Dia 26 de Setembro foi promovido o Summit Futuro da Mobilidade, evento anual realizado por Autoesporte e o Valor Econômico que contou com a participação de diversos executivos do setor.
O painel inicial incluiu o presidente da Anfaveaa, Igor Calvet e o presidente da ABVE, Ricardo Bastos, que discorreram sobre inúmeros temas de nossa indústria.
O painel final teve a presença dos presidentes Ariel Montenegro (Renault), Diego Fernandes (GWM), Santiago Chamorro (GMB) e Emanuele Cappellano (Stellantis).
Neste painel em especial discutiu-se de forma contundente o imposto do seletivo. Sem qualquer trava para este imposto, especialistas do setor indicam que a alíquota poderá subir entre 5% e 35% para alguns cenários provocando efeitos diretos no preço final do veículo.
O tema é sério e diz respeito ao futuro de nossa indústria automobilística. O imposto seletivo, apelidado de forma pejorativa como imposto do pecado, será submetido a votação no dia 30 de setembro, primeiro pelo Senado, com maiores chances de aprovação e depois pela Câmara dos deputados, onde as discussões são sempre mais temerosas e por vezes incluem temas mais variados nas pautas para tentar aprová-los junto com elementos menos relevantes, mas que aos olhos deles, os legisladores, são mais importante ou ao menos mais importantes para alguns… quem não se lembra da “relevante” taxa das blusinhas frente ao “irrelevante” programa Mover do governo federal… Este é o nosso legislativo, sempre amador. Dá pena essa valorização dos interesses particulares e pequenos frente às reais necessidades do país.
Os presidentes das fabricantes que participaram das discussões com a Autoesporte foram unânimes em considerar o imposto um problema no atual cenário. Chamorro comentou que a indústria automobilística está investindo centenas de bilhões de reais no Brasil e fazendo a maior transformação tecnológica que o Brasil já recebeu e, como prêmio, ganham um imposto desta natureza.
Cappelano lembrou que o aumento do imposto levará a uma menor demanda por veículos novos (mais tecnológicos e que poluem menos) estimulando o envelhecimento da frota circulante que se tornará ainda mais envelhecida com o passar dos anos, pois sem a renovação o reuso de veículos mais antigos sem a possibilidade de renovação por veículos mais novos é uma “contra tendência” com o que foi pensado pelo Mover.
Marli Olmos, do Valor, instigou Diego perguntando se os veículos fazem realmente tanto mal quanto um cigarro… Para ele, o imposto zero (interessante a todos os presentes) seria algo difícil, pois existe um impacto real não positivo trazido pelos veículos, mas os investimentos demonstram a vontade da indústria em reduzi-los. Uma alteração como esta na tributação, trazendo prejuízo nas vendas, tenderia a provocar um efeito contrário.
Ariel lembrou que o Brasil é um dos poucos países que ainda não recuperou a produção que tinha no pré-Covid, que a taxa de juros está elevada, a inadimplência crescendo e um imposto como este tenderia a penalizar ainda mais o consumidor bem como traria uma ameaça aos investimentos.
Creio que uma decisão errada pelo legislativo poderia colocar uma pá de cal em nossa indústria automobilística no médio/longo prazos e estimularia que investimentos propostos para cá migrassem para outros mercados vizinhos fazendo com que o Brasil perdesse a cada ano a sua relevância regional construída há décadas sob muito esforço.
Particularmente costumo escrever sobre visão estratégica na indústria automobilística nacional na maioria das colunas que participo. Normalmente escrevo com base em dados, mas profiro uma opinião, um ponto de vista meu sobre um determinado assunto e sei que esta visão não é absoluta (nem quero isso). Em contrapartida aprendi a acolher outros pontos de vista e cresço com eles. Aprendo com a maioria dos embates positivos que me fazem pensar ou as vezes repensar determinados assuntos (confesso que âs vezes tem uns que vou te falar, viu… são poucos!).
Retomando o pensamento para a coluna,. temo que em breve eu apenas possa escrever sobre produção em mercados externos, pois nossa indústria estaria fadada ao desaparecimento caso o imposto seletivo seja realmente aprovado sem qualquer análise criteriosa pelo poder legislativo.
O Brasil, politicamente falando, deve aprender a ser sério e não tratar parte relevante de seu PIB industrial (~20%) de qualquer maneira e sem qualquer planejamento; não que tenha que se curvar aos interesses de quem quer que seja como frequentemente já observamos, mas é dever do Brasil estabelecer as metas de longo prazo de nossa indústria e definir “o que quer ser quando crescer”. É de conhecimento geral que qualquer país com relevância internacional possui uma indústria automobilística igualmente relevante. Aqui o modelo não é perfeito… Temos que melhorá-lo e não enterrá-lo!
Se eu pudesse ou se eu fosse o nosso legislativo, em especial as casas federais do Senado e da Câmara dos Deputados, sinceramente eu não colocaria essa indústria em jogo… e você?
MKN
A coluna “Visão estratégica” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.







