Não é de hoje que escrevo, que ouvimos e, o mais importante, vemos nas ruas brasileiras veículos chineses de diversos fabricantes. Já comentei que eles trazem tecnologia, eletrificação, design, segurança (especialmente nos Adas) e preços competitivos.
Também já discorri sobre a história da China, de forme bem resumida, em relação ao mercado automobilístico.
Mas ficaram pendentes os motivos que levaram a escolha do Brasil. Então por que o Brasil?
Um ponto relevante a ser destacado é a importância da nossa geografia. A China se consolidou como polo central de diversos setores, incluindo a cadeia automobilística trazendo muita inovação em que se destacaram, nos últimos anos, o processo de eletrificação, os sistemas de segurança Adas e veículos autônomos com envolvimento direto de empresas como Huawei e Xiaomi no desenvolvimento de veículos.
Entretanto, a China está distante dos grandes mercados consumidores do Ocidente como América do Norte e oeste europeu e é este o ponto de destaque do Brasil, que pode se consolidar como polo industrial secundário da China reforçando a posição de destaque regional de nosso pais na América Latina. Em números históricos, em média o Brasil vende o triplo do que vende a Argentina e seis vezes mais do que vende o Chile, denotando a força de nosso pais. Ganha também do México nas vendas internas mas perde vergonhosamente em relação a produção.
O Brasil poderia se tornar, portanto, uma rota facilitadora de produtos para Estados Unidos, oeste europeu e, também para o oeste africano, possibilitando redução de tempo na logística, adequação de tarifas de exportação e desenvolvimento local dos produtos para estes mercados em função da nossa já capacitada engenharia.
Em complemento às questões geográficas, o Brasil também é destino de empresas estrangeiras há anos e possui uma indústria de autopeças e de fornecedores de insumos bem desenvolvida e estruturada, indicando segurança aos países que ainda veem a China com alguma desconfiança.
A China também poderia utilizar o Brasil como complemento aos produtos que ela não produz ou produz em baixa escala. A tecnologia que utiliza álcool e gasolina, conhecida como flex, é ainda incipiente por lá. Utilitários leves, caminhões médios e ônibus urbanos também poderiam ser produtos que poderiam ser exportados daqui ou serem produzidos com o conhecimento brasileiro.
Dificilmente o Brasil reúna as condições para ser um polo primário produtivo competindo com a própria China. Conforme já indicado, nós já somos líderes regionais e, convenhamos, dificilmente teríamos capacidade de competir com a China, pois não existe escala, a competitividade de custos é baixa e a previsibilidade macroeconômica comparada aos chineses é pequena. Por isso o papel de “satélite produtivo” seria o mais adequado.
Na prática, satélite produtivo possibilitaria a montagem final de veículos, a produção de componentes locais, a produção de motores, o desenvolvimento de polos de desenvolvimento em P&D nas áreas de interesse e, principalmente, a adaptação de produtos destinados aos mercados aos quais o Brasil fosse servir.
Mas, e a indústria automobilística nacional?
Olhando de forma geral, as fábricas chinesas aqui já estabelecidas e aquelas que estão se estabelecendo dão indícios de que o Brasil será realmente um polo secundário. As empresas se estabeleceram, em geral, não apenas para comercializar seus veículos mas também para instalar unidades fabris, centros de distribuição, entre outros.
O Brasil é atraente por sua escala de mercado, por sua inserção regional e por sua tradição automobilística, entretanto um papel de maior relevância destinado ao Brasil exige cautela e somente se sustentará se houver segurança jurídica, política industrial clara e de longo prazo bem como uma estabilidade macroeconômica que teima em não ocorrer.
E, nunca é demais lembrar, estamos falando de Brasil…
MKN
A coluna “Visão estratégica” é de exclusiva responsabiliade do seu autor.





