Dois fatos chamaram minha atenção ontem. Um, ao ler a matéria do Gerson Borini sobre a intenção do governo, pelo Ministério dos Transportes, de eliminar a obrigatoriedade de frequentar autoescola para obter habilitação para dirigir veículos automotrizes. Outro, o comentário do leitor Lucas dos Santos à matéria. Ambos fatos que me levaram a pensar (e relembrar) como é difícil tanto ensinar a dirigir quanto aprender.
Isso porque o automóvel é uma máquina bastante complexa, com sistemas que demandam conhecimento do que são e como funcionam e agem. E o automóvel se desloca, se movimenta, precisa obedecer às leis da Física. Tudo isso para quem nunca dirigiu representa obstáculos e cada um deles precisa ser superado em relativamente pouco tempo, mas suficiente até que o aluno comece a executá-los de maneira automática. Só então ele poderá aprender a se integrar ao trânsito e com ele interagir, outra enorme dificuldade do aprendizado.
Se alguém acha que é preciso pensar para dirigir, está enganado. Digo-o, didaticamente, que dirigir é como caminhar. Não pensamos no nosso corpo ao caminharmos, apenas ficamos atentos para onde estamos indo e, principalmente, ao ambiente à volta quanto a perigos, de todas as ordens — atenção que diminui ou chega a cessar completamente ao falar ao telefone enquanto se caminha, por exemplo.
Transponha-se isso para um carro em movimento, é muito o que fazer ao mesmo tempo, é complicado para quem está aprendendo a dirigir.
No curso de pilotagem de avião para me brevetar tive dois instrutores, ambos enfatizavam a necessidade de se ficar atento ao tráfego aéreo, mesmo que seja ínfimo comparado ao viário urbano.
Outra questão relevante é o relacionamento entre instrutor e aluno. É essencial que o instrutor seja firme durante as aulas práticas mas sem perder o controle emocional, o que deixa o aluno mais tenso do que já está.
Antes de meus filhos passarem à autoescola tentei ensiná-los a dirigir e admito que fui rude com eles ao fazerem algo errado, quando o certo seria apenas severidade dosada. Era como os meus instrutores de voo faziam e felizmente entendi as “broncas” como normais no processo de aprender a pilotar. Após cada voo de instrução não havia nenhum ressentimento. Chegamos a ficar amigos.
Ajuda muito o aluno entender que o instrutor não é inimigo, pelo contrário. Ele está ali para ajudar, mas pode haver situações que exijam firmeza por parte dele. Sua técnica e experiência contam muito.
Assunto difícil
A aprendizagem de dirigir é longe de ser um assunto fácil de equacionar. Por isso não deve ser tratada como quer o governo com o plano ora apresentado. A parte curricular, no meu entender, é a mais difícil. Quem recebe o direito de dirigir no sistema atual não preenche as condições para que possa ser considerado condutor tecnicamente, só do ponto de vista legal. Fato bem conhecido.
Cabe ao Ministério dos Transportes encontrar uma solução que efetivamente atenda aos interesses do País em vez de pretender “democratizar” a CNH com a eliminação do aprendizado obrigatório em autoescolas.
Como lembrou o leitor Lucas dos Santos, que é instrutor numa autoescola, é ilegal dirigir em vias públicas sem ser habilitado a menos que em instrução por estabelecimento e instrutor credenciados, com veículo dotado de pedais de freio e embreagem adicionais, como determina a Resolução Contran nº 789 de 18/06/2020.
Enquanto não houver solução que aprimore o ensino de dirigir, a prudência e o bom senso recomendam deixar tudo como está.
BS
(Atualização: a matéria sobre dispensa de autoescola para obter a CNH é de Gerson Borini e não de Boris Feldman)
A coluna “O editor-chefe fala” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.






