Estive presente no Salão do Automóvel 2025 na avant-première (dia 21), no dia 25 e no dia 27 de novembro. Sempre uma ótima oportunidade para encontrar toda a indústria e amigos reunidos num só lugar para festejar o que temos de melhor.
O Salão iniciou suas atividades em 1960 no Parque do Ibirapuera e esteve naquele local até 1968 quando se transferiu para o Anhembi em 1970, permanecendo por lá até 2014 quando, depois de muitas críticas a infraestrutura existente, foi transferido para o São Paulo Expo nas edições de 2016 e 2018. Foi informalmente cancelado mesmo antes da pandemia em 2020, com diversas marcas anunciando que não participariam. A Covid-19 foi apenas a machadada final e a melhor das desculpas.
O Salão atual, apelidado de forma pejorativa por Salão do Lula ou Salão do Márcio (Lima Leite, ex-presidente da Anfavea), celebra o retorno do evento, depois de sete anos, à sua principal casa, o Anhembi, agora todo remodelado e, finalmente, climatizado. E tem muito a celebrar.
Uma das grandes críticas das marcas eram os altos custos envolvidos na contratação e na execução do Salão. As discussões eram acaloradas e giravam em argumentos desconexos e às vezes absurdos, como o de que o Salão do Automóvel não trazia resultado por não gerar vendas! Poderia não trazer resultados práticos diretos em vendas, mas traziam resultados em imagem, em força da marca, em mídia gratuita, entre outros.
Por uma ‘imposição’ do presidente Lula após incentivos à indústria e com o apoio em grande parte da Anfavea, o Salão retornou com regras fortes para a contenção de custos: espaços iguais para todos os participantes (500 m² de área total e permissão para construção de áreas internas de no máximo 120 m²) e apenas um pavimento. Hoje observamos uma uniformidade dos estandes, bem diferente do que observávamos no passado com estandes de dois andares, gigantes e barulhentos; querendo ou não os “financhatos” ganharam a briga pela diminuição dos custos.
O Salão sempre teve como objetivo trazer lançamentos de novas marcas, novos produtos, novidades e demonstrar carros-conceito ao público, atingindo perfeitamente este propósito e permitindo ao seu público ver de perto e discutir os lançamentos da indústria.
Os carros ficam estáticos para que o público possa ver e se aproximar das novidades. Este ano as novidades foram direcionadas para as arquiteturas de eletrificação, conceitos de veículos futuristas e uma viagem ao passado com diversos veículos que nos remeteram a tempos saudosos.
As ausências das marcas Volkswagen, Chevrolet, Ford, Nissan, Audi, BMW, Jaguar, Land Rover, Mercedes-Benz, Ferrari, Maserati, Porsche e Volvo foram sentidas. E, penso, faltou um pouco de divulgação, tanto que um amigo próximo que foi ao evento usando aplicativo de transporte comentou com o motorista sobre o Salão e este nem sabia que o evento estava acontecendo.
Corroborando tal entendimento, na avant-premère fui convidado por um dos executivos para ficar na área VIP da RX Brazil (com “Z” mesmo), a promotora do Salão, durante o show do J.Quest e ele foi genuíno em afirmar que não existia a menor pretensão em atingir os números de outros Salões que chegavam a marcas superiores a 750 mil visitantes. As expectativas oficiais apontam 700 mil pessoas, mas acredito em números mais modestos, próximos a 450/500 mil pessoas. Nada mau em se tratando de um retorno ou, como diz a própria propaganda do evento, “REimagine, REescreva, REVIVA”.
Entendo que algumas marcas ausentes irão retornar no próximo salão em 2027 que, diga-se de passagem, já foi anunciado pelo presidente da Anfavea, Igor Calvet. Sim, errei… pensava que este seria o último.
Apenas para valorizar as marcas que fizeram parte deste Salão do Automóvel, a seguir as fabricantes oficiais que participaram: BYD/Denza, CAOA-Chery, Changan, GAC, Geely, GWM (Haval, Ora, Poer e Tank), Honda, Hyundai, KIA, Lecar, MG, Mitsubishi/Suzuki, Omoda|Jaecoo, Renault, Stellantis (Citroen, Fiat, Jeep, Leapmotor, Peugeot, Ram) e Toyota/Lexus.
Com todo este contexto, é possível concluir que o salão cumpriu muito bem o seu papel principal.
Mas nem tudo foram flores
Dia 13 de junho eu havia escrito sobre o Festival Interlagos e por lá estavam BMW, BYD, Ford, GAC, GWM (Haval, Ora, Poer e Tank), Honda, Hyundai, Mercedes-Benz, Mitsubishi, Omoda|Jaecoo, Stellantis (Abarth, Fiat e Ram), Toyota/Lexus e Volvo.
Márcio Saldanha e Eduardo Bernasconi conseguiram criar, no vácuo do Salão do Automóvel, um evento que chamou a atenção do público por utilizar o Autódromo de Interlagos em São Paulo como local para test drives além de outras experimentações ao ar livre como pistas off-road, experimentação de supercarros, simuladores e outras atividades interativas com o público.
O autódromo por si só é digno de respeito, admiração geral e somente no atual traçado venceram brasileiros e campeões mundiais como: Alain Prost, Ayrton Senna, Damon Hill, Jacques Villeneuve, Jenson Button, Kimi Räikkönen, Lewis Hamilton, Max Verstappen, Michael Schumacher, Mika Hakkinen, Nico Rosberg, Nigel Mansell e Sebastian Vettel.
É nitidamente um evento diferente com foco na proximidade com o público e na experimentação do veículo em ação.
No Salão do Automóvel, elementos mais distantes do público geral ficaram evidentes e exigirão melhorias. Os dias de coletiva de imprensa casaram com as datas do evento na Fenauto (outro evento relevante da indústria automobilística), ficaram distante dos estandes com os produtos das marcas e, principalmente, o modelo adotado provocou uma distância dos executivos. Foram inúmeras horas sentados em dois dias seguidos, sem acesso a tomadas para recarregar laptops ou celulares, o que incomodou inúmeros jornalistas com quem conversei.
Não fui convidado para dar meu “pitaco” mas se fosse, e tendo que considerar o fator custo, indicaria uma única empresa para cuidar da gestão de duas ou três equipes de eventos para serem responsáveis para montar e desmontar cadeiras e equipamentos de som padrão para todos para se revezarem entre as coletivas nos estandes. Uma outra opção seria usar o ambiente do test-drive indoor para fazer as coletivas por lá! Fica a dica. O evento ficaria, com qualquer destas opções, muito mais próximo do que era antigamente com os profissionais todos próximos dos produtos e à disposição para falar com os executivos.
Ainda com respeito a melhorias aos jornalistas, a sala de imprensa precisa ser aprimorada e ampliada. Apesar de não ser jornalista, sempre convivi com muitos destes profissionais ao longo de minha carreira por dar minha visão sobre a indústria automobilística.
Outro ponto, participei da avant-première com uma credencial e no dia 21, pasme, fiquei 15 minutos proibido de entrar por haver uma pendência “em análise” na mesma credencial… Como? Enfim, as coisas foram resolvidas, mas enquanto outros profissionais já haviam entrado para exercer outras atividades, na minha vez indicaram que o horário de entrada seria apenas ao meio-dia! Era 10h30, já havia perdido 15 minutos nesta espera e meu compromisso já havia começado.
Após pegar minha credencial, fui ao portão indicado pelo evento que participaria e, para minha surpresa, a mesma pessoa que havia impedido meu acesso (aquela que ficou lá naqueles 15 minutos sem fazer muita coisa), estava lá para impedir a minha entrada!!! Não havia saído da sua cadeira um minuto sequer, só reclamando da informática e como um fantasma, apareceu no outro portão… A mesma atendente, com um ataque de superpoderes, estava lá para impedir a minha entrada que, diga-se de passagem, estava devidamente autorizada pois era convidado para um evento. Coisa desagradável! Infelizmente acontece e se acontece comigo, acontece com outros e, neste sentido, um outro ponto de melhoria relevante!
Test drive indoor
Os organizadores poderiam repensar esta questão! Não que a experimentação seja ruim, mas poderia ser melhorada. Em breve teremos a Fórmula E em São Paulo, no próprio Anhembi, dia 6 de dezembro. Será que não poderia ser utilizado parte do circuito para uma experiência mais emocionante? Ou mesmo um trajeto entre Anhembi e Sambódromo para ao menos o motorista poder acelerar um pouco mais um veículo que possui torque instantâneo como um veículo eletrificado?
Eu imagino que sim. Provavelmente com algum investimento adicional, mais segurança, entre outros fatores, mas a experiência ao consumidor seria muito melhor.
Neste contexto, segue minha última dica
É a terceira dica e vou pedir um Pix!
Brincadeira à parte, uma briga de mesmos interesses pode colocar em risco dois eventos de relevância para nossa indústria. Recomendaria aos organizadores do Salão do Automóvel e do Festival Interlagos que se reunissem, definissem as estratégias específicas e o tema principal de cada um dos eventos. Cada um dos eventos tem seus pontos mais representativos! Isto é fato.
O Salão com seu nome forte, história, foco na indústria e em novos lançamentos. O Festival, a ênfase no público e na experimentação. Ter as funções de cada um bem definidas será um ganha-ganha para a indústria e para todos consumidores de ambos os eventos.
Fazer do Salão do Automóvel o evento da indústria, das novidades, da tecnologia, dos lançamentos e da tendência, não tiraria aquilo que ele tem de melhor e deixar ao Festival de Interlagos com as atrações direcionadas a experimentação e outras ações de interação junto ao público igualmente não tiraria seu brilho. Seria, sem dúvida, bom para os dois e quem ganharia no final seria o público que teria acesso aos produtos da indústria uma vez por ano, sem qualquer concorrência, em eventos bem distintos.
Finalizo como uma frase que já utilizei na coluna de 13 de junho: “Torço para que coexistam com suas propostas distintas e que encontrem espaços complementares trazendo sempre ótimas novidades ao público em geral, mas tenho minhas dúvidas se estes dois eventos poderão coexistir, ao menos nos formatos hoje existentes ou recém anunciados”.
Sucesso a todos!
MKN
A coluna “Visão estratégica” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
Foto de abertura: alphaautos.com.br / fotos interiores: autor








