Normalmente, apenas aqueles mais entendidos ou que gostam muito de ler sobre carros é que prestam atenção na distância entre eixos. Essa medida é fundamental quando se fala de um projeto de um novo veículo, pois é através dela que os fabricantes conseguem bons espaços internos e determinam qual será o porte do modelo. Como trabalho com carros há mais de 50 anos, quando me falam de um novo veículo, uma das primeiras coisas que vou verificar é a sua distância entre eixos.

A partir daí, já tenho em minha mente qual deverá ser o espaço para motorista e passageiro dianteIro e os do banco traseiro. E com a dimensão entre-eixos na mente, tenho uma clara noção de qual deverá ser o porte do carro e, aproximadamente, o seu comprimento. O ideal, que toda indústria automobilística busca, é a maior distância possível entre o eixo da frente e o de trás, com um comprimento total menor. Ou seja, se busca que as rodas estejam mais no extremo possível da carroceria.
Com isso, reduzem-se os chamados balanços, o dianteiro e o traseiro. O tal “balanço” é o quanto de carroceria “sobra” à frente do eixo dianteiro e atrás do eixo traseiro, dados fundamentais para a estabilidade do veículo na reta (estabilidade direcional) e o equilíbrio nas curvas. Além, é claro, de interferir diretamente nos ângulos de entrada e saída, bem como na capacidade do veículo em transpor obstáculos.

Nos carros produzidos até os anos 1950, esses tais balanços dianteiro e traseiro eram muito grandes e desproporcionais. Eles tinham um entre-eixos curto e um comprimento de carroceria grande, com longos porta-malas que, quando carregados, desequilibravam as traseiras nas curvas. E o que é pior: eixos próximos entre si limitavam o espaço dos ocupantes, pois as caixas das rodas traseiras não permitiam que o banco fosse colocado para trás. Da mesma forma, as caixas das rodas dianteiras limitavam o espaço para as pernas de quem fosse no banco da frente.
Esse dilema foi sendo percebido, e à medida que os novos projetos surgiam, os engenheiros encontravam soluções técnicas para afastar um eixo do outro, melhorando a habitabilidade e a distribuição de peso por eixo. A dinâmica dos carros tornava-se mais estável, tanto em curvas quanto nos desvios bruscos de trajetória.

Só para que se tenha uma ideia, um carro médio do final dos anos ’60 e início da década seguinte, como o Chevrolet Opala ou o Ford Maverick, tinha distância entre eixos ao redor de 2.600 mm. Atualmente, essa medida é praticamente a de um hatch compacto ou suve pequeno. Tenho certeza de que os carros modernos são menores, mais compactos e com espaço interno igual ou melhores que o dos sedãs antigos, em que pese a sensível diferença entre eles no comprimento.

Hoje em dia, automóveis grandes, bem confortáveis internamente, costumam ter distância entre eixos que pode variar de 2.800 a 3.000 mm. Impressiona muito como as engenharias evoluíram, e como está diminuto o espaço ocupado pelas caixas de rodas ou componentes das suspensões, como molas e amortecedores, por exemplo.
Alguns “pontos fora da curva” devem ser ressaltados. O primeiro deles era o Renault Twingo. Em seu projeto de um carro compacto de apenas 3.430 mm de comprimento, possuía uma distância entre eixos de 2.340 mm na primeira geração. Suas rodas ficavam posicionadas bem no extremo da carroceria. Com isso, o compacto francês tinha balanços traseiro e dianteiro curtíssimos e, apesar de possuir menos de 3.500 mm no comprimento total, espaço interno digno de um modelo de porte médio. Havia até banco traseiro corrediço, melhorando substancialmente o espaço para as pernas de quem viajava no banco traseiro em detrimento da redução do volume do porta-malas.

Quando testei o pequeno Renault pela Quatro Rodas em 1993, tinha a falsa sensação de que estava dirigindo um carro grande pois, para contribuir, seu grande para-brisa era bem inclinado e deixava um curto espaço para a dianteira. Era esquisito viajar com o Twingo durante algum tempo e, ao desembarcar, perceber seu tamanho tão pequeno. Tudo isso porque as rodas dianteiras e traseiras estavam dispostas perto dos extremos da carroceria. Para mim, um projeto genial e moderno até hoje!
Outro fato interessante em relação a distância entre eixos diz respeito a Fusca e Kombi: ambos tinham os mesmos 2.400 mm. Acredite! Basta olhar os dois de lado: a impressão que se tem é que são veículos de portes completamente diferentes. No entanto, o aproveitamento das carrocerias é distinto. No Fusca, motorista e acompanhante sentam atrás do eixo dianteiro, e o banco traseiro vai próximo às caixas das rodas traseiras. Esse fato limita muito o espaço interno.

Em contrapartida, no Kombi, motorista e acompanhante ficam sentados à frente do eixo dianteiro e, dessa forma, é possível criar duas fileiras de bancos atrás, mais ou menos como se fosse o interior do Fusca. Com isso, o Kombi disponibiliza muito mais espaço interno, pela forma de sua carroceria e disposição dos bancos sobre os eixos. Bem interessante!
DM





