.





