Nesta edição de minha coluna eu retomo a apresentação de um novo causo. Desta vez o André Pronin, nos brinda com a sua história com os Kombis através da vida dele. Não foi um Kombi só, foram quatro e cada um com sua característica e sua história.
O Kombi e eu, crônicas de uma estrada afetiva
Por: André Pronin
Primeira marcha: infância e passeios
Se existe um veículo que transcende o asfalto e estaciona direto no coração dos brasileiros, esse carro é o Kombi. Ou melhor, Kombosa, Pão de Forma, Corujinha, Senhora Perua, Velha Senhora, apelidos que revelam não só o carinho, mas uma convivência íntima com esse ícone da indústria automobilística que por quase seis décadas foi mais do que um meio de transporte, foi personagem de vida.
A história do Kombi por aqui começou em 1950, quando as primeiras unidades vieram importadas pela Brasmotor que continuou importando Kombis praticamente prontos até junho de 1953. Neste mesmo ano a Volkswagen se estabeleceu no Brasil lá na Rua do Manifesto no bairro do Ipiranga em São Paulo. Logo que ela começou efetivamente a montar veículos, montou CKDs também de Kombis, modelos chegaram em kits desmontados, os famosos CKD (Completely Knocked Down).
Mas foi em 2 de setembro de 1957 que ele ganhou alma brasileira, com produção local. De lá até 2013, foram cerca de 1,5 milhão de unidades fabricadas. perua, van, miniônibus… não importa o nome, o Kombi se autodefine. E quem viveu entre os anos 60 e 2000, como eu, nascido em 1970, certamente tem uma história com ele.
Minha primeira lembrança com o Kombi é afetiva. Meu avô Alexandre, imigrante russo e arquiteto dedicado à obras, era transportado pela empresa em um Kombi Corujinha azul clarinho ou, carinhosamente, azul “calcinha”. O motorista, Sr. Luiz, natural da querida cidade de Joanópolis, transportava o vovô e os operários para as obras semanalmente e às sextas no final do dia, me levava para passar o final de semana na casa dos avós — isso tudo no auge dos meus 5 aninhos. Eu vibrava com o passeio, aquele ronco do motor já começava a moldar minha paixão por carros.

Facelift e memória afetiva
Em 1976, meu avô apareceu com um novo Kombi, o Clipper bege. Foi pura conexão. Essa versão, conhecida como T1.5, era uma exclusividade brasileira, uma evolução da T1 com frente e traseira redesenhadas, portas dianteiras novas, painel mais moderno, volante tipo bumerangue e bancos com tecido mais refinado. O motor 1600 completava o pacote. Para mim, o Clipper T1.5 sempre foi o mais simpático e confortável, meu modelo preferido.

O transporte para as obras, bem como o passeio às sextas, continuou, porém com mais estilo, conforto e com um novo motorista, o Sr. José, pois o anterior se aposentou junto com o Corujinha.
Depois, quem se aposentou foi o meu avô, em 1978. Ainda assim, o Kombi continuou na minha vida por mais um tempinho, no transporte escolar. O Tio Araújo pilotava um Clipper T1.5 que levava a classe inteira — cerca de 20 crianças espremidas nas três fileiras e no famoso chiqueirinho, mas ninguém queria ir lá, pois esquentava demais! Naquela época, a segurança era uma faixa lateral com os dizeres “VEÍCULO ESCOLAR”. E é justamente desse modelo que guardo uma miniatura, como símbolo de uma infância sobre rodas.

Estágio, lotação e Kombi branco
Avançamos no tempo. Após um hiato com o Kombi, agora trabalhando como estagiário de Engenharia Automotiva — sim, ele foi um dos responsáveis pela definição da minha carreira — na firma em que eu trabalhava havia um motorista que fazia o transporte de equipamentos. Um dos veículos recém-comprados para esse fim era exatamente um Kombi T1.5 branco, já das últimas, isso em meados dos anos 90, pois em breve seria lançado o Kombi Carat, ou T2.
Estagiário é o tipo de profissional que ensina, aprende e tem juízo, principalmente se o chefe manda substituir o motorista que ficou doente e passar a semana no seu lugar guiando o Kombi. Quem sou eu para discordar? Sonho de infância: a primeira vez no comando do Kombi a gente nunca esquece. Eu já sabia que não deveria passar dos 40 km/h em qualquer curva.
Bem, a semana estava só começando quando, no segundo dia, deflagrou-se uma greve de ônibus — naqueles tempos greves eram muito mais frequentes.
E lá fui eu tocar o dia. Os corredores de ônibus estavam liberados e, ao passar pela Av. Sto. Amaro, reparei que o corredor estava repleto de Kombis. Na minha frente parou um e saiu um moço gritando: CENTRO, CENTRO, 1 Real, 1 Real. Não me lembro bem o valor, mas era algo assim — lotou na hora.
Quando o Kombi da frente saiu, eu passei e, como estava vazio, não deu outra: o povo fez sinal de parada!!! Uma mulher gritou:
– “Moço, moço, você está indo para o centro?”
Eu não tive dúvidas, disse:
– “Sim, sim, 1 real, 1 real.”
Aí entraram umas 10 pessoas ou mais e fomos para a Pça da Bandeira. Depois segui caminho para o ABC via Av. do Estado. Na volta, não me aguentei: passei na Pça da Bandeira e levei uma turma para o Largo 13 em Santo Amaro.
O grande barato não foi ganhar uns trocados, mas sim passar pela experiência de motorista de lotação por um dia. Um pouco antes de eu sair dessa empresa para ir trabalhar em uma montadora, o Kombi foi furtado. Fiquei chateado e, naquele dia, fui com o motorista fazer o BO. Ele estava arrasado. Eu também…
Trigêmeos e despedida
Em 2013, a vida deu uma guinada: o médico nos avisou que estávamos novamente grávidos — porém, desta vez, trigêmeos a caminho!!! Nos tranquilizou dizendo que as crianças estavam muito bem acomodadas, pois minha esposa tem altura acima da média. Porém, nos deu uma péssima notícia: o Kombi estava saindo de linha!

E lá fui eu visitar o meu amigo Alexandre, que trabalhava em uma concessionária. Mas o Kombi somente por encomenda, pois era o último lote. Por sorte, havia um à disposição e fui fazer o test-drive. Foi a minha despedida do Senhor Perua, que acompanhou gerações — agora se aposentava com dignidade.
Conclusão
O Kombi não é só um carro. É uma cápsula do tempo, uma extensão da casa, uma escola sobre rodas, um escritório ambulante. É o veículo que, mesmo parado, continua em movimento dentro da gente. E como bem diz o autor:
“Muito obrigado, Senhor Perua Kombi Pão de Forma Kombosa querido.”
Ele merece. E nós também.
O André Pronin se apresenta
Eu sou engenheiro automotivo, atuei por cerca de 30 anos na indústria automotiva e de autopeças, hoje sou um empresário no ramo de gestão predial, o que começou como uma necessidade, se tornou um modelo de negócio.
Sou filho do também engenheiro Mihail Pronin que é amigo desde o científico do Alexander Gromow, que, carinhosamente, me convidou para escrever esse causo e a quem eu agradeço. Quando meu pai está no Brasil a gente, meu pai, eu e o Alexander, costumamos nos encontrar para um jantar:

Agradeço ao André pela participação na coluna com seu interessante causo ligado a Kombis.
AG
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