Estávamos em agosto de 1984 quando a Fiat lançou no Brasil o seu então revolucionário Uno, lançado mundialmente no início do ano anterior. O carro era considerado revolucionário porque oferecia soluções inéditas, principalmente se considerássemos ser um popular, para a grande massa consumidora.

A exemplo dos suves de hoje, o Uno, que foi desenhado por Giorgetto Giugiaro, já mostrava uma posição mais ereta de sentar, fato que proporcionava amplo espaço para cinco ocupantes, Além disso, soluções de ergonomia traziam inovações inéditas: dois módulos de comando ao lado do volante de direção permitiam ao motorista acesso aos faróis, lanternas, limpador de para-brisa, lavadores e desembaçador.
Havia no nosso Uno algumas diferenças importantes em relação ao italiano. Uma era a suspensão traseira, que em vez do eixo de torção com molas helicoidais do italiano, era a mesma independente McPherson com feixe de molas transversal único do 147.
Outra diferença era o estepe no porta-malas em vez de no compartimento do motor, possível devido ao eixo de torção possibilitar haver um poço para o estepe. Com isso, o capô do Uno italiano era plano em vez de ter das duas dobras nas extremidade para a acomodação do estepe, acompanhadas do para-lamas mais altos. Por não haver mais estepe no comprtimento do motor, a caixa de ventilação pôde ser central em vez de deslocada para a direita como no Uno brasileiro.
Basicamente, sua mecânica era semelhante à do 147. Esse fato facilitava a vida das concessionárias e dos mecânicos que faziam a manutenção dos Fiat Brasil afora. Afinal de contas, quem era capaz de consertar um 147, poderia da mesma forma, fazer a manutenção do Uno.

O novo carro herdou do 147 também o conjunto motor/câmbio. Em sua versão S de entrada, possuía o robusto e confiável motor 1050 (1.049 cm³) alimentado por carburador de corpo simples. Na versão mais cara CS, havia um 1300 (1.297 cm³, 54 cv), diretamente derivado do 1050 básico — curso dos pistões 71,5 m em vez de 57,8 mm. O câmbio era sempre o mesmo manual de 4 marchas, que só veio ganhar a quinta em 1986.

O Uno italiano tinha um antigo motor de 903 cm³, 45 cv, de comando de válvulas no bloco e virabrequim de três mancais. O brasileiro já saiu com o moderno motor de comando de válvulas no cabeçote e virabrequim de cinco mancais, que dois anos depois seria aplicado no italiano.
Dessa história toda do Uno, que fez 40 anos no ano passado, é interessante ressaltar a trajetória do motor 1050. Quando foi lançado no Brasil em 1976, o Fiat 147 originariamente deveria ter um motor de 1.000 cm³. Mas os Italianos constatarem que aqui no Brasil que o IPI era o mesmo para motores até 1.600 cm³.

Por isso, não houve preocupação quando eles souberam que o novo motor em desenovlivmento na Itália era de 1.049 cm³ e assim foi o motor definido para o 147, que estreou no Brasil.

O Uno Mille
Lançado em 1990, constituiu enorme sucesso. No governo Collor foi criada nova alíquota de IPI, 20% para carros de motor até 1.000 cm³ visando tornar carros assim especificados mais acessíveis.

A Fiat foi ágil — uma conhecida característica dela — e reduziu a cilindrada do Uno para 994 cm³ por meio de novo virabrequim que diminuiuo curso dos pistões em 3 mm (de 57,8 pars 54,8 mm) e pistões de dimenões diferentes na altura do furo do pino. O motor enteregava 47 cv e 7,2 m·kgf.

Quando a nova alíquota entrou em vigor, a Fiat era a única que tinha um motor de quase 1.000 cm³ prontinho! A versão Mile era a S com o emblema próprio. A potência 3 cv menor era impercptível.
Por que Mile? Obviamente a cilindrada, mas mais do que isso era como ele era tratado em Betim, Mille, “La Mile”. Foi desnecessário pensar num nome para a nova versão.
Na busca do menor preço possível a Fiat andou perguntando para alguns jornalistas do setor o que achavam do Mille não ter servo-freio. Num almoço na fábrica, convidado para conhecer o carro antes do lançamento (velho e saudável hábito da Fiat praticado até hoje, um bate e volta de avião a Betim), aconselhei-os a não fazer isso, mesmo que a força no pedal fosse aceitável. “Muitos donos de Mille terão outro carro na garagem, que muito provavelmente terá servo-freio, e o freio do Mille parecerá insuficiente”, respondi. Acho que essa resposta foi unânime, o Mille saiu com o imporante item.

A nova alíquota do IPI pegou todas as outras marcas de calças curtas, menos a ítalo-mineira.

Para atender à grande demanda fabricavam o Mille 24 horas por dia e sete dias por semana. Haja estoque para atender tamanha demanda e a alegria do consumidor brasileiro.
O motor 1000 caía bem no Uno, que era um carro leve e não perdia sua agilidade nem os bons índices de consumo. Depois vieram Chevrolet Chevette Junior (péssimo de desempenho), VW Gol 1000 (razoável, mas veio tarde) e, por último, o Ford Escort Hobby (com mesmo motor do Gol, demorou ainda mais). Pois o Mille fez seus 35 anos de história com muito sucesso, durando muito mais do que a Fiat podia prever: ficou em produção até o final de 2013.
E, pelo mesmo motivo que nasceu, teve que ser morto: a legislação, que passou a obrigar airbag duplo e freios ABS para todo carro vendido no Brasil a partir de janeiro de 2014. Progresso que o Uno, com seus quase 30 anos, não conseguiu acompanhar. Se não fossem essas normas de segurança, diria que ele teria ido ainda mais longe…
DM





